• Muito se fala sobre a prevalência e os prejuízos da obesidade. Mas uma análise apresentada na 125ª Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia alerta para outro mal pra lá de nocivo: a solidão. De acordo com os condutores do trabalho — cientistas da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos —, uma das principais ameaças nesse sentido seria o aumento do risco de morte prematura.

    A pesquisa ocorreu em duas partes. Na primeira, 148 estudos foram avaliados, totalizando 300 mil pessoas. Cruzando as informações dessa turma, os experts americanos concluíram que quem cultiva bons relacionamentos interpessoais tem 50% mais chances de não falecer antes da hora em comparação aos solitários.

    Já a segunda etapa considerou os dados de aproximadamente 3,4 milhões de voluntários, divididos em 70 pesquisas. Como era de se esperar, também houve uma clara relação entre a solidão ou o isolamento social e o risco de morrer antes do tempo. Mas o que intrigou os experts é o fato de esses problemas, segundo o estudo, serem tão deletérios quanto a obesidade ou outras condições sérias de saúde.

    O isolamento social é definido como pouco ou nenhum contato com outros indivíduos. A solidão, por sua vez, é marcada pela falta de conexão emocional com os demais. Ou seja, é possível se sentir sozinho mesmo em meio a um mar de gente.

    Durante a convenção em que essa revisão foi apresentada, a professora de psicologia Julianne Holt-Lunstad, uma de suas autoras, destacou a relevância do achado para os que estão na terceira idade, quando a falta de contato social é mais comum. Para ela, tal associação reforça a importância de investirmos em iniciativas que promovem o engajamento e a interação desse público, como centros de recreação e jardins comunitários.

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    O último Congresso Brasileiro de Reumatologia trouxe à tona um efeito pouco discutido desse distúrbio. O chamado fibrofog (uma aglutinação das palavras fibromialgia e neblina, em inglês) consiste na perda da capacidade de manter a atenção e guardar fatos na memória. “Hoje esses sintomas até fazem parte do diagnóstico do problema”, diz o médico Eduardo Santos Paiva, da Sociedade Brasileira de Reumatologia. “As dores ocupariam o cérebro de tal forma que ele deixa de fazer suas funções adequadamente”, argumenta. Mas, ao domar os incômodos, a massa cinzenta volta a trabalhar direito.

    Regras de ouro para deixar a mente tinindo

    Trate o mal em si

    Em vez de medicar o esquecimento, busque, com um expert, alternativas contra a própria fibromialgia.

    Faça exercício

    Ele aumenta a tolerância à dor e turbina a memória.

    Afaste a depressão

    A melancolia grave é tão comum entre fibromiálgicos quanto danosa aos neurônios.

    Sobrou para a massa cinzenta

    Não é só a fibromialgia que bagunça o raciocínio

    De acordo com o reumatologista Eduardo Santos Paiva, qualquer doença que provoca desconfortos com frequência pode ocasionar distração – além de mau humor e tristeza. Ao flagrar uma dessas encrencas, não demore para buscar atendimento especializado.

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    Durante muitos anos, neurocientistas realizaram pesquisas com base no pressuposto de que o cérebro trabalha mais quando tem uma tarefa específica pela frente e “desliga” se não está sendo estimulado ativamente.

    É por isso que sempre ouvimos falar de testes com voluntários em que eles cumprem alguma tarefa enquanto seu cérebro é monitorado por tomografia ou ressonância magnética. O exame revela quais partes da mente estão mais ativas durante determinada ação, o que possibilita compreender como ela controla nosso comportamento.

    Entre um teste e outro, os pesquisadores costumam pedir para o voluntário olhar para um ponto específico ou não se concentrar em nada, como uma maneira de trazer o cérebro para um estado “neutro”.

    Mas há um problema: o cérebro simplesmente não desliga.

    Rede em default

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    O primeiro sinal de que o cérebro em repouso está, na realidade, ativo veio há duas décadas. Um estudante chamado Bharat Biswal, da Faculdade de Medicina do Wisconsin (EUA), investigava maneiras de encontrar um sinal mais puro vindo de um tomógrafo ligado a um voluntário. Mesmo quando pedia para o indivíduo não pensar em nada, percebeu que não só o cérebro continuava em atividade como também a coordenava.

    Em 1997, uma análise feita pela Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, e que incorporou resultados de nove estudos de tomografia cerebral revelou mais uma surpresa: uma rede de conexões cerebrais que é ativada quando não estamos concentrados em nada.

    Gordon Shulman, principal autor da pesquisa, notou que algumas áreas do cérebro se tornavam menos ativas quando o voluntário terminava seu período de descanso e começava a realizar alguma atividade. Isso sugere que enquanto uma pessoa está no tomógrafo, supostamente sem fazer nada, partes de seu cérebro estão mais ativas do que quando tem que cumprir uma tarefa.

    Até hoje, quase 3 mil estudos científicos já foram publicados a respeito do “estado de repouso” do cérebro e sua surpreendente atividade. Alguns cientistas até rejeitam o termo, alegando que o cérebro nunca descansa e preferindo falar em Default Mode Network (DMN) (“rede em modo default”, em tradução literal), ao se referirem às áreas cerebrais que permanecem ativas quando o órgão parece não estar se concentrando em uma tarefa.

    Consolidar memórias

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    A grande dúvida é: por que o cérebro em repouso é tão ativo?

    Existem várias teorias, mas por enquanto os cientistas ainda não chegaram a um acordo. Alguns acreditam que as diferentes áreas do cérebro estejam apenas treinando como trabalhar juntas. Outros acham que o cérebro é como um carro em ponto morto, que precisa estar pronto a arrancar caso necessário.

    Há ainda os pesquisadores que defendem que essas “viagens” da mente tenham um papel fundamental para consolidar memórias. Sabemos que, à noite, nossos sonhos ajudam o cérebro a organizar o que aprendemos e vivemos durante o dia. Agora há evidências de que isso também acontece quando estamos acordados, conforme apontou um estudo do Centro de Neurociência Integrativa da Universidade da Califórnia em San Francisco, publicado em 2009.

    Também sabemos que quando deixamos a mente viajar, ela normalmente se concentra no futuro. E as três principais áