O que é o vício em exercício? – Como o vício em esporte pode tornar uma obsessão


Hoje no blog Saúde da Vida, vamos falar sobre “vícios nos esportes”. A obsessão nos esportes pode prejudicar e até acabar com os relacionamentos.
Vamos pra matéria!!!!!

Correndo em um parque, Valerie Stephan parece estar em paz ao cumprir seu ritual matinal. “Quando corro, sinto que estou ficando mais rápida, mais forte. É como uma série de pequenas vitórias”, diz a atleta amadora.

Há dez anos, Valerie começou a correr para melhorar sua forma física. Ela se inscreveu em uma prova de 5 km. Depois, passou para as corridas de 10 km e conseguiu completar uma maratona.

Mas, então, ela começou a acordar cedo todas as manhãs para treinar e a priorizar o esporte acima de tudo. “O exercício me controlava, em vez de eu controlar o exercício. Isso rapidamente se tornou uma obsessão e prejudicou meu trabalho, minha família, todos os aspectos da minha vida”, diz.

À medida que o vício aumentava, ela se isolava cada vez mais, até mesmo de pessoas próximas. “Algumas pessoas simplesmente não entendiam por que eu tinha de me exercitar. Elas me achavam um pouco louca.”

Atrasar-se para os compromisso ou reagendá-los e cancelá-los tornou-se a regra. Valerie passou a combinar de se encontrar com os amigos com a condição de que fossem jogar squash ou nadar, relaxando apenas quando atingia seu objetivo no dia. “Eles pensavam que não queria vê-los. Eu queria, mas tinha de treinar muito antes para não me sentir culpada.”

Sua obsessão também afetou outros relacionamentos importantes. “Eu nunca conseguia descansar. Estava sempre correndo. Nunca queria passar um tempo em casa.”

Depois de anos forçando os limites do seu corpo e da sua mente, Valerie ficou deprimida e esgotada. Precisou parar com tudo para se recuperar e ficou quatro meses sem trabalhar.

“Tudo o que eu queria era mostrar que era uma super-humana que tinha controle total. Não conseguia demonstrar o quanto aquilo era difícil emocionalmente para mim”, afirma Valerie.

O que é o vício em exercício?

Psicólogos dizem que a dependência em exercício se enquadra em uma categoria de vício na qual um comportamento se torna compulsivo e causa problemas na vida de uma pessoa.

Estima-se que isso afete cerca de 3% da população em geral, mas chegue a 10% entre os praticantes de corrida de alto desempenho.

Normalmente, os mais propensos ao vício ?são os atletas amadores que, como Valerie, buscam na atividade física alívio para algum sofrimento interno, diz a psicóloga Chetna Kang, do Hospital The Priory, em Londres, no Reino Unido.

“Muitas vezes, as pessoas chegam com problemas de relacionamento, ansiedade, depressão. Mas, quando você começa a analisar, percebe que o excesso de exercício é o motivo. Isso não é extremamente comum, mas está se tornando cada vez mais”, diz Kang.

Caz Nahman, psiquiatra de crianças e adolescentes especializada em distúrbios alimentares, diz que excesso de exercício é uma condição frequente entre seus pacientes.

“O exercício geralmente é benéfico para a saúde mental. É uma ótima maneira de gerenciar a depressão leve ou a ansiedade severa. Mas o excesso pode ter um impacto negativo”, afirma Nahman.

Os sintomas incluem lesões como fraturas por estresse, tendinite e falhas do sistema imunológico. Em mulheres, pode levar à interrupção da menstruação, osteoporose e distúrbios alimentares. Nos homens, provoca redução da libido.

Martin Turner, psicólogo de esportes da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, estuda atletas há dez anos e encontra regularmente pessoas que são dominadas por esse aspecto de suas vidas.

“Elas criam uma ideia de que o sucesso como atleta reflete seu valor como ser humano. ‘Se falho como atleta, sou inútil’. Quando correr se torna um elemento central de quem a pessoa é, ela pensa: ‘Se eu não correr, quem eu sou?’.”

Os estudos de Turner mostram que essas ideias estão geralmente associadas a um maior grau de dependência de exercícios, depressão, raiva, ansiedade e esgotamento.

“Existem três razões principais pelas quais essas crenças não fazem sentido. Primeiro, impedem o bem-estar, em vez de contribuir para isso. Segundo, refletem uma motivação de curto prazo. As pessoas correm para evitar a culpa e não pela atividade em si. Terceiro, isso não condiz com a realidade: uma pessoa precisa respirar, comer, se hidratar e dormir, mas não precisa correr”, diz o psicólogo.

Sintomas de abstinência

Enfrentar a abstinência da adrenalina e da endorfina liberadas pelo esporte pode ser particularmente difícil. Valerie tentou reduzir a carga de exercícios, mas isso teve um forte impacto sobre seu bem-estar, fazendo com que se sentisse mais inquieta.

Ela diz que isso a manteve presa em um ciclo vicioso. “Fico ansiosa quando não consigo treinar. Não consigo dormir, tenho dores de cabeça. Se não sair para me exercitar, parece que estou em uma prisão.”

Especialistas apontam que aparelhos ou aplicativos que monitoram o volume de exercício praticado podem alimentar este vício, especialmente se a pessoa é motivada por conquistas e perfeccionismo.

Usar esses dispositivos e compartilhar o desempenho pelas redes sociais faz com que essa prática se torne pública e competitiva, e torna ainda mais difícil reduzir a carga.

Valerie diz que adora estes aplicativos e os usa todos os dias para monitorar seu ritmo de corrida, volume de treino e seu progresso. “Você recebe elogios e vê como melhorou e o que seus amigos estão fazendo. Mas, se tenho uma maratona chegando e meu amigo está treinando mais, me sinto pressionada.”

Turner diz que estas ferramentas podem aumentar a obsessão e prejudicar a recuperação. “Elas podem ser uma injeção de autoestima. O problema é se te dizem que você ficou aquém de alguma forma. Você não foi tão bom quanto da última vez, não foi tão bom quanto seu amigo. Você fica constantemente competindo com os outros”, afirma o psicólogo.

A situação pode piorar ainda mais se a autoestima de uma pessoa estiver diretamente atrelada às suas realizações na prática de exercícios, diz Turner. “Se o aplicativo te diz que você não foi tão bem e você pensa que isso te torna um fracasso completo, é algo pode ser ainda mais problemático.”

