• Acompanhar o Congresso Brasileiro de Infectologia, cuja vigésima primeira edição acaba de ocorrer em Belém do Pará, é ter um painel do que vírus, bactérias, fungos e companhia vêm aprontando por aí e, ao mesmo tempo, um retrato das diversas (e desiguais) realidades do país. Enquanto regiões ainda penam com doenças que parecem (mas só parecem) coisa do passado, como a hanseníase, nas grandes cidades os hospitais mais modernos já quebram a cabeça para contra-atacar micróbios resistentes e letais. O ponto em comum, e que independe de lugar ou classe social, é: as doenças infecciosas continuam sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo.

    Queda na vacinação, desmatamento e crescimento urbano, mudança climática, falta de informação… Tudo isso conspira para que micro-organismos ganhem terreno e imponham problemas à humanidade. A medicina corre atrás, buscando não só novos imunizantes e tratamentos, mas estratégias mais eficazes de esclarecer e engajar a população a se defender. Inclusive porque, em matéria de moléstias infecciosas, todo cidadão tem um papel a cumprir: seja lavando as mãos e não usando antibiótico por conta, seja limpando o quintal para não dar abrigo ao mosquito da dengue.

    Mapeamos, a seguir, alguns dos temas mais preocupantes debatidos no congresso, que reuniu mais de 2 mil profissionais em Belém entre os dias 10 e 13 de setembro.

    É ano de dengue

    Entre as doenças disseminadas pelo mosquito Aedes aegypti, capaz de transmitir dengue, zika e chikungunya, a dengue já é o principal tormento de 2019. Como o próprio Ministério da Saúde divulgou, já foram registrados mais de 1,4 milhão de casos até agosto deste ano — um aumento de quase 600% em relação a 2018.

    Segundo o infectologista Antonio Carlos Bandeira, da Vigilância Epidemiológica do Estado da Bahia, 65% dos casos e notificações vêm ocorrendo na região Sudeste. Só em São Paulo houve, até março deste ano, um incremento de mais de 2 000% na quantidade de pessoas acometidas. O Centro-Oeste fica em segundo lugar entre as regiões problemáticas.

    O sorotipo 2 do vírus da dengue (existem quatro) é o que mais circula pelo Brasil nesta temporada. Ao suspeitar do quadro — que pode provocar, entre outras coisas, febre, dor de cabeça e no corpo —, o conselho é procurar um serviço de saúde quanto antes. A identificação e o manejo precoce evitam complicações e mortes.

    A tendência de crescimento da dengue felizmente não se repete com dois outros vírus transmitidos pelo Aedes aegypti, o zika (2,3 mil casos prováveis até março de 2019) e o chikungunya (15,3 mil), que se mostram mais estáveis no número de episódios em comparação com o ano anterior.

    Ainda assim, não dá para bobear com o mosquito. A prevenção inclui desde eliminar os criadouros a recorrer a repelentes e telas em casa. Bandeira reforçou a necessidade de se investir em novas tecnologias, como larvicidas biológicos e vacinas contra as infecções.

    A epidemia dos micróbios resistentes

    Eis um tema inescapável e que dominou boa parte das conferências e debates no congresso. A resistência antimicrobiana, que é a capacidade de bactérias e fungos repelirem os tratamentos disponíveis, já entrou na lista das dez prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas projeções vislumbram que, por volta de 2050, o problema vai causar mais mortes que outra doença em ascensão, o câncer.

    As causas do fenômeno não se resumem ao uso indiscriminado de antibióticos e outros remédios na medicina humana. “A maior parte dos antibióticos produzidos hoje é voltada à agropecuária e empregada como fator de crescimento para o cultivo de animais e em algumas plantações”, observou o médico Marcos Cyrillo, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

    A utilização massiva, e que envolve inclusive algumas substâncias similares àquelas que tratam infecções em humanos, tem repercussões, diretas e indiretas, no meio ambiente e até no que acontece dentro dos hospitais. Num mundo em que os micro-organismos são praticamente onipresentes, tudo se encontra conectado. E, quem diria, até o aquecimento global tem um dedo nessa história.

