• A dor e a queimação, sintomas típicos da gastrite, são consequência de uma inflamação nas paredes internas do estômago. E qual a causa disso?Pesquisas mostraram que a maioria dos episódios desse problema é provocado por uma bactéria, a Helicobacter pylori. Esse micro-organismo se instala abaixo da camada de muco do estômago e vai liberando a urease, uma enzima capaz de mudar o pH das áreas próximas.

    A multiplicação desenfreada desse agente infeccioso gera uma reação inflamatória. Se as células de defesa não conseguem conter o avanço, a mucosa que protege as paredes do estômago é corroída – e o órgão então sofre diretamente a ação do ácido gástrico, dando origem à ardência.

    A H. pylori pode contaminar água e alimentos, mas o principal meio de transmissão é de pessoa para pessoa. Ainda assim o fato é que muita gente carrega esse inimigo, mas não sofre com suas consequências.

    Alguns fatores, ou uma associação deles, também desencadeiam a irritação: alimentação inadequada, abuso de remédios (sobretudo anti-inflamatórios), e consumo exagerado de bebida alcoólica. O estresse é outro componente importante na origem das crises de gastrite: em situações de tensão, nosso organismo aumenta a liberação de cortisol e de adrenalina, hormônios que, por sua vez, elevam a fabricação de ácido pelo estômago.

    Sinais e sintomas

    – Dor de barriga

    – Sensação de queimação no estômago

    – Enjoo

    – Falta de apetite

    – Perda de peso

    Fatores de risco

    – Predisposição genética

    – Consumo excessivo de alimentos gordurosos e ácidos

    – Abuso de anti-inflamatórios

    – Estresse

    – Consumo exagerado de bebida alcoólica

    – Ingestão excessiva de itens com cafeína

    – Tabagismo

    – Doença de Crohn

    A prevenção e a alimentação

    Diminuir o consumo de alimentos que aumentam a acidez do estômago, como comidas picantes, álcool e café, é o caminho indicado para atenuar o ataque às paredes do estômago. Alimentos mais gordurosos, que exigem mais quantidade de ácido para serem digeridos, também entram na lista dos desencadeadores da gastrite. Cuidado também com o leite puro, que estimula a secreção de suco gástrico.

    Só tenha em mente que, dependendo da severidade, do tempo sem crise e de questões individuais, é possível ingerir esses alimentos com moderação. Discuta isso com um profissional de saúde.

    Ficar muito tempo em jejum é outro perigo. Sem alimentos na barriga, o ácido gástrico se acumula e começa a lesionar o estômago. Vale, portanto, fracionar as refeições. E comer devagar. A mastigação, como primeira fase da digestão, poupa os esforços do estômago.

    Além disso, quem fuma tem mais este motivo para tentar abandonar o cigarro. O vício aumenta a produção de ácido no estômago e, dessa forma, favorece a queimação.

    Por fim, fuja da automedicação: o uso de anti-inflamatórios sem receita e sem as devidas orientações do médico também contribui para o aparecimento das crises estomacais.

    O diagnóstico

    Sentir dores no estômago uma vez ou outra não significa que a pessoa tem gastrite. Agora, se os sintomas se arrastam por duas semanas, é melhor consultar um gastroenterologista.

    O médico irá solicitar a realização de uma endoscopia. Nesse exame, feito com o paciente sob efeito de sedativo, uma microcâmera desce pela boca até o estômago, e as imagens registradas mostram se há inflamação na mucosa do órgão.

    Para confirmar se o problema foi causado pela bactéria H. pylori, durante a endoscopia é feita uma biópsia. A análise do material revela se o micro-organismo está alojado por ali.

    O tratamento

    Controlar a alimentação é fundamental para aliviar o mal-estar digestivo, mas nem sempre uma dieta equilibrada basta. Para combater a inflamação já instalada, o médico pode receitar antibióticos, além de antiácidos para atenuar os sintomas.

    Nos casos em que a H. Pylori é a causa da gastrite, às vezes só um revezamento de antibióticos consegue dar fim ao problema. Isso porque essa bactéria é muito resistente.

    Ao término do tratamento, o especialista pode recomendar outro exame para confirmar se o micro-organismo foi eliminado de vez. Esse teste detecta a presença a H. Pylori pelo ar expelido dos pulmões. Se o resultado der negativo, significa que foi exterminada. Caso contrário, é preciso tomar novas medidas contra ela.

    Ao longo do tratamento, é preciso ficar longe de determinados alimentos. Até que a regeneração do estômago seja completa, deve-se evitar refrigerantes, águas gasosas e sucos cítricos. Chocolates, balas e doces também ficam de fora do cardápio – o açúcar fermenta na barriga e, para piorar, estimula a liberação de ácido clorídrico.

    Uma vez que a causa da gastrite sai de cena, seja ela qual for, a pessoa fica curada em no máximo três semanas. Esse é o prazo necessário para o estômago recuperar suas rugosidades naturais, destruídas pela agressão.

    Tags: , , ,

  • Setembro, também conhecido como o Mês Nacional de Conscientização da Fibrose Cística, trouxe uma ótima notícia para os brasileiros com essa doença: a chegada no Brasil do remédio Kalydeco, da farmacêutica Vertex, que melhora bastante a vida de parte dos pacientes. Meses antes, outro medicamento – o Orkambi, da mesma empresa – também havia sido aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para outros subtipos da enfermidade. Para abordar essas novidades, precisamos antes explicar o que é a doença, quais seus sintomas e como era o tratamento antes.

    O que é fibrose cística?

    Ela é uma doença rara, que atinge cerca de 70 mil pessoas no mundo. Por defeitos no gene CFTR, o paciente praticamente não fabrica uma proteína, também chamada de CFTR, ou a gera com diferentes defeitos. E daí?

    “Essa proteína é fundamental na liberação de água das células para a produção de secreções do corpo”, explica Rodrigo Athanazio, pneumologista e parceiro do Instituto Unidos Pela Vida, uma organização focada na fibrose cística. Isso, por sua vez, faz com que diferentes líquidos originados pelo organismo, do catarro (muco) ao suor, fiquem mais espessos do que o normal.

    A questão é que essas mudanças nas secreções do organismo provocam diferentes repercussões pelo corpo. Uma das mais graves atinge os pulmões: 80% dos indivíduos com fibrose cística morrem por complicações nesse órgão, segundo Athanazio.