O caminho para a recuperação

A treinadora de triatlo britânica Audrey Livingstone diz que estes aplicativos e aparelhos estimulam um comportamento doentio entre seus atletas.

“Alguns deles ficam muito ocupados checando o que os outros estão fazendo. Digo a eles que só precisam fazer melhor do que fizeram da última vez. ‘Concentre-se no seu próprio desempenho'”, diz ela.

Livingstone afirma que busca, nestes casos, reduzir a carga de exercícios dos seus atletas por uma semana. “Eles não gostam, questionam e lutam contra isso. Simplesmente, não entendem por que precisam descansar às vezes.”

Como com qualquer outro tipo de vício, interromper o ciclo vicioso e dar os primeiros passos rumo à recuperação pode ser um processo demorado e complicado. Turner acredita que, antes, é preciso reconhecer que há um problema.

“Uma das coisas que os atletas devem fazer é refletir sobre seus pensamentos, motivações e crenças. É importante ser realista e flexível e dizer ‘se não treinar hoje, pode ser ruim, mas certamente não é a pior coisa do mundo’ e reconhecer que só porque não treinou, isso não faz da pessoa uma perdedora.”

Para Valerie, buscar um equilíbrio entre exercícios e descanso é um desafio contínuo. Agora, com o apoio de parentes e amigos, acredita que está conseguindo se recuperar.

“Entender que aquilo se tornou um vício levou muito tempo. Precisei aprender a abrir mão de me exercitar, não ficar obcecada com isso e que não posso controlar tudo, ao dizer para mim mesma: ‘Você não precisa ser perfeita.”

Sono – Como dormir melhor( e em menos tempo)

É comum o pouco tempo de sono ser usado como motivo de orgulho, como uma espécie de prova de que se leva uma vida extremamente agitada.

Personalidades como Thomas Edison, Margaret Thatcher, Martha Stewart e Donald Trump relataram dormir de quatro a cinco horas por noite — muito menos que o período de sete a nove horas de sono recomendado para adultos.

Muitos de nós estão seguindo o exemplo daquelas personalidades: de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, mais de um terço dos adultos americanos não conseguem dormir o suficiente regularmente.

As consequências disso, como problemas de memória e maior propensão a infecções e obesidade, são bem conhecidas — mas fáceis de ignorar. Quando há muito o que fazer durante o dia, o sono ainda é o principal sacrificado.

Mas e se pudéssemos simplesmente otimizar a experiência do sono para que desfrutássemos da maioria dos benefícios do sono profundo, só que em menos tempo?

Essa possibilidade pode estar mais próxima do que parece, graças a novas técnicas de “otimização do sono”. Algumas experiências em diferentes partes do mundo mostraram que é possível aumentar a eficiência da atividade noturna do cérebro — acelerando a chegada ao sono profundo e melhorando o descanso quando chegamos lá.

Parece quase bom demais para ser verdade. Mas é isso mesmo?

Uma batida mais lenta
Em uma noite normal, o cérebro passa por estágios diferentes do sono, cada um com um padrão característico de ondas cerebrais, em que neurônios de diferentes regiões do cérebro atuam juntos, em sincronia, em um ritmo específico. É como uma multidão cantando ou tocando alguma batida em uníssono.

Durante a fase R.E.M., do “movimento rápido dos olhos” (tradução livre), esse ritmo é bastante rápido. É também este o período mais provável em que sonhemos.

Mas, em certos momentos, nossos olhos deixam de se mover, nossos sonhos desaparecem e o ritmo das ondas cerebrais cai para menos de uma “batida” por segundo — momento em que entramos em nosso estado de inconsciência mais profundo, chamado “sono de ondas lentas”.

É este estágio que tem sido de particular interesse para os cientistas que investigam a possibilidade da otimização do sono.

Desde os anos 1980, pesquisas vêm mostrando que o sono de ondas lentas é essencial para a manutenção do cérebro. Ele permite que as regiões cerebrais transmitam nossas memórias do armazenamento de curto ao longo prazo — para que não esqueçamos o que aprendemos.

“As ondas lentas facilitam a transmissão de informações”, diz Jan Born, diretor do Departamento de Psicologia Médica e Neurobiologia Comportamental da Universidade de Tübingen, Alemanha.

As ondas lentas também podem desencadear o fluxo de sangue e líquido cefalorraquidiano (material que circula entre o cérebro e a medula espinhal) pelo cérebro, liberando detritos potencialmente prejudiciais que poderiam causar danos neurais. Elas também reduzem o hormônio associado ao estresse, o cortisol, e ajudam a rejuvenescer o sistema imunológico.

Tais resultados levaram cientistas, incluindo Born, a considerar que aumentar a produção dessas ondas lentas poderia impulsionar os benefícios do sono e melhorar nossa atividade diurna.

Uma das técnicas mais promissoras para isso funciona um pouco como um metrônomo que conduz a atividade no cérebro ao ritmo certo. Em experimento, participantes dormem usando um dispositivo preso à cabeça que acompanha a atividade cerebral e é capaz de notar o início da produção de ondas lentas. Nesse momento, o dispositivo emite pulsos curtos de som suave em intervalos regulares durante a noite, em sincronia com as ondas lentas naturais do cérebro. Os sons são silenciosos o suficiente para evitar acordar o participante, mas altos o suficiente para serem registrados, inconscientemente, pelo cérebro.

Born liderou grande parte do trabalho experimental, descobrindo que esse estímulo auditivo suave é apenas o suficiente para reforçar os ritmos cerebrais necessários. Os participantes que usaram o dispositivo tiveram um desempenho melhor nos testes de memória, mostrando uma melhor capacidade de recordar o que haviam aprendido no dia anterior. Também foram observadas melhoras no equilíbrio hormonal, com redução nos níveis de cortisol; e no sistema imunológico.

Nos testes realizados até agora, os participantes ainda não relataram consequências indesejadas.

“Não podemos ter certeza, mas até agora não há efeitos colaterais óbvios”, diz Born.

Dormir melhor em uma loja perto de você
A maioria dos estudos que tentam incrementar o sono de ondas lentas foi realizada em pequenos grupos de participantes jovens e saudáveis. Para ter certeza dos benefícios dessas técnicas, precisaríamos assistir a experimentos maiores em grupos mais diversos. Mas essas evidências já existentes permitiram à chegada ao mercado de um punhado de dispositivos para auxiliar o sono, principalmente na forma de faixas de cabeça para serem usadas durante a noite.

A start-up francesa Dreem, por exemplo, produziu uma faixa (disponível por cerca de € 400 ou R$ 1,8 mil) que também usa a estimulação auditiva para estimular o sono de ondas lentas, com uma configuração semelhante à dos experimentos científicos — que foram confirmados por outros estudos.

O Dreem também se conecta a um aplicativo que analisa os padrões de sono e oferece conselhos e exercícios práticos, como meditação, para favorecer uma melhor noite de sono.

A faixa de cabeça para sono profundo SmartSleep, da Philips, explicita buscar contornar os efeitos negativos da privação de sono — para pessoas “que, por qualquer que seja o motivo, simplesmente não estão se dando uma oportunidade adequada de sono”, diz David White, diretor científico da Philips.

Esse produto foi lançado pela primeira vez em 2018 e, como o Dreem, trata-se de uma faixa para a cabeça que detecta a atividade elétrica do cérebro e reproduz periodicamente pequenos impulsos de som para estimular as oscilações lentas que são características do sono profundo. O dispositivo conta com um software que controla cuidadosamente o volume do som ao longo do tempo para garantir que ele dê o nível ideal de estímulo para cada usuário. Hoje, o produto está disponível apenas nos EUA por cerca de US$ 399 (cerca de R$ 1,6 mil).

White concorda que o dispositivo não pode substituir completamente uma noite de sono, mas lembra que é notoriamente difícil convencer as pessoas que costumam dormir pouco a fazer as mudanças necessárias no estilo de vida. Ao ampliar os benefícios do sono, esse aparelho ao menos contribui para a atividade cotidiana. Nesse sentido, as próprias experiências da Philips confirmaram que o SmartSleep aumenta o sono de ondas lentas em pessoas privadas de sono e atenua alguns dos efeitos imediatos dessa situação, como uma pior consolidação da memória.

Pesquisas futuras podem sugerir ainda mais maneiras inovadoras de otimizar o sono. Aurore Perrault, da Universidade de Concordia, no Canadá, testou recentemente uma cama de balanço suave que oscilava para frente e para trás a cada quatro segundos.

Ela diz que a técnica foi inspirada no bebê recém-nascido de um colega sendo ninado para dormir, levando a equipe a se perguntar se os adultos também podem se beneficiar desses movimentos suaves. Eles descobriram que participantes de testes entravam mais rápido na fase das ondas lentas e passavam mais tempo nela quando as ondas cerebrais se sincronizavam com o movimento externo. Como era de se esperar, eles também relataram sentir-se mais relaxados no final da noite, e isso foi novamente acompanhado pelos benefícios esperados para sua memória e aprendizado.

“Essa foi a cereja do bolo”, diz Perrault.

Se uma cama desse tipo for lançada no mercado, ela deverá ter um propósito semelhante às faixas de cabeça que estimulam sons. Perrault está particularmente interessado em ajudar as pessoas mais velhas, já que a quantidade de tempo no sono profundo parece diminuir à medida que envelhecemos, contribuindo potencialmente para alguns problemas de memória relacionados à idade.

Ainda assim, procure dormir

A nova opção está disponível contra miopia e hipermetropia e usa a tecnologia dos óculos Transitions, que se adaptam a diferentes níveis de luminosidade

Regulamentada nos Estados Unidos desde abril de 2018, uma lente de contato com grau que se ajusta à luz do ambiente enfim desembarcou nas óticas do Brasil. Ela foi criada pela marca Acuvue, da Johnson & Johnson, e estava aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 27 de maio de 2019, mas só agora é possível comprá-la.

Segundo a assessoria de imprensa da empresa, foram necessários dez anos de pesquisa para criar essa lente que usa a tecnologia Transitions — a mesma dos óculos que escurecem em ambientes bem iluminados e clareiam nos mais escuros.

Por enquanto, o produto está disponível apenas para correção de miopia e hipermetropia. As lentes devem ser trocadas e descartadas a cada 14 dias.

Além de proteger contra os raios UVA e UVB, a novidade bloqueia em até 70% a luz visível (ou luz azul), emitida pelo sol e por telas de aparelhos eletrônicos. A exposição excessiva e desprotegida a esses fatores está associada a degeneração macular e lesões na córnea e retina.

Quando a lente foi aprovada nos Estados Unidos, nós fizemos uma reportagem com mais detalhes sobre o assunto.

A inclusão dessa atividade na reabilitação de vítimas de ataque cardíaco traz resultados positivos, segundo novo estudo

Ganhar destaque no Congresso Europeu de Cardiologia em meio a remédios e aparelhos de última geração não é um feito trivial para uma prática milenar. E foi o que aconteceu com a ioga, protagonista de uma pesquisa indiana com 2 470 pessoas que sofreram um infarto.

Já nos primeiros dias após o susto, 1 470 voluntários começaram a experimentá-la diariamente, além de receberem todos os outros cuidados. O treino, que durou três meses, envolvia adotar certas posturas de manhã e reservar um tempo para técnicas de respiração à tarde.

Depois de cinco anos, notou-se uma taxa de mortalidade ligeiramente menor nessa turma, em comparação com a que passou pela reabilitação tradicional.

“A ioga é um exercício leve, o que já seria positivo no início da recuperação. Mas ela ainda traz um componente de relaxamento”, avalia o cardiologista Marcelo Nishiyama, da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Segundo ele, que acompanhou a apresentação dos dados, em Paris, o estresse eleva o risco de uma segunda pane cardiovascular.

Repouso total é coisa do passado

Há um consenso de que o imobilismo prejudica ainda mais o indivíduo que infartou. “Mesmo quando está na UTI, ele deveria mexer um pouco os membros com o apoio de especialistas”, diz Nishiyama. Conforme vai melhorando, o paciente precisa incorporar progressivamente mais doses de movimento no cotidiano.

A ioga é uma ótima opção, porém não a única. Converse com seu médico sobre caminhadas ou outras modalidades que preferir. Acredite: isso vai afastar outros perrengues.

Mesmo sendo demonizado, esse alimento se mantém em alta e vem se reinventando em receitas mais saudáveis. Tem gente até que começou a prepará-lo em casa

Farinha, água, fermento e sal. Você só precisa de quatro ingredientes para fazer um belo pão — algo que nossos ancestrais descobriram há coisa de 6 mil anos. “Se considerar o tipo ázimo, não fermentado, a receita pode ter até 20 mil anos”, conta o consultor gastronômico Luiz Américo Camargo, pesquisador de panificação caseira desde 1990 e autor do livro Pão Nosso (Editora Panelinha, em parceria com o Senac).

“O alimento ajudou a organizar o modo de produção agrícola, já que sua preparação obrigou as tribos a cultivar regularmente trigo, centeio, cevada etc.”, explica Camargo. Ou seja, o pão pode não ter feito parte da dieta dos homens das cavernas, mas também não entrou em nossa vida ontem, como seguidores de menus à base de carnes e vegetais costumam dar a entender.

Mais do que isso: ele está longe de ser símbolo de uma alimentação desajustada. “Italianos, franceses e povos de países do Oriente Médio são grandes comedores de pão. E eles têm menos problemas de saúde do que outras populações com médias bem menores de consumo”, compara Camargo.

Ainda assim, a onda da low carb, dieta com baixa ingestão de fontes de carboidratos, angariou vários adeptos. Quem nunca viu um amigo ou familiar fugir de pães, massas e arroz para emagrecer? “Na maioria das vezes, cortes assim levam a uma redução na ingestão calórica e, consequentemente, à perda de peso”, justifica a nutricionista Luciana Lancha, de São Paulo.

Ocorre que isso não é sinal de sucesso. Após um tempo seguindo um cardápio tão restritivo, a tendência é voltar ao padrão (ou seja, ao peso) anterior. “Em vez de focar em um grupo alimentar, o ideal é buscar mudar o estilo de vida. Os resultados demoram mais a aparecer, mas são realmente duradouros”, garante Luciana.

Cada um no seu forno

Há inúmeros tipos de pão. O expert Luiz Américo Camargo ensina as diferenças entre alguns dos mais conhecidos

Italiano: pasme é criação de imigrantes italianos de São Paulo. “As boas padarias fazem com farinha, água, fermento natural e sal.”

Australiano: foi inventado por uma rede de restaurantes que nem australiana é. Há receitas que levam chocolate, outras café… Nada padronizado.

Pão de fôrma: a massa dos mais industriais às vezes nem fermenta direito. Só é batida. Evite os lotados de ingredientes.

De centeio: “Um clássico!”, diz Camargo. Se bem-feito, fica muito bom. A fermentação longa dá sabor marcante e leveza à receita.

Francês: pão simples, crocante e, em geral, com durabilidade curta. “Alguns padeiros abusam de açúcar e gorduras.”

Pão sírio: é da família dos pães chatos, como pizza e foccacia. É ótimo para acompanhar refeições e montar sanduíches.

Bisnaguinha: a da padaria segue a tradição dos pães de leite. Já a industrial costuma esbanjar açúcar, gordura e aditivos. Olhe o rótulo.

Croissant: mais um clássico. Para Camargo, poucos o preparam direito. “Enrolados massudos não são croissants”, crava o especialista.

O pão dentro de uma rotina saudável e balanceada

Para além do emagrecimento, há quem enxergue a exclusão de pães e afins como solução para domar picos de açúcar no sangue e baixar o risco de diabetes e doenças do coração. “Mas, até o momento, não há evidências de que a redução exagerada de carboidratos faça realmente bem à saúde”, afirma a nutricionista Débora Bohnen Guimarães, coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes.

“O ponto-chave é a proporção. Porque, de fato, o excesso traz problemas”, pontua a nutricionista Isabela Pimentel Mota, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Quem viu de perto os dois lados da moeda foi a pesquisadora Sara Seidelmann, em um estudo conduzido no Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos, e publicado no respeitado periódico científico The Lancet.

Após analisar 15 428 americanos e cerca de 432 mil indivíduos de mais de 20 países, ela constatou que tanto a alta (70% ou mais) como a baixa (40% ou menos) porcentagem de calorias vindas de fontes de carboidratos elevavam a mortalidade. O menor risco ficou atrelado a um consumo de 50 a 55% de calorias representadas pelo nutriente — valor sugerido há tempos pelos especialistas.

Sara ressalta, porém, que, se as dietas pobres em carboidratos contam com proteínas e gorduras de origem vegetal como substitutas, o risco de morrer acaba sendo menor do que quando a troca é por proteínas e gorduras animais (carne, ovo…).

De qualquer maneira, o recado é que ninguém precisa dar adeus ao pãozinho de cada manhã. “Esse alimento faz parte da dieta humana há dezenas de milhares de anos e pode integrar uma rotina saudável”, tranquiliza a estudiosa. Para ela, o pulo do gato é focar em versões ricas em grãos integrais, que fornecem fibras. “Elas costumam ter índice glicêmico baixo e ajudar na saciedade”, concorda Débora.

Por falar em índice glicêmico (ou IG, para os mais íntimos), que é a velocidade com que o alimento é convertido em açúcar e liberado na circulação, Luciana Lancha frisa que esse conceito não precisa ser levado a ferro e fogo pela população em geral.

“Embora o pão branco tenho um alto IG, ele não é consumido puro”, explica. Quando o associamos a um queijo, por exemplo, o açúcar demora mais a dar as caras no sangue, porque ambos devem ser digeridos e absorvidos. “O organismo não pega o pão primeiro e depois o queijo. Vai tudo junto”, diz Luciana.

Apesar de não ser um sacrilégio sucumbir ao pão branco, o integral realmente soma mais vantagens. “É que o refinamento leva embora fibras, nutrientes e fitoquímicos”, resume Isabela.

Para o nutricionista Igor Ucella, do Centro Universitário Senac Santo Amaro, na capital paulista, esses elementos podem vir de outras fontes, não só do trigo. “A panificação tem trazido opções com mandioquinha, batata-doce, inhame…”, exemplifica.

O que considerar na hora da compra

No pacote: é interessante que a farinha integral, com mais fibras, apareça em primeiro lugar na lista de ingredientes, que é em ordem decrescente. Compare os teores de sódio e gorduras — em um pão com castanhas, é natural ter mais desse nutriente. Prefira os produtos com receitas mais simples, sem mil ingredientes.

Pão branco: fornece energia de forma mais rápida. Por isso, pode ser indicado no pós-treino para acelerar a recuperação. Porém, no processo de refinamento, perde fibras, vitaminas e minerais. E os picos de glicose facilitam o ganho de peso.

Pão integral: preserva mais nutrientes e fibras, que contribuem para a saciedade e auxiliam o trânsito intestinal. No entanto, nem todo mundo curte de cara o sabor do pão 100% integral. Uma boa é começar aos poucos, com misturas de farinhas.

Ops, embolorou: as manchas azuis que surgem no pão após um tempo são sinais de fungo. Há quem tire essas partes e coma o resto. “Mas os fungos já podem ter se espalhado. Só não enxergamos”, alerta Carmen Tadini, engenheira de alimentos do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), da Universidade de São Paulo. Evite!

Por que o mais brasileiro dos pães é conhecido como francês?

Não se engane: o carro-chefe das padarias nacionais não tem nada de gringo. “Esse pão nem existe na França”, nota Rui Gonçalves, vice-presidente do Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de São Paulo (Sampapão). O que aconteceu foi o seguinte: ao vir para cá, no início do século 19, a corte portuguesa não gostou da receita tupiniquim.

“A nova clientela começou a exigir pães mais branquinhos, como os dos franceses. Daí surgiu um pão de produção cotidiana, com farinha de trigo branca, que passou a ser chamado, com o tempo, de francês”, esclarece Camargo.

Outros apelidos pelo brasil

Cacetinho: é desse jeito que os gaúchos se referem ao famoso pãozinho.

Jacó: em Sergipe, pode encostar no padeiro e pedir por ele.

Careca: esse é o nome conhecido entre quem mora no Pará.

Carioquinha: foi batizado assim no Ceará. Lá também se chama pão de sal.

A febre dos pães artesanais
Segundo a americana Sara Seidelmann, os pães artesanais, produzidos por métodos semelhantes aos dos tempos antigos, são mais rústicos. “E provavelmente melhores para a saúde”, avalia.

A expert em panificação Julice Vaz, dona de um dos empreendimentos pioneiros em oferecer esse tipo de produto, em São Paulo, observa que a digestão é facilitada. “Ao usar um fermento natural, formado por micro-organismos, não é necessário incluir mais nada na receita”, justifica.

“Esse pão ainda tem melhor sabor e aroma, além de maior durabilidade”, afirma. Não à toa, tem muita gente cultivando seu próprio fermento e preparando o alimento em casa.

Mas não tem problema buscar o pão de cada dia no supermercado. “Ele inclusive está sujeito a regras e fiscalização mais controladas”, aponta Carmen Tadini. É preciso checar ingredientes e tabela nutricional e comparar os pacotes. “Essa sempre é uma atitude saudável”, frisa.

Comendo com parcimônia e fazendo boas escolhas, até quem tem diabetes pode manter o pãozinho na rotina. “O carboidrato é sinônimo de energia e vida, especialmente para quem usa insulina”, informa Débora.

A retirada acentuada do nutriente traz prejuízos para esse pessoal, como risco de crises frequentes de hipoglicemia — quando o açúcar baixa demais, vêm confusão mental, palpitações e outros incômodos. Já o mau humor pega todo mundo que é fã do pão e tenta limá-lo da dieta. Sorte que ninguém tem motivos para cometer essa insensatez.

Botando a mão na massa

Cada vez mais pessoas estão preparando o próprio pão. Eis alguns pontos importantes do processo

Fermento natural: tem leveduras e bactérias que você deve alimentar com farinha e água. Na digestão vagarosa de amido, elas liberam gases. O pão cresce e ganha sabor e aroma únicos.

Fermento biológico: feito industrialmente com leveduras. Como a concentração delas é alta, gera gases rapidamente e o pão se desenvolve logo. A dica é usar menos para um melhor sabor.

Na máquina: a sova, o descanso e o tempo de forno são no aparelho. Se usar bons ingredientes e fermentação lenta, também é artesanal. Mas se perde a parte manual do processo.

Os melhores ingredientes

Sementes: elas são fontes de nutrientes, como proteínas e gorduras boas. Prove as de abóbora, girassol, linhaça e chia.

Oleaginosas: mais redutos de substâncias do bem, a exemplo de gorduras insaturadas e minerais. Teste castanhas, nozes e amêndoas.

Raízes: batata-doce, inhame e beterraba deixam a receita mais nutritiva e fornecem sabor, cor e aroma diferenciados.

Farinha integral: deixa o pão com mais fibras, vitaminas e minerais. Se quiser acostumar o paladar aos poucos, tudo bem mesclar com a branca.

O que pode acompanhar o pão no café da manhã

Queijos magros: ricota e minas frescal são do time. Só não abuse. Se a fatia parar em pé, sinal de que está grande demais.

Ovo mexido: ele carrega proteínas. Por isso, ao combiná-lo com o pão, a glicose não dispara no sangue. Maneire no óleo.

Manteiga: essa é tradicional. Mas possui gordura saturada, cujo excesso eleva o colesterol. Use só um pouco.

Os ingredientes parceiros no jantar

Peixe, frango…: para uma refeição, inclua carne magra, frango desfiado ou atum. Embutidos não são legais.

Salada fria: Alface, cenoura, tomate e companhia adicionam vitaminas, minerais e fibras ao lanche. Capriche.

Vegetais cozidos: no inverno, eles caem como uma luva. Abobrinha, berinjela, espinafre… Varie cores e sabores.

Pastinhas: o grão-de-bico cozido vira uma pasta que deixa o sanduíche mais apetitoso e saudável.

Pessoas a partir de 5 anos de idade com câncer, infecção pelo vírus HIV ou que passaram por transplante de órgãos terão direito ao imunizante

Uma proteção extra contra doenças causadas pelas bactérias pneumococo — como pneumonia e meningite — acaba de chegar à rede pública. O Ministério da Saúde anunciou a inclusão da vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13) no Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com câncer, portadores do vírus HIV e indivíduos transplantados.

Também chamada de Prevenar 13, ela é a única capaz de proteger contra os 13 subtipos mais comuns dessa bactéria no mundo (1, 3, 4, 5, 6A, 6B, 7F, 9V, 14, 18C, 19A, 19F e 23F). Produzida pelo laboratório Pfizer, já estava disponível desde 2016 nas clínicas privadas brasileiras.

“São várias as doenças provocadas pelo pneumococo. Ele é um dos principais agentes causadores de pneumonia, por exemplo”, informa a pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

A especialista conta que todas as crianças do país já têm direito a outro imunizante que afasta o risco de infecção por esse inimigo da saúde. Trata-se da vacina pneumocócica conjugada 10-valente (VPC10). Ela deve ser aplicada aos 2 meses de vida, com reforços aos 4 e 12 meses.

De acordo com a Sbim, 70% dos casos de doenças graves decorrentes do pneumococo são evitados com essa versão. Já a Prevenar 13, por proteger contra três sorotipos a mais, levanta esse número para 90%.

“Agora, em geral, pessoas com mais de 5 anos não têm indicação rotineira, porque o risco de complicações é baixo”, informa Isabella. No entanto, quando falamos de indivíduos com quadros que suprimem as defesas do corpo, o perigo de o pneumococo causar estragos é consideravelmente maior. Daí porque o SUS optou por oferecer daqui em diante a VPC 13 para aqueles três grupos de pacientes.

Como será a vacinação agora

Antes da inclusão do novo imunizante, o SUS disponibilizava a pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23) para esses mesmos pacientes. Entretanto, ela é menos eficaz e seu tempo de duração é menor. A Prevenar 13, portanto, chega para complementar o tratamento dos maiores de 5 anos.

“O esquema de doses inclui as duas. Primeiramente, deve-se tomar a VPC13. Doze meses depois, a VPP23 e, após cinco anos, a VPP23 novamente”, ensina a Isabella.

Segundo a vice-presidente da Sbim, a Prevenar 13 é segura e não possui contraindicações dentro dos grupos aos quais é recomendada. “Ela pode causar apenas dor no braço e vermelhidão local. É importante que o médico dê orientações”, completa a pediatra.

Onde encontrar a Prevenar 13

Diferentemente da VPC10, ela não será oferecida em todo posto de saúde. Assim como a VPP23, é necessário visitar os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries). Essas instalações estão presentes em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.

“Para ter acesso à vacinação, é preciso receber um laudo médico justificando a recomendação”, orienta a pediatra. Como dissemos, na rede pública apenas pacientes oncológicos, portadores do vírus HIV e indivíduos transplantados se beneficiarão dela.

Já nas clínicas privadas, a aplicação se estende a outras turmas que correm um risco maior de sofrerem complicações da infecção por pneumococo. Indivíduos com diabetes e hipertensão estão entre elas.

Saiba reconhecer se você realmente tem esse tipo de pele, quais suas principais causas e, claro, os cuidados para deixá?la sempre bonita e saudável

Existem pessoas com pele normal, oleosa, seca e mista. Tais definições dependem de um fator essencial para a saúde da pele: o equilíbrio entre a quantidade de água e óleo – esse último, produzido pelas glândulas sebáceas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a pele seca é caracterizada por uma perda de água em excesso. Malnutrida, ela não consegue desempenhar a importante função de barreira protetora, comprometendo seu visual e sua saúde.

Reconhecendo a pele seca

Os poros são pouco visíveis e seu aspecto é sem brilho, não luminoso. Em alguns casos é possível observar áreas vermelhas, ásperas e descamadas, além de causar sensação de repuxamento, coceira e queimação. A pele seca também apresenta maior tendência à perda de elasticidade, abrindo caminho para o surgimento de pequenas fissuras. Pessoas com todos os
tipos de pele estão sujeitas à desidratação em áreas específicas – como calcanhar e cotovelos –, mas trata-se de algo pontual e reversível.

Principais causas

Uma pele ressecada pode ser causada tanto por fatores internos quanto externos. No primeiro item, destaca-se a predisposição genética, problemas de saúde como o diabetes, e irregularidades hormonais, como as provocadas pela menopausa ou por disfunções na tireoide. Já os fatores externos englobam questões como o tempo frio ou seco, banhos demorados e muito quentes, além de pouca ingestão de água no dia a dia. Vale lembrar que o ressecamento cutâneo constante tende a ocasionar outros problemas dermatológicos, como eczema e psoríase.

Rotina de cuidados

Procure beber, no mínimo, 2 litros de água por dia. O banho também é um momento de atenção: nada de duchas demoradas e muito quentes, e evite o uso excessivo de sabonetes e buchas, que acabam eliminando a barreira de proteção da pele. No caso dos cosméticos, com tantas opções disponíveis, quem sofre com os problemas da pele seca precisa ter mais critério na escolha do produto. O Bio-Oil Gel para Pele Seca, por exemplo, ajuda a reter a umidade natural da pele, além de revitalizar, suavizar e nutrir. O produto ainda recupera a flexibilidade e elasticidade perdidas, aliviando quadros de secura e descamação.

PELE NUTRIDA e ULTRA-HIDRATADA

A fórmula de Bio-Oil Gel para Pele Seca é ultraconcentrada e 100% ativa. Ao contrário da maioria do cremes e loções do mercado – que possuem, em média, 70% de água e logo evaporam sem hidratar a pele – o novo produto de Bio-Oil tem apenas 3% de água e 80% de óleos e manteigas, como a de karité, hidratando profundamente e reparando a barreira cutânea natural.

Basta aplicar uma gota do gel na área ressecada para sentir os resultados.

Parasita até então desconhecido já teria infectado aproximadamente 150 pessoas em Sergipe, incluindo pelo menos uma vítima fatal

Uma doença emergente, com sintomas parecidos aos da leishmaniose visceral, acaba de ser descrita pela primeira vez por pesquisadores brasileiros. Mais grave e resistente a tratamentos, ela é provocada por um parasita até então desconhecido, já infectou cerca de 150 pessoas e matou ao menos uma delas.

O primeiro caso foi identificado em 2011, em Aracaju (Sergipe). Um homem de 60 anos, com sintomas de leishmaniose visceral — problema endêmico em algumas regiões do país — deu entrada no hospital já em estado grave, o que não é comum. Via de regra, a leishmaniose evolui mais lentamente.

“Ele não respondeu aos tratamentos convencionais, com quatro recidivas que resultaram em novas internações”, explicou, em comunicado à imprensa, Roque Pacheco Almeida, imunologista da Universidade Federal do Sergipe (UFS), que atendeu o caso, descrito em artigo recém-publicado no periódico Emerging Infectious Disease. “Em mais de 30 anos trabalhando com leishmaniose, com mais de 11 mil indivíduos diagnosticados, nunca tinha visto nada parecido”, destaca o médico.

O homem em questão apresentou ainda lesões de pele características de outro tipo de leishmaniose, a tegumentar, que geralmente é mais branda. Ele acabou morrendo em 2012.

Esse caso dramático e intrigante motivou uma investigação feita por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos, da Universidade de São Paulo e da UFS. Os resultados, mostrados no estudo, são claros: trata-se mesmo de uma nova espécie, que infecta mamíferos e pode ameaçar a saúde.

O novo inimigo da saúde

Nem o agente infeccioso nem a doença têm nome. Sabe-se que o parasita se parece com o Crithidia fasciculata, uma espécie de protozoário que infecta insetos, mas é incapaz de fazer o mesmo com mamíferos. Já a leishmaniose é causada por espécies do gênero Leishmania.

O Crithidia e o Leishmania são da mesma família do Trypanosoma cruzi, que deflagra a Doença de Chagas. Análises genômicas ajudaram a confirmar que se tratava de uma espécie desconhecida, provavelmente pertencente a esse grupo maior de micro-organismos.

Após essa identificação, a equipe cultivou em laboratório o mesmo protozoário que circulava no corpo daquela vítima fatal, e confirmou que ele era capaz de infectar, além de seres humanos, camundongos.

Esse projeto foi financiado pelo Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (Crid) da Fapesp, com participação da Fiocruz e dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês).

Confusão com a leishmaniose?

A leishmaniose visceral é causada por mais de uma dezena de protozoários do tipo Leishmania, transmitidos pelo mosquito palha. A doença afeta fígado e baço e, se não tratada, pode ser fatal.

A Organização Mundial da Saúde calcula entre 50 e 90 mil casos ao ano no mundo. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, são 3 500 indivíduos afetados no mesmo período, com mortalidade crescente: de 3,1% em 2000 para 7,1% em 2012.

“A alta pode estar relacionada ao surgimento dessa nova doença, parecida com a leishmaniose visceral, mas mais grave e resistente aos tratamentos”, comentou Almeida no texto de divulgação. Ou seja, alguns óbitos dos últimos anos atribuídos à leishmaniose na realidade decorreriam dessa nova ameaça. Mas isso não foi confirmado.

A transmissão dessa doença

Uma das suspeitas do grupo de pesquisadores é a de que o novo parasita seria carregado por dois gêneros de mosquito: o Culex, famoso pernilongo que atormenta as noites quentes brasileiras, e os anofelinos, que estão por trás da malária.

Mais estudos são necessários para confirmar a hipótese, bem como entender o ciclo de vida do micróbio, seus reais hospedeiros e efeitos da infecção pelo corpo. Já se sabe, contudo, que ele tem potencial para se tornar um problema de saúde pública, principalmente se não receber a devida atenção das autoridades.

Fomos ao Congresso Brasileiro de Infectologia e mapeamos alguns dos principais desafios envolvendo doenças causadas por vírus e micróbios no país

Acompanhar o Congresso Brasileiro de Infectologia, cuja vigésima primeira edição acaba de ocorrer em Belém do Pará, é ter um painel do que vírus, bactérias, fungos e companhia vêm aprontando por aí e, ao mesmo tempo, um retrato das diversas (e desiguais) realidades do país. Enquanto regiões ainda penam com doenças que parecem (mas só parecem) coisa do passado, como a hanseníase, nas grandes cidades os hospitais mais modernos já quebram a cabeça para contra-atacar micróbios resistentes e letais. O ponto em comum, e que independe de lugar ou classe social, é: as doenças infecciosas continuam sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo.

Queda na vacinação, desmatamento e crescimento urbano, mudança climática, falta de informação… Tudo isso conspira para que micro-organismos ganhem terreno e imponham problemas à humanidade. A medicina corre atrás, buscando não só novos imunizantes e tratamentos, mas estratégias mais eficazes de esclarecer e engajar a população a se defender. Inclusive porque, em matéria de moléstias infecciosas, todo cidadão tem um papel a cumprir: seja lavando as mãos e não usando antibiótico por conta, seja limpando o quintal para não dar abrigo ao mosquito da dengue.

Mapeamos, a seguir, alguns dos temas mais preocupantes debatidos no congresso, que reuniu mais de 2 mil profissionais em Belém entre os dias 10 e 13 de setembro.

É ano de dengue

Entre as doenças disseminadas pelo mosquito Aedes aegypti, capaz de transmitir dengue, zika e chikungunya, a dengue já é o principal tormento de 2019. Como o próprio Ministério da Saúde divulgou, já foram registrados mais de 1,4 milhão de casos até agosto deste ano — um aumento de quase 600% em relação a 2018.

Segundo o infectologista Antonio Carlos Bandeira, da Vigilância Epidemiológica do Estado da Bahia, 65% dos casos e notificações vêm ocorrendo na região Sudeste. Só em São Paulo houve, até março deste ano, um incremento de mais de 2 000% na quantidade de pessoas acometidas. O Centro-Oeste fica em segundo lugar entre as regiões problemáticas.

O sorotipo 2 do vírus da dengue (existem quatro) é o que mais circula pelo Brasil nesta temporada. Ao suspeitar do quadro — que pode provocar, entre outras coisas, febre, dor de cabeça e no corpo —, o conselho é procurar um serviço de saúde quanto antes. A identificação e o manejo precoce evitam complicações e mortes.

A tendência de crescimento da dengue felizmente não se repete com dois outros vírus transmitidos pelo Aedes aegypti, o zika (2,3 mil casos prováveis até março de 2019) e o chikungunya (15,3 mil), que se mostram mais estáveis no número de episódios em comparação com o ano anterior.

Ainda assim, não dá para bobear com o mosquito. A prevenção inclui desde eliminar os criadouros a recorrer a repelentes e telas em casa. Bandeira reforçou a necessidade de se investir em novas tecnologias, como larvicidas biológicos e vacinas contra as infecções.

A epidemia dos micróbios resistentes

Eis um tema inescapável e que dominou boa parte das conferências e debates no congresso. A resistência antimicrobiana, que é a capacidade de bactérias e fungos repelirem os tratamentos disponíveis, já entrou na lista das dez prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas projeções vislumbram que, por volta de 2050, o problema vai causar mais mortes que outra doença em ascensão, o câncer.

As causas do fenômeno não se resumem ao uso indiscriminado de antibióticos e outros remédios na medicina humana. “A maior parte dos antibióticos produzidos hoje é voltada à agropecuária e empregada como fator de crescimento para o cultivo de animais e em algumas plantações”, observou o médico Marcos Cyrillo, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A utilização massiva, e que envolve inclusive algumas substâncias similares àquelas que tratam infecções em humanos, tem repercussões, diretas e indiretas, no meio ambiente e até no que acontece dentro dos hospitais. Num mundo em que os micro-organismos são praticamente onipresentes, tudo se encontra conectado. E, quem diria, até o aquecimento global tem um dedo nessa história.

Cyrillo abordou em uma apresentação o papel da mudança climática no crescimento da resistência antimicrobiana. É que, simplificando uma questão complexa, o aumento da temperatura seria capaz de tornar bactérias e fungos mais perigosos. Acredita-se que esse fenômeno tenha contribuído para o surgimento e a expansão das infecções por Candida auris, um fungo altamente letal e que já causa furor em hospitais (por enquanto, fora do Brasil). Já não dá mais para separar a saúde humana do bem-estar do planeta.

A explosão das doenças sexualmente transmissíveis

Esse foi o título de uma das conferências do congresso. E duas doenças causadas por bactérias que voltaram com tudo protagonizaram discussões. Falamos da gonorreia e da sífilis.

O termo “explosão” das ISTs — sigla para infecções sexualmente transmissíveis, antigamente conhecidas por DSTs — não é exagerado. De acordo com a infectologista Miralba Freire, professora da Universidade Federal da Bahia, a OMS calcula que mais de 1 milhão de infecções do tipo sejam adquiridas por dia pelo mundo.

A gonorreia é a segunda IST mais prevalente em boa parte do globo. Segundo a médica, hoje ela atinge mais pessoas jovens e homens que fazem sexo com outros homens. E a doença não apronta só com os genitais, não. “Vem crescendo o número de casos com acometimento do reto e da faringe”, relatou Miralba.

Da mesma maneira que acontece com outras infecções bacterianas, a gonorreia também atormenta os médicos devido à resistência a antibióticos.

Para deter seu avanço, precisamos investir em relações sexuais seguras, com o preservativo, e realizar o teste que detecta a bactéria — em alguns grupos, o exame deve ser periódico e repetido com maior frequência.

Raciocínio semelhante se aplica a outra IST da pesada, a sífilis. “Ela cresce em todas as regiões do mundo e tem um importante impacto psicossocial e econômico”, afirmou o infectologista Aluísio Segurado, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São mais de 6 milhões de vítimas com idades entre 15 e 49 anos hoje.

Para o especialista, a ascensão da doença no país não se deve apenas a mais diagnósticos. “Há um aumento na circulação do agente infeccioso”, apontou. A sífilis pode lesar os genitais e ainda desatar complicações em várias áreas do corpo. Gestantes e seus rebentos inclusive enfrentam o perigo da sífilis congênita, quando a bactéria ataca o bebê ainda no ventre materno (muitos casos são fatais).

Para quebrar a epidemia da moléstia, Segurado salientou a necessidade de esclarecer mais a população e criar condições para que se faça diagnóstico e tratamento quanto antes.

O drama da hanseníase continua

A doença provocada pela bactéria Micobacterium leprae — e durante séculos conhecida como lepra — ainda é um desafio para o Brasil. Se passou pela sua cabeça um pensamento do tipo “isso ainda existe?”, saiba que, não apenas existe, como nosso país tem o segundo maior contingente de pessoas com a doença no planeta (só perdemos para a Índia).

Em uma apresentação emocionada no congresso, o infectologista Marcio Gaggini, professor da Universidade Brasil, em Fernandópolis (SP), convocou médicos, autoridades e sociedade a olharem mais para o problema e suas vítimas, muitas delas esquecidas pelos quatro cantos do país. Segundo o especialista, mais de 200 mil cidadãos podem ter ficado sem diagnóstico e assistência nos últimos anos.

O Brasil aloja 91% dos casos de hanseníase da América Latina. Por aqui, a maior parte dos episódios ocorre nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Muitos dos pacientes só descobrem a doença depois que ela provocou deformidades na pele, nas mãos, no rosto…

A bactéria causadora é transmitida pelo ar — esqueça aquela história de que, ao tocar em alguém com hanseníase, você pegou! — mas pode ser erradicada com tratamento. “As pessoas estão sofrendo hoje com diagnóstico tardio e sequelas”, revelou Gaggini. Campanhas e ações dirigidas a regiões e comunidades mais afetadas pela condição são urgentes.

Sim, também precisamos conscientizar a população. Na presença de alterações como manchas e lesões na pele, acompanhadas por falta de sensibilidade, procure um médico ou serviço de saúde. Não só existe tratamento para hanseníase como ele pode levar à cura.

Os experts sempre pedem para não permanecermos muito tempo sentados. Mas, na frente da TV, o hábito seria ainda mais nocivo

Um estudo com 3 592 adultos associou o costume de ficar mais de quatro horas diárias vendo televisão a um risco 50% maior de doenças cardíacas — isso em comparação com quem se limitava a um máximo de duas horas.

Mas é agora que a porca torce o rabo: o mesmo artigo, assinado por instituições americanas, não detectou uma taxa maior de males do coração entre os voluntários que passavam o horário de trabalho sentados. Por quê?

“No escritório, o empregado está sempre levantando para ir a uma reunião ou até a uma copiadora”, nota Jeanette Garcia, cinesiologista da Universidade da Flórida Central e autora da pesquisa. Essas pausas ativas amenizariam os danos do imobilismo. Já quando fazemos a maratona de uma série, nosso corpo gruda por horas na poltrona.

Olhos vidrados

Será que vemos muita TV? Pelo menos os participantes do estudo americano, sim

31% dos voluntários passam mais de quatro horas diante da televisão
33% deixam o aparelho ligado por menos de 120 minutos
36% assistem entre duas e quatro horas

O exercício contra-ataca

Uma boa notícia: segundo o mesmo levantamento, dedicar pelo menos 150 minutos por semana às atividades físicas de intensidade moderada ou vigorosa praticamente anula a ameaça ao músculo cardíaco decorrente de longos períodos em frente ao televisor.

Ainda assim, fazer intervalos entre os programas para mexer as pernas é bem-vindo, inclusive às juntas.