    Cyrillo abordou em uma apresentação o papel da mudança climática no crescimento da resistência antimicrobiana. É que, simplificando uma questão complexa, o aumento da temperatura seria capaz de tornar bactérias e fungos mais perigosos. Acredita-se que esse fenômeno tenha contribuído para o surgimento e a expansão das infecções por Candida auris, um fungo altamente letal e que já causa furor em hospitais (por enquanto, fora do Brasil). Já não dá mais para separar a saúde humana do bem-estar do planeta.

    A explosão das doenças sexualmente transmissíveis

    Esse foi o título de uma das conferências do congresso. E duas doenças causadas por bactérias que voltaram com tudo protagonizaram discussões. Falamos da gonorreia e da sífilis.

    O termo “explosão” das ISTs — sigla para infecções sexualmente transmissíveis, antigamente conhecidas por DSTs — não é exagerado. De acordo com a infectologista Miralba Freire, professora da Universidade Federal da Bahia, a OMS calcula que mais de 1 milhão de infecções do tipo sejam adquiridas por dia pelo mundo.

    A gonorreia é a segunda IST mais prevalente em boa parte do globo. Segundo a médica, hoje ela atinge mais pessoas jovens e homens que fazem sexo com outros homens. E a doença não apronta só com os genitais, não. “Vem crescendo o número de casos com acometimento do reto e da faringe”, relatou Miralba.

    Da mesma maneira que acontece com outras infecções bacterianas, a gonorreia também atormenta os médicos devido à resistência a antibióticos.

    Para deter seu avanço, precisamos investir em relações sexuais seguras, com o preservativo, e realizar o teste que detecta a bactéria — em alguns grupos, o exame deve ser periódico e repetido com maior frequência.

    Raciocínio semelhante se aplica a outra IST da pesada, a sífilis. “Ela cresce em todas as regiões do mundo e tem um importante impacto psicossocial e econômico”, afirmou o infectologista Aluísio Segurado, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São mais de 6 milhões de vítimas com idades entre 15 e 49 anos hoje.

    Para o especialista, a ascensão da doença no país não se deve apenas a mais diagnósticos. “Há um aumento na circulação do agente infeccioso”, apontou. A sífilis pode lesar os genitais e ainda desatar complicações em várias áreas do corpo. Gestantes e seus rebentos inclusive enfrentam o perigo da sífilis congênita, quando a bactéria ataca o bebê ainda no ventre materno (muitos casos são fatais).

    Para quebrar a epidemia da moléstia, Segurado salientou a necessidade de esclarecer mais a população e criar condições para que se faça diagnóstico e tratamento quanto antes.

    O drama da hanseníase continua

    A doença provocada pela bactéria Micobacterium leprae — e durante séculos conhecida como lepra — ainda é um desafio para o Brasil. Se passou pela sua cabeça um pensamento do tipo “isso ainda existe?”, saiba que, não apenas existe, como nosso país tem o segundo maior contingente de pessoas com a doença no planeta (só perdemos para a Índia).

    Em uma apresentação emocionada no congresso, o infectologista Marcio Gaggini, professor da Universidade Brasil, em Fernandópolis (SP), convocou médicos, autoridades e sociedade a olharem mais para o problema e suas vítimas, muitas delas esquecidas pelos quatro cantos do país. Segundo o especialista, mais de 200 mil cidadãos podem ter ficado sem diagnóstico e assistência nos últimos anos.

    O Brasil aloja 91% dos casos de hanseníase da América Latina. Por aqui, a maior parte dos episódios ocorre nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Muitos dos pacientes só descobrem a doença depois que ela provocou deformidades na pele, nas mãos, no rosto…

    A bactéria causadora é transmitida pelo ar — esqueça aquela história de que, ao tocar em alguém com hanseníase, você pegou! — mas pode ser erradicada com tratamento. “As pessoas estão sofrendo hoje com diagnóstico tardio e sequelas”, revelou Gaggini. Campanhas e ações dirigidas a regiões e comunidades mais afetadas pela condição são urgentes.