    Isso porque o espessamento do muco facilita infecções graves e uma inflamação que danifica os pulmões, o que, com o tempo, afeta demais a respiração. Aliás, o catarro mais viscoso típico da fibrose cística também favorece sinusites de repetição nos seios da face.

    O pâncreas é outra parte do corpo muito atingida. Para quem não sabe, essa estrutura gera diferentes enzimas digestivas, que ajudam a quebrar os alimentos e aproveitar os nutrientes. Ocorre que as alterações dessa doença culminam em danos a esse órgão e comprometem o seu trabalho.

    Resultado: logo na infância, a criança não consegue digerir alimentos, causando desnutrição e atraso no desenvolvimento. Daí porque, mesmo se não diagnosticada antes com exames, essa doença tende a ser flagrada ainda nos primeiros anos de vida. Entretanto, é possível que quadros, digamos, mais leves só sejam detectados na fase adulta.

    Tem mais. Embora seja uma consequência menos comum, a fibrosa cística pode injuriar o fígado em cerca de 5% dos casos, eventualmente levando a uma cirrose.

    Não há prevenção para esse transtorno, até porque ele é puramente genético. “A pessoa só vai desenvolver a fibrose cística se herdar genes CFTR defeituosos tanto do pai quanto da mãe”, esclarece Athanazio. É o que os especialistas chamam de uma doença autossômica recessiva.

    Sintomas e sinais

    • Infecções de repetição nas vias respiratórias
    • Falta de ar
    • Tosse crônica
    • Desnutrição
    • Perda de peso
    • Dor abdominal
    • Diarreia amarelada, gordurosa e com odor forte
    • Sinusite
    • Fadiga
    • Desenvolvimento atrasado na infância

    Diagnóstico

    Uma das particularidades da fibrose cística é afetar as glândulas sudoríparas, que geram suor. Com isso, esse líquido fica especialmente salgado. Tanto que muitas mães sentem esse gosto ao beijarem seus pequenos – ao ponto de essa chateação ganhar o apelido de “doença do beijo salgado”.

    Mas o que isso tem a ver com o diagnóstico? “Nós temos um teste que dosa a presença de cloro no suor. Se sua concentração é muito elevada em duas avaliações, confirmamos a presença da fibrose cística”, informa Athanazio.

    Há também exames genéticos que identificam aquelas mutações no gene CFTR. Contudo, a verdade é que o teste do suor é bastante confiável (e menos custoso).

    “Porém, é importante dizer que, desde 2014, o teste de pezinho deveria incluir a triagem para a fibrose cística”, complementa Athanazio. Em outras palavras, aquela gotinha de sangue tirada do calcanhar do seu bebê na maternidade já levantaria suspeitas para esse problema – converse com os profissionais do hospital para checar essa questão. E a detecção precoce é fundamental para um tratamento efetivo.

    Tratamento

    Chegamos, enfim, às maneiras de contra-atacar essa doença. Antes da criação do Kalydeco e do Orkambi, a estratégia era basicamente controlar as consequências da fibrose cística.

    Se o pâncreas não produz enzimas digestivos direito, o sujeito engole cápsulas com essas moléculas durante a refeição. Para evitar o acúmulo de muco nos pulmões, ele se submete a inalações com substâncias específicas, que ajudam a tornar essa secreção mais fluida. Sessões de fisioterapia respiratória e uso de antibióticos para conter as infecções também são bem comuns.

    “O que esses novos medicamentos fazem é agir na doença em si. É como se eles reparassem aquela proteína defeituosa”, contextualiza o pneumologista Rodrigo Athanazio. Aí, as secreções corporais se tornam menos espessas, o que alivia os sintomas e, em tese, diminuiria o ritmo de progressão da doença.

    No Brasil, ambas as drogas estão indicadas a partir dos 6 anos de idade. Já nos Estados Unidos, são aprovadas inclusive para maiores de 2 anos. “E há estudos com pacientes ainda menores. Existe a perspectiva de, com a evolução dos estudos, talvez oferecer esse tipo de remédio pouco tempo depois do nascimento”, afirma Athanazio.

    O tratamento precoce evita danos irreversíveis da fibrose cística. Por serem novos, ainda não dá pra saber se esses medicamentos aumentarão a expectativa de vida dos enfermos, hoje estimada em 44 anos. “Mas temos evidências iniciais que apontam nesse sentido”, adianta Athanazio.

    Ainda assim, é crucial ressaltar que essa nova classe de medicações não vai dispensar o manejo das consequências da fibrose cística. Mais do que isso, ela ainda não é aplicável a todos os acometidos por ela.

    Veja: o Kalydeco é eficaz para um conjunto de mutações do gene CFTR comuns a não mais do que 5% das pessoas com fibrose cística. O Orkambi, por sua vez, mira outro subgrupo de alterações no DNA, que correspondem a mais ou menos 20% do total de brasileiros com a doença. A boa notícia é que vários outros fármacos modernos estão sendo experimentados e podem, no futuro, ampliar o acesso.

    Na linha de complicações, ambas as drogas não devem ter um preço barato por aqui. O processo de definição do custo ainda está sendo finalizado na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, porém, nos Estados Unidos, o tratamento anual fica em torno de 150 mil dólares. E, sim, os comprimidos precisam ser ingeridos pelo resto da vida.

    “A expectativa é, com o tempo, pressionar o SUS para incorporar esses remédios”, diz Athanazio.

    Tags: , , , , , ,

  • De acordo com um experimento da Universidade Estadual Appalachian, nos Estados Unidos, os carboidratos vindos da banana têm efeitos comparáveis aos dos isotônicos quando se trata de amenizar o estresse comum ao esforço físico. É sério!

    O teste foi feito com 20 ciclistas que pedalaram, em diferentes ocasiões, 75 quilômetros. Num dos percursos, beberam apenas água; em outros, tomaram a bebida esportiva ou comeram meia banana a cada 30 minutos.

    Os resultados dos exames de sangue mostraram uma ligeira vantagem da banana: ela reduz a produção da enzima COX-2, cuja presença indica um processo inflamatório e justifica a dor após a prática.

    “Vale lembrar, no entanto, que a inflamação é uma resposta fisiológica normal e até necessária para a regeneração muscular”, esclarece o nutrólogo Carlos Alberto Werutsky, coordenador do Departamento de Atividade Física e Exercício da Associação Brasileira de Nutrologia. “Em geral, o organismo se recupera sozinho, sobretudo entre pessoas que consomem diariamente os antioxidantes originários de frutas e hortaliças”, completa o médico.

    Fruta versus bebida esportiva

    A banana: além da frutose, combustível para o treino, ela traz outros nutrientes, como vitamina C, vitamina B6 e fibras, sem contar o potássio, que previne cãibra.

    “A fruta é mais aconselhável nos treinos intermitentes, aqueles em que se pode descansar entre uma série e outra”, sugere Carlos Werutsky. Em práticas de mais de uma hora, pode provocar incômodos digestivos como refluxo.

    O isotônico: a bebida tem a vantagem de apresentar sódio, potássio e carboidrato em quantidades testadas em laboratório. Por isso, é indicada para reidrata depois de treinos mais longos e intensos.

    Como não é permitida a adição de fitoquímicos como flavonoides, o isotônico não apresenta a mesma capacidade antioxidante de frutas como a banana. O ideal é consumir esses produtos só após uma conversa com um especialista.

    Tags: , ,

  • Testes genéticos são exames que permitem identificar, por meio da análise do nosso DNA, um maior risco ou propensão a determinadas doenças. Em oncologia, os testes genéticos podem ser usados para diagnóstico de câncer hereditário ou do risco de desenvolver tumores. É importante esclarecer que todo câncer é resultado de alteração genética, isto é, o câncer é uma doença genética, porém, um percentual pequeno é hereditário.

    O câncer hereditário é causado por uma mutação genética que o paciente carrega no DNA de suas células. Essa mutação está presente em parte das células germinativas do pacientes, isso é nos gametas, e pode passar para seus descendentes. Isso quer dizer que os descentes que herdam a mutação estão em risco de desenvolver tumores. Há varias síndromes genéticas de câncer hereditário já descritas, incluindo as que afetam as mamas, os ovários, os intestinos, a pele, entre outros órgãos.

    Os aspectos clínicos mais comuns para se suspeitar de uma síndrome de câncer hereditário são: o diagnóstico em idade mais jovem do que a idade de aparecimento daquele tipo de tumor, vários tumores no mesmo indivíduo ou câncer em várias gerações da família. Para se confirmar a suspeita de um câncer hereditário, há necessidade do individuo ser submetido a um teste genético.

    Para algumas síndromes genéticas o resultado positivo de uma mutação patogênica em genes já conhecidos pode ajudar o médico a traçar medidas de prevenção para evitar o surgimento do câncer e também medidas de rastreamento diferenciadas da população em geral para diagnosticar o tumor nos estágios mais iniciais quando são mais passíveis de cura.

    Quem se beneficia na prática

    Dos anos 1990 para cá, tivemos avanços expressivos no conhecimento sobre genética desencadeados pelos avanços nas tecnologias de sequenciamento, o que hoje nos permite realizar exames genéticos com maior precisão e rapidez e menor custo. No entanto, a facilidade no acesso não significa que os testes genéticos devem ser solicitados para todas as pessoas. As indicações são baseadas em diretrizes nacionais e internacionais que são revisadas periodicamente.

    Assim, o médico, suspeitando de câncer hereditário, deve encaminhar o paciente para os médicos oncogeneticistas, que estão capacitados a estimar o risco de síndrome genética e solicitar os testes genéticos mais adequados.

    É importante destacar que esse tipo de teste envolve questões emocionais importantes, sendo crucial que o indivíduo tenha acesso ao aconselhamento genético pelo oncogeneticista. Esse profissional vai explicar o que é o teste, como ele é feito e quais suas limitações. Também vai abordar a grande possibilidade de não se detectar a causa genética, as consequências de um resultado positivo para uma mutação patogênica, o risco dos descendentes herdarem a mutação, as medidas preventivas e medidas de vigilância diferenciadas para diagnóstico precoce, entre outros aspectos. Em resumo, o oncogeneticista fornece um suporte geral para que as informações colhidas do quadro clínico e do exame genético a ser realizado sejam devidamente contextualizadas e dúvidas e expectativas sejam esclarecidas.

    Outro aspecto importante é que o teste genético pode ser feito em pessoas com câncer ou em pessoas sem câncer. O mais comum e de maior benefício para a família é realizar o teste no paciente com câncer e, no caso de ser positivo, recomendar avaliação da mutação identificada para os outros membros da família.

    Em geral, os testes genéticos conseguem identificar a causa genética (uma mutação patogênica) somente em uma pequena porcentagem dos casos. Portanto, a ausência de mutação patogênica nos genes investigados não significa que a pessoa não tenha um câncer hereditário e/ou risco aumentado para desenvolver tumores. É possível que existam mutações em outros genes não investigados no teste realizado ou em outros genes ainda não associados com a síndrome genética suspeita.

    Os ganhos para o paciente

    A realização bem indicada de um teste genético é capaz de trazer ganhos importantes em termos de prevenção, detecção e tratamento para algumas síndromes. A detecção de uma mutação patogênica nos genes BRCA1 e BRCA2, por exemplo, que são os genes mais importantes associados com a síndrome de câncer de mama e ovário hereditários, permite tomar condutas que reduzem significativamente o risco da doença, como rastreamento diferenciado e mais frequente por meio de exames de rotina, bem como intervenções preventivas (como a cirurgia de retirada das mamas e dos ovários). Todas as decisões, é claro, têm de ser discutidas entre médico e paciente.

    Ficou famoso, o caso da atriz americana Angelina Jolie, portadora de uma mutação no gene BRCA1. A atriz, com episódios de câncer na família característicos da síndrome, realizou um teste genético e obteve resultado positivo para a mutação em BRCA1, tomando a decisão de adotar medidas preventivas como cirurgias para extrair as mamas e os ovários, uma vez que a probabilidade de ter a doença nesses órgãos era alta. Com o procedimento, a atriz diminuiu o risco de câncer nesses órgãos a níveis menores que a população de mulheres sem mutações nos dois genes citados.

    Existem medicações aprovadas para pacientes com um tipo específico de câncer de ovário e que são portadores de mutação em BRCA1 ou BRCA2. A terapia é denominada anti-PARP e bloqueia um sistema de reparo de DNA existente nas células. Células do tumor de ovário de mulheres com mutação patogênica em um dos dois genes BRCA1 e BRCA2 apresentam maior sensibilidade ao tratamento com essa terapia, mostrando maior benefício para essas mulheres.

    É importante também comentar que, para várias outras síndromes de câncer hereditário, medidas de prevenção de diagnóstico precoce não estão bem estabelecidas e muitos esforços tem sido direcionados para ajudar nesse aspecto.

    Outros testes genéticos para escolher o tratamento do câncer

    O mapeamento das alterações genéticas em alguns tumores já são de grande utilidade clínica para ajudar na definição das melhores terapias. O sequenciamento massivo de tumores tem ajudado nas descobertas das suas alterações genéticas mais frequentes, auxiliando o mapeamento das vias gênicas que estão alteradas no tumor. Esses achados subsidiam o desenho de terapias para bloquear as vias alteradas e também a definição daquelas mutações que conferem sensibilidade ou resistência a essas terapias.

    Assim, testes genéticos em DNA tumoral já são realizados para vários tipos de tumor, por exemplo, casos específicos de câncer de pulmão, de ovário, de intestino, entre outros. Algumas terapias só devem ser prescritas para tumores que apresentam certas alterações genéticas.

    Estudos científicos

    Em nosso laboratório, estamos envolvidos em novas descobertas na área de genética e genômica e também na transferência para a clínica de testes genéticos e genômicos que apoiam o diagnóstico de síndromes genéticas e identificam alterações gênicas que guiam uma conduta terapêutica personalizada. Temos linhas de pesquisa dedicadas a síndromes hereditárias de tumores, visando caracterizar variantes genéticas na população brasileira nos genes já conhecidos, e também, linhas de pesquisa para desvendar outros genes, ainda não conhecidos, associados a elas. Dados da nossa população vindos das duas abordagens são particularmente importantes para contribuirmos com o conhecimento de variantes genéticas de risco ou benignas da população brasileira, que difere das populações mais conhecidas geneticamente, como a americana e europeia.

    Além disso, desenvolvemos pesquisas genômicas em tumores para descobrir as vias genicas que estão ativadas ou inativadas, contribuindo, assim, com a compreensão dos aspectos genéticos que subsidiam o aparecimento e a progressão do câncer.

    *Dra. Dirce Maria Carraro é chefe do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE) e responsável pelo Laboratório de Diagnóstico Genômico do A.C.Camargo Cancer Center.

    Pioneirismo

    O A.C.Camargo Cancer Center é pioneiro no estabelecimento de testes genéticos no diagnóstico de síndromes genéticas e para guiar tratamento. A transferência dos testes genético para a rotina clinica iniciou em 2010 e vem se aprimorando constantemente.

    Tags: , , ,

  • Nesta semana, tivemos uma aula muito interessante dentro da disciplina de Coaching de Bem-estar e Saúde, que desenvolvemos atualmente na Universidade de São Paulo (USP). Aliás, esse curso, o único a abordar essa visão de atendimento do profissional de saúde, é o primeiro no Brasil e, pelo que nos foi informado, também o primeiro na América Latina – no fim do texto eu explico brevemente no que ele consiste.

    Enfim, logo após um exercício onde associamos conhecimento com mudanças de atitude, fomos gratificantemente surpreendidos pelo comentário de um aluno. Ele disse: “Eu já fiz vários cursos, estudei programação neurolinguística e outras temáticas e não coloco esse conhecimento em ação”.

    Achei a observação tão rica que decidi trazê-la para essa coluna. Por que as pessoas que querem emagrecer não emagrecem? Salvo algumas exceções, a maioria delas sabe o que precisa fazer. Então, o que está acontecendo no planeta? Veja: nenhuma nação conseguiu, ao longo de 33 anos, reduzir a obesidade per capta, como já falamos isso aqui recentemente.

    Consciência e planejamento
    O fato é que vivemos nossa vida no automático. Vou te dar um número: passamos 40% do dia fazendo atividades de maneira quase inconsciente. Tomamos banho, escovamos os dentes, trocamos de roupa, dirigimos nossos carros e, pasme, comemos sem prestar atenção no que colocamos na boca.

    As urgências e as preocupações com o futuro fazem a mente viver constantemente fora do aqui e agora, o que não combina com uma refeição balanceada e mesmo saborosa. Falamos disso no livro O Fim das Dietas.

    Ainda assim, por que não tomamos as rédeas da vida quando realmente desejamos algo para nós, como emagrecer? Duas são as variáveis apontadas pela literatura:

    1) Temos dificuldade de tirar a vida do automático. Mudar as atitudes requer um tempo de reprogramação. Você precisa estar presente em sua agenda todo dia.

    2) Idealizamos as mudanças no estilo de vida como grandes projetos, e não como pequenos ajustes planejados

    Explico melhor. Quando pensamos em emagrecer, vislumbramos um número enorme de tarefas. Você promete treinar todo dia, cortar da dieta os alimentos considerados vilões do emagrecimento – o que não existe –, preparar todas as refeições em casa, abolir os industrializados…

    Claro que adotar tudo isso junto não vingará. O projeto é maior que o seu orçamento emocional pode pagar, principalmente no longo prazo.

    Para não sofrer, ajuste seu projeto para o realizável. Não está treinando? Então comece usando as escadas do trabalho, ou suba um andar do seu prédio para pegar o elevador. Não come fruta? Experimente comprar algumas no mercado na próxima visita e, antes de ir dormir, coloque-as ao lado da bolsa para servir como um lanchinho da tarde.

    Resumindo, faça pequenos gestos em direção à sua meta com os conhecimentos que você já tem. E dê os primeiros passos agora. Na medida em que esse projeto caminhar, ajuste com um profissional mais detalhes e acelere aos poucos em direção ao seu sonho.

    É como uma viagem: você programa, faz as malas, enche o tanque do carro, pega a estrada certa em direção ao seu destino e, depois de um tempo, chega onde planejou. Todos os grandes projetos da humanidade começaram com os pequenos movimentos.

    A disciplina de Coaching de Bem-estar e Saúde
    Nessa visão, o paciente muda de status. Ele deixa de ser “paciente” e vira “cliente”. Na área da saúde, essa última palavra às vezes causa estranheza, mas a ideia é dar força e poder de decisão na condução de sua própria saúde.

    O profissional de saúde se torna um aliado e parceiro de jornada. Ele não abre mão do conhecimento adquirido, porém respeita a vontade do cliente em receber ou não certas informações. E, acima de tudo, aprende a se comunicar de forma não violenta.

    Tags:

  • As últimas pesquisas e aprovações de remédio reforçaram uma nova tendência na forma de enfrentar o câncer : é a imunoterapia. Antes restrita a poucos tumores, ela vem ganhando espaço, inclusive no Brasil. Confira novidades sobre o assunto para diferentes versões dessa doença:

    Estômago
    O câncer gástrico ganhou mais uma opção terapêutica: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou o uso do pembrolizumabe, do laboratório MSD, nos tumores que atingem esse órgão do sistema digestivo. O mesmo fármaco já estava aprovado contra a doença instalada na bexiga, nos pulmões e na pele (melanoma).

    “É mais uma arma que se soma ao nosso arsenal. Cada vez mais teremos notícias de novas aplicações dos imunoterápicos que já estão disponíveis no país”, prevê o oncologista Antonio Carlos Buzaid, da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo e do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

    Pele
    A família da imunoterapia possui um novo membro: os brasileiros já podem contar com o avelumabe na luta contra o carcinoma de células de Merkel metastático, um tipo raro e agressivo de câncer dermatológico. O novo princípio ativo foi criado a partir de uma aliança entre duas gigantes da indústria farmacêutica: a Merck e a Pfizer.

    “Até agora, não existia nenhum recurso padrão contra essa doença”, observa o oncologista Ricardo Blum, diretor da Merck no Brasil. Nos estudos, a medicação aumentou em mais de um ano a sobrevida de 70 a 90% dos indivíduos — a quimioterapia usada até agora só proporcionava nove meses extras nos melhores cenários.

    Pulmões
    Pesquisas apresentadas no recente congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) provam que juntar pembrolizumabe e químio é o melhor caminho para contra-atacar o câncer de pulmão em estágio avançado. A união das duas linhas terapêuticas foi capaz de reduzir em 51% o risco de morte. Esse esquema duplo já recebeu o aval para prescrição em terras brasileiras.

    Melanoma
    A conferência da Asco ainda trouxe dados animadores sobre esse tumor de pele, que costuma ser duro de tratar. Sujeitos que começaram a tomar o pembrolizumabe ou ipilimumabe (da Bristol Myers-Squibb) há quatro ou cinco anos continuam muito bem.

    “Um terço dos casos mais graves pode até ser curado”, diz Buzaid. E pensar que algumas décadas atrás essa enfermidade matava em questão de meses…

    Tags: , , ,

  • Mais de 41 mil pessoas na Europa foram infectadas pelo sarampo nos primeiros seis meses deste ano, segundo alerta emitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O número ultrapassa o total registrado ao longo de 12 meses em todos os últimos anos desta década.

    Até então, o maior número de casos de 2010 para cá havia sido identificado em 2017, quando foram contabilizadas 23 927 infecções. Os dados mostram ainda que pelo menos 37 pessoas morreram este ano por causa da doença no continente europeu.

    “Estamos observando um aumento dramático nas infecções e surtos prolongados”, destacou a diretora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab. “Pedimos a todos os países que implementem imediatamente medidas amplas e adequadas ao contexto para impedir uma maior disseminação dessa doença”, acrescentou.

    Aqui mora o perigo para nós. Se o Brasil não aumentar sua cobertura vacinal – a Campanha Nacional de Vacinação é uma ótima oportunidade -, viajantes europeus com essa doença podem desembarcar por aqui e provocar mais surtos.

    Onde os casos de sarampo mais assustam na Europa

    Dados da OMS mostram que sete países de lá registram ao menos mil episódios entre crianças e adultos este ano – França, Geórgia, Grécia, Itália, Rússia, Sérvia e Ucrânia. Apenas na Ucrânia, mais de 23 mil pessoas foram afetadas pela doença, o que representa mais da metade do total de casos identificados no continente.

    Mortes relacionadas ao sarampo, segundo a entidade, foram reportadas em todos esses sete países. A Sérvia responde pelo número mais alto: 14 até o momento.

    A organização reforçou que o vírus do sarampo é excepcionalmente contagioso e se espalha facilmente entre indivíduos suscetíveis. A orientação para prevenir surtos é manter, todos os anos, uma cobertura vacinal de pelo menos 95%, utilizando duas doses da vacina contra a doença, com esforços especiais para identificar crianças, adolescentes e adultos que não foram imunizados no passado.

    Tags: , ,

  • Acompanhar a evolução do câncer em tempo real é apenas uma das vantagens da biópsia líquida. “O método nos permite atualizar a terapêutica periodicamente, já que sinaliza mutações tumorais relacionadas com a resposta ao tratamento”, diz o oncologista clínico Celso Abdon de Mello, do A.C.Camargo Cancer Center, centro de referência do método no país.

    Para realizar o exame, é preciso uma amostra de sangue do paciente. Entram em cena, então, tecnologia de ponta e o olhar de especialistas que analisam o material desprendido do tumor, presente na corrente sanguínea. “Pode ser a própria célula, o DNA livre ou ainda vesículas do tumor”, explica a farmacêutica bioquímica Ludmilla T. Domingos Chinen, pesquisadora no A.C.Camargo Cancer Center.

    A leitura de tais componentes traz informações sobre o perfil genético do tumor e flagra biomarcadores, proteínas específicas capazes de apontar ao expert qual o melhor tratamento e também apoiar na identificação de recidiva e metástase.

    No Brasil, a biópsia líquida é voltada ao monitoramento da doença, especialmente em tumores de pulmão. Já nos Estados Unidos, foi aprovada para acompanhamento em câncer de mama, colorretal e próstata. Mas a expectativa é que em breve seja uma arma no diagnóstico primário do câncer.

    Tags: , ,

  • Imagine que, em algumas horas, você fará a entrevista de emprego para a vaga dos seus sonhos. Enquanto se arruma na frente do espelho, o coração fica acelerado, o estômago se remexe todo, a pele se enche de suor e as pernas bambeiam. Ao mesmo tempo, a cabeça é inundada por um turbilhão de pensamentos e incertezas. “E se a moça do RH não gostar de mim? E se eu falar uma bobagem? E se a conversa for em inglês?” Estamos diante de um clássico episódio de ansiedade, sentimento natural e comum às mais variadas espécies de animais, entre elas os seres humanos. Veja: na dose certa, ela é proveitosa e garante até hoje a nossa sobrevivência.

    “Quando nos preocupamos com algo que pode vir a acontecer, tomamos uma série de medidas para resolver previamente aquela situação”, diz o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Do mesmo modo que nossos antepassados estocavam comida para não sofrer com a fome nos períodos de estiagem e um macaco evita certos lugares da floresta por saber que lá ficam os predadores que adorariam devorá-lo, hoje elaboramos eventuais respostas às perguntas da entrevista de emprego ou estudamos com afinco antes de uma prova difícil. Ao contrário do medo, que é uma reação a ameaças concretas, a ansiedade está mais para um mecanismo de antecipação dos aborrecimentos futuros.

    O transtorno começa quando essa emoção passa do ponto. Em vez de mover para frente, o nervosismo exagerado deixa o indivíduo travado, impede que ele faça suas tarefas e atrapalha os seus compromissos. “Isso lesa a autonomia e prejudica a realização de atividades simples e corriqueiras”, caracteriza o médico Antônio Geraldo da Silva, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria.

    Aí, sair de casa torna-se um martírio. Entregar o trabalho no prazo é praticamente missão impossível. Convites para festas e encontros viram alvo de desculpas. A concentração some, os lápis são mordidos, as unhas, roídas… e a qualidade de vida cai ladeira abaixo.

    Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um documento com estatísticas dos distúrbios psiquiátricos ao redor do globo. Os transtornos de ansiedade atingem um total de 264 milhões de indivíduos – desses, 18 milhões são brasileiros. Nosso país, aliás, é campeão nos números dessa desordem, com 9,3% da população afetada. A porcentagem fica bem à frente de outras nações: nas Américas, quem chega mais perto da gente é o Paraguai, com uma taxa de 7,6%. Na Europa, a dianteira fica com Noruega (7,4%) e Holanda (6,4%).

    Afinal, o que explicaria dados tão inflados em terras brasileiras? “Fatores como índice elevado de desemprego, economia em baixa e falta de segurança pública representam uma ameaça constante”, responde o psiquiatra Pedro Eugênio Ferreira, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Preocupações com a saúde, notícias políticas e relações sociais também parecem influenciar por aqui.

    Apesar de os achados da OMS assustarem, é um erro considerar que estamos na era mais ansiosa da história – muitos estudos sugerem justamente o contrário. Em primeiro lugar, a ansiedade só passou a ser encarada com mais coerência a partir dos escritos de Sigmund Freud (1856-1939) e foi aceita nos manuais médicos como um problema de saúde digno de nota a partir da década de 1980. Portanto, é impossível comparar presente e passado sem uma base de dados confiável.

    Além disso, com raras exceções, vivemos um dos momentos mais tranquilos de toda humanidade. Há quantas décadas não temos batalhas ou epidemias de grandes proporções? O que acontece hoje é uma mudança nos gatilhos: se atualmente nos preocupamos com a iminência de um assalto ou de uma demissão, nossos pais se afligiam pela proximidade de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética e nossos avós perdiam noites de sono com o avanço nazista sobre França e Polônia durante a Segunda Guerra Mundial.

    Existem, porém, alguns fatores que são patrocinadores em potencial de ansiedade independentemente do intervalo histórico. A infância, por exemplo, é fundamental. “Crianças que passaram por abuso ou negligência têm um risco duas a três vezes maior de sofrer com transtornos mentais na adolescência ou na fase adulta”, descreve o psiquiatra Giovanni Abrahão Salum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A genética e a própria convivência próxima a um familiar com os nervos à flor da pele já elevam a probabilidade de desenvolver a condição posteriormente.

    Como saber se eu tenho ansiedade?

    A despeito de existirem tantos ansiosos por aí, ainda penamos com a demora no diagnóstico. De acordo com um estudo da americana Universidade Harvard, sujeitos com os quadros graves e agudos levam em média sete anos para buscar o auxílio de um profissional de saúde.

    Nos casos em que os sintomas são mais leves e perenes, essa delonga se arrasta por 16 anos. Esse desperdício de tempo valioso faz o quadro evoluir para enfermidades ainda mais sérias, como o alcoolismo e a depressão. Para ter ideia, estima-se que, de cada cinco pacientes depressivos, quatro deles tiveram ansiedade lá no início.

    “Infelizmente, persiste um preconceito com os transtornos mentais na nossa sociedade. Para muitos, o psiquiatra segue como o ‘médico de loucos’”, lamenta Nardi. Já passou da hora de virar a chavinha, né?

    As doenças que abalam a mente devem ser abordadas com o mesmo respeito e seriedade de diabetes, câncer ou qualquer outra moléstia do corpo. Se você sentir alterações de humor ou se estiver de alguma maneira incomodado com pensamentos que não saem da sua cabeça, procure um profissional. A avaliação com base em um questionário respondido no consultório já ajuda a flagrar a ansiedade e nortear a abordagem terapêutica.

    Como a ansiedade surge e de que forma afeta o organismo

    1. A todo momento, nosso cérebro analisa o ambiente e identifica possíveis ameaças. Áreas como o hipocampo e a amígdala são responsáveis por fazer essa varredura.

    2. Diante de um provável risco, o sistema nervoso dispara uma série de reações. As glândulas suprarrenais, que ficam acima dos rins, liberam doses extras dos hormônios adrenalina e cortisol.

    3. Essa dupla de substâncias dilata os vasos sanguíneos, faz o coração bater mais rápido e prepara os músculos para a ação. É daí que vêm taquicardia, suor, tremedeira, falta de ar…

    4. Adrenalina e cortisol alcançam o cérebro, onde estimulam a produção de neurotransmissores que deixam certas regiões da massa cinzenta em estado de alerta.

    5. No transtorno de ansiedade, uma ou mais etapas desse processo funcionam de modo exagerado. Qualquer estímulo é considerado um perigo e gera respostas de forma desnecessária.

    Os seis principais tipos de ansiedade

    Fobia social: Medo exacerbado e irracional de participar de festas, aulas, reuniões e eventos com pessoas desconhecidas. O grande receio é ser avaliado, julgado, ridicularizado ou criticado por esses estranhos. Falar em público é motivo para travar, suar em bicas, ter taquicardia e até sentir a memória falhar.

    Fobia: Temor crônico e paralisante de objetos, animais ou situações específicas, como medo de buracos, de aranhas ou de lugares altos. Esse sentimento pode surgir a partir de uma experiência real ou se principiar por meio de um pensamento particular e até uma notícia marcante. Já foram descritas mais de 500 versões.

    Ataque de pânico: Sem nenhuma razão, o indivíduo sente que vai morrer: o coração dispara, o corpo estremece, surgem náuseas e vômitos. Muitas vezes, ele corre para o pronto-socorro por acreditar que está sofrendo um infarto e sai do hospital sem diagnóstico. Depois de alguns minutos aflitivos, tudo volta ao normal.

    TAG: Sigla para transtorno de ansiedade generalizada. Há uma sensação incômoda e persistente de que algo vai dar errado a qualquer minuto e a vida vai fugir de sua direção quando menos se espera. Nesse ciclo de preocupações sucessivas, os problemas são muito valorizados, enquanto a própria capacidade de resolvê-los é subestimada.

    TOC: O transtorno obsessivo-compulsivo é marcado por pensamentos invasivos que somente são aliviados quando se repete um comportamento padronizado sem sentido lógico. É o exemplo do sujeito que precisa acender e apagar o interruptor três vezes senão um parente vai morrer ou aquele que lava as mãos várias vezes seguidas.

    Estresse pós-traumático: Muito corriqueiro em soldados que retornam da guerra e em vítimas de atentados ou desastres naturais, o transtorno de estresse pós-traumático faz com que a experiência ruim não saia da mente e volte a atormentar por meio de flashbacks. Junto com as lembranças, manifestam-se insônia, irritabilidade e pânico.

    Como é feito o tratamento

    A primeira coisa que você deve saber é que as opções disponíveis são seguras e ajudam a melhorar e controlar a situação. Existem dois grandes pilares nessa área: a psicoterapia e os medicamentos. “Nós avaliamos cada caso e lançamos mão de um método ou outro, ou até mesmo eles em conjunto, a depender do tipo de ansiedade e do seu grau”, explica a psicóloga Michelle Levitan, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

    O ataque de pânico grave, por exemplo, exige a prescrição de alguns fármacos logo de cara. Já uma TAG moderada responde bem a sessões de terapia. Quem vai bater o martelo sobre o caminho ideal é o médico.

    Entre as abordagens psicológicas, aquela que mais se destaca em eficácia pelo número de evidências científicas é a terapia cognitivo-comportamental. “Nosso objetivo é identificar a crença que está atrapalhando o indivíduo e, a partir daí, transformá-la em um pensamento novo, que mude suas atitudes e a forma como ele enxerga a vida”, descreve o terapeuta Juan Carlos Picasso, diretor da Rituaali, clínica e spa no Rio de Janeiro.

    É um processo de dentro para fora: por meio da conversa, o profissional de saúde faz o paciente refletir sobre alguns de seus temores para, assim, conseguir modificá-los com o passar do tempo.

    Entre os medicamentos, os mais prescritos são os inibidores seletivos de recaptação de serotonina/noradrenalina. Receitados também contra a depressão, esses comprimidos reequilibram a química cerebral e afastam o risco de crises ou recaídas. Seu ponto fraco é a demora para aparecerem os resultados. Isso pode levar semanas, até meses.

    É aí que entra outro grupo medicamentoso: os benzodiazepínicos, calmantes por natureza que já mostram serviço após um ou dois dias. Mas eles são utilizados com bastante critério e somente em algumas situações, pois estão relacionados a efeitos colaterais e dependência se tomados em longo prazo. Não custa reforçar: é vital obedecer direitinho as recomendações de tempo e dosagem definidas pelo especialista.

    Por fim, há medicações de apoio que atuam sobre sintomas específicos. Os betabloqueadores diminuem os episódios de taquicardia. Fármacos para a tireoide corrigem desvios do metabolismo – se essa glândula está bagunçada, pintam cansaço, prostração e até queixas de ansiedade. Mulheres que entram na menopausa precisam fazer um checkup dos hormônios para ver se eles não estão impactando o bem-estar…

    Reforma do estilo de vida

    De nada adianta sentar no divã ou tomar comprimidos se alguns hábitos e pensamentos não forem modificados. Aposte numa alimentação equilibrada e variada. Invista em noites de sono tranquilas e reparadoras. E, principalmente, comece já uma rotina de exercícios.

    “Além de elevar o ânimo, a atividade física atua na capacidade cerebral, aprimorando a comunicação entre os neurônios”, justifica Nardi. Meditação, relaxamento e atenção plena – o popular mindfulness – também são uma mão na roda: pesquisas demonstram o seu papel de peso contra a ansiedade.

    No final das contas, às vezes vale se perguntar sobre a necessidade de entrar num tratamento. Ora, se eu tenho medo de bichos e moro em São Paulo, qual o real dano que essa fobia me traz? “O segredo está em fazer um bom exame da pessoa, de seu contexto e do prejuízo envolvido”, afirma o psiquiatra José Alexandre Crippa, da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.

    Desse modo, dá pra evitar que sentimentos absolutamente normais sejam encarados como doenças e tratados com remédios. Contudo, a medicalização da vida, tema que suscita debates na Europa e na América do Norte, está longe de ser realidade no Brasil, onde se estima que só 30% dos pacientes com transtornos mentais recebam uma terapia adequada.

    Em uma palestra inspiradora para o TEDx, conjunto de seminários que ocorre em várias cidades do mundo, a psiquiatra Olivia Remes, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, expôs sua experiência na área da ansiedade. Segundo seu relato, mulheres que moram em áreas pobres apresentam maior risco de desenvolver o transtorno do que aquelas que vivem nos bairros ricos. Até aí, nenhuma novidade. Mas em seu trabalho de observação, a cientista descobriu que existem três atitudes certeiras para lidar melhor com a agonia excessiva.

    A primeira delas envolve colocar a mão na massa. “Você se pega adiando o início de algo simplesmente por não sentir que está preparado o suficiente para aquela tarefa? Você tende a gastar muito tempo decidindo o que fazer e, na prática, não acontece nada?”, pergunta Olivia, no vídeo de sua palestra, disponível no YouTube. Para quebrar esse ciclo, a recomendação é criar coragem e fazer aquilo que você precisa, mesmo que da primeira vez o resultado não seja lá um primor. O aprendizado com os erros e com os acertos nas diversas tentativas é que faz a gente ser bom em algo. “Essa estratégia apressa nossa tomada de decisões e nos empurra para a ação, o que nos coloca de volta no controle de nossas vidas”, declara.

    O segundo passo é se perdoar por qualquer erro que tenha cometido no passado. Pessoas ansiosas ficam remoendo suas próprias gafes e mancadas, de modo que não conseguem focar em outras coisas realmente relevantes que estão à sua frente.

    Não coloque tanta ênfase nos seus defeitos e incapacidades. No lugar disso, pense naquilo em que você é craque – e, assim, reverta esse seu ponto forte em algo de bom para a comunidade. “Você faz pelo menos uma coisa pensando no próximo? Pode ser um trabalho voluntário, ou compartilhar um conhecimento adquirido. Dividir com os outros vai melhorar pra valer a sua saúde mental”, finaliza a psiquiatra britânica.

    Outro passo fundamental é nunca fugir daquilo que o aflige. “A ansiedade faz com que vejamos um mundo extremamente ameaçador e isso leva a uma inibição comportamental”, destaca a psicobióloga Milena de Barros Viana, da Universidade Federal de São Paulo.

    Se medos e temores são evitados, alimentamos esse fantasma até o ponto em que ele se torna um obstáculo intransponível, que impede a promoção no trabalho ou o primeiro encontro com o amor das nossas vidas. “Para sair desse estado de hesitação, enfrente esses incômodos”, orienta Milena.

    O copo meio cheio

    Domar a ansiedade pode até aumentar nossa produtividade no serviço ou garantir uma rotina mais organizada – que tal adotar uma agenda para anotar todos os compromissos, projetos, aflições e questões existenciais? Lembra que no começo da reportagem dissemos que essa sensação é natural e nos livra de enrascadas?

    “Ao prever as possibilidades, podemos usar e abusar de nosso lado criativo na busca por soluções inovadoras e eficazes para os problemas que se apresentam”, sugere a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro Mentes Ansiosas (Editora Principium/Globo). Quem sabe a próxima ideia que vai revolucionar o mundo não saia de uma inquietação de sua cabeça?

    Por fim, acabe de vez com a noção de que um dia você vai se livrar desse sentimento. Encare-o mais como uma ferramenta essencial para sua sobrevivência. “Temos que aceitá-lo como um preço que pagamos para conseguirmos passar no vestibular, paquerar, enfim, vivermos de acordo com nossos valores”, raciocina o médico Márcio Bernik, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    Chega de arrancar cabelos, roer unhas ou comer o lápis: os traumas passados e as preocupações futuras fazem parte da biografia de qualquer um. Aceitá-los é o primeiro passo para ter uma vida completa, feliz… E com a ansiedade sob controle.

    Tags: , , , , ,

  • A incidência de crianças e adolescentes acima do peso ou obesos vem crescendo rapidamente. Na última década, um terço das crianças norte-americanas foram diagnosticadas com sobrepeso e 17%, como obesas. Na América Latina, uma em cada cinco está acima do peso ou é obesa. No Brasil, observa-se uma disseminação da obesidade em todas as faixas etárias – mas com um especial e nada positivo destaque para os menores de 18 anos.

    Diversas doenças crônicas são associadas à obesidade, como infarto agudo do miocárdio, hipertensão arterial, trombose, enfermidades autoimunes, alterações de crescimento e desenvolvimento e até mesmo o câncer.

    Aqui também se destaca o diabetes tipo 2. Ele é um dos problemas crônicos mais fortemente ligados à obesidade. Antigamente conhecido como “diabetes do adulto”, os casos na infância começaram a surgir com maior frequência graças à epidemia de obesidade. E pior: a incidência já no começo da vida têm aumentado em larga escala nos últimos anos.

    Por quê? O excesso de peso leva a um estado de resistência à ação da insulina – hormônio produzido pelo pâncreas e responsável pela entrada de glicose para dentro das células. Se a obesidade persiste, essa alteração metabólica provoca a falência das células do pâncreas e a consequente diminuição na produção de insulina. Resultado: um aumento duradouro da glicose no sangue – está aí o diabetes tipo 2.

    As principais causas relacionadas ao crescente número de crianças e adolescentes obesos e com diabetes envolvem mudanças típicas do mundo moderno, como falta de atividade física, aumento da disponibilidade de alimentos com altos índices calóricos e em porções maiores, redução das horas de sono e o estresse. A predisposição genética tem um papel no surgimento do diabetes nas primeiras décadas de vida, mas não é o único fator, como alguns acreditam.

    Para ajudar a combater a obesidade nessa faixa etária, a sociedade médica tem pressionado os governos para criar políticas de saúde. Em 2014, os países integrantes da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) assinaram um acordo para desestimular o consumo de produtos alimentícios industrializados com a adição de altas concentrações de açúcares. Entre outras ações, o plano previu a implementação de políticas fiscais, como impostos sobre as bebidas açucaradas e os produtos com alto valor energético, mas pobre em nutrientes. Observou-se que o aumento de 10% no preço resultou na queda de 11,6% na demanda por esses alimentos.

    Entretanto, ainda cabe aos educadores, profissionais de saúde e principalmente aos pais observar os hábitos alimentares das crianças e estimular não só a alimentação saudável como também a prática de atividades físicas. O acompanhamento do crescimento pelo médico pediatra deve envolver mensurações frequentes do peso e da altura da criança e qualquer desequilíbrio precisa ser investigado. Juntos, podemos começar a virar essa maré.

    *Dra. Louise Cominato é endocrinologista pediátrica, membro do departamento de endocrinologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo e coordenadora do Ambulatório de Obesidade do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    Tags: , , ,