    Sim, também precisamos conscientizar a população. Na presença de alterações como manchas e lesões na pele, acompanhadas por falta de sensibilidade, procure um médico ou serviço de saúde. Não só existe tratamento para hanseníase como ele pode levar à cura.

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  • A meningite meningocócica pode ser confundida com infecções menos ameaçadoras – principalmente durante a temporada de gripe e afins. Quem faz o alerta é a Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp).

    Em campanha lançada nesta semana, a entidade pede cautela redobrada na avaliação de pessoas que chegarem ao pronto-atendimento. “Serviços de saúde devem estar atentos à ocorrência de doenças como meningite, zika, dengue e chikungunya, e realizar um diagnóstico criterioso para evitar erros”, declarou à imprensa o médico Yussif Ali Mere Jr, presidente da Fehoesp.

    O diagnóstico correto é importante, mesmo que às vezes a única opção seja combater os sintomas e acompanhar a evolução do quadro, caso dos resfriados e das infecções transmitidas pelos Aedes aegypti. Se o que estiver por trás dos sintomas for uma gripe forte ou mesmo a meningite bacteriana, o tratamento é mais específico.

    Como diferenciar meningite de gripe e outras infecções

    Muitas infecções têm, como primeiro sintoma, a febre. Por isso nem sempre é evidente qual a origem da subida na temperatura quando a pessoa chega ao pronto-socorro.

    “Num primeiro momento, pode ser difícil suspeitar de meningite ou outra coisa mais séria”, aponta Renato Kfouri, infectopediatra diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

    Vale esclarecer que estamos falando de uma situação relativamente rara no Brasil. Em 2018, foram 1 072 ocorrências da versão meningocócica, a mais comum entre as meningites transmitidas por bactérias, com 218 mortes. Há também uma versão viral da doença, mas seus sintomas são mais brandos.

    As bacterianas, por sua vez, merecem atenção por causa da taxa alta de mortalidade – cerca de 20% dos casos, geralmente crianças e adolescentes. A meningocócica, destaque da categoria, é causada por 12 subtipos do micro-organismo meningococo. No país, os mais comuns são os A, B, C, W e Y, todos evitáveis com a vacinação.

    As semelhanças entre gripe e meningite são febre alta e mal-estar abruptos, além de vômito. Depois, elas evoluem de maneiras diferentes.

    O vírus da gripe ataca as vias respiratórias. Por isso, provoca coriza, tosse e cansaço.

    Já a meningite desencadeia dores de cabeças e vômito intensos, rigidez no pescoço, além de sintomas neurológicos, como surdez, perda de consciência e, em alguns casos, paralisia. “É um quadro que evolui rapidamente, geralmente em 24 horas”, destaca Kfouri.

    Diagnóstico

    O diagnóstico das duas pode ser feito com exames de sangue. No caso da meningite bacteriana, o médico solicita ainda a coleta do líquor da medula espinhal, um líquido que banha as meninges, para identificar qual o agente causador do problema.

    “Esse teste sempre é feito para saber qual antibiótico deve ser administrado. Dependendo do tipo da bactéria, também é preciso fazer um tratamento preventivo em quem teve contato com o doente”, aponta Kfouri.

    O ideal é que a análise seja feita antes de iniciar o tratamento, pois o uso de antibióticos pode interferir no exame. Entretanto, como o resultado às vezes demora até três dias para chegar, em alguns episódios é necessário aplicar a medicação imediatamente.

    Eu devo me preocupar?

    É claro que uma febre alta sempre chama a atenção, mas a meningite não está em alta no Brasil. “Vivemos uma tendência de queda nos casos há anos, e a incidência diminuiu muito depois que a vacinação começou no SUS”, reforça Kfouri.

    Atualmente, só as doses contra a meningite meningocócica C – a versão mais comum – estão na rede pública. Nas clínicas particulares, dá ainda para se imunizar contra os tipos A, B, W e Y.

    “Temos a vacina contra o tipo mais frequente gratuitamente para crianças e adolescentes, mas nossas taxas de cobertura estão aquém do esperado”, alerta o médico.

    Já a gripe preocupa mais as autoridades públicas – não pela gravidade, que é menor do que a da meningite, mas pelo alto número de casos. Essa infecção costuma ser mais incidente nos meses frios do ano. Fique ligado e aproveite as campanhas de vacinação.

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  • O mosquito Aedes aegypti tem assustado as gestantes há alguns anos, quando o surto do zika foi relacionado a casos de microcefalia entre bebês cujas mães foram infectadas na gestação. Porém, esse inseto também ameaça a gravidez de outras formas. Um artigo publicado no periódico Scientific Reports aponta que a dengue catapulta em pelo menos três vezes o risco de falecer durante os nove meses de gravidez e logo após esse período – é a chamada morte materna.

    A pesquisa foi liderada pela brasileira Enny Paixão, epidemiologista do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs/Fiocruz Bahia). Para o trabalho, ela e seus companheiros chafurdaram várias bases de dados públicas – como o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) –, coletando informações referentes ao período de 2007 a 2012.

    Após uma triagem inicial, os cientistas selecionaram 4 053 óbitos para uma análise minuciosa. Esses casos também foram comparados a 17 391 826 nascidos vivos.

    Daí veio o resultado: quando a dengue foi diagnosticada por análise dos sintomas (febre alta, dores de cabeça, cansaço, por exemplo), as gestantes corriam um risco três vezes maior de morrerem. Já no caso da confirmação da enfermidade por exame de sangue, a probabilidade era oito vezes maior, em comparação com grávidas não infectadas.

    Essa diferença tem motivo de ser. Muitas vezes, os sinais da dengue são confundidos com os de outras infecções, eventualmente mais brandas. Portanto, sem um teste de confirmação, não dá para saber se certos “episódios de dengue” eram, na verdade, outros problemas menos nocivos para as futuras mamães.

    Agora, quando a paciente apresentava um quadro de dengue hemorrágica confirmado em laboratório, aquele número é ainda mais assustador. Frente ao tipo mais grave da moléstia, a possibilidade de a gestante morrer é 450 vezes maior.

    Também se constatou que a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, complicações caracterizadas pelo aumento da pressão arterial durante a gravidez, eram mais frequentes no grupo infectado. E esses problemas, se não tratados, favorecem complicações para a mãe e o bebê.

    Por que a dengue afeta gestantes com mais intensidade

    No artigo, os pesquisadores afirmam que ainda é complicado definir a razão pela qual essa infecção eleva tanto o risco de morte materna. Uma das possíveis explicações seria a de que as mudanças no organismo típicas da gravidez aceleram o avanço da dengue.

    Além disso, os autores pontuam que essas mesmas mudanças fisiológicas e outras possíveis complicações durante os nove meses esconderiam os sintomas de dengue hemorrágica, o que dificulta sua identificação precoce.

    O que é, afinal, morte materna?

    Segundo a décima versão da Classificação Internacional de Doenças (uma lista da Organização Mundial da Saúde que caracteriza todo tipo de enfermidade), esse termo é definido como “a morte de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gestação, independentemente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas em relação a ela, porém não devida a causas acidentais ou incidentais”.

    Os autores concluem o artigo dizendo que, apesar da saúde das gestantes já ser uma prioridade de saúde pública, é importante que os médicos deem uma atenção maior para aquelas que moram em locais com focos de dengue. “Quando a infecção for diagnosticada, a paciente deve ser acompanhada de perto”, conclui Enny Paixão, em comunicado à imprensa.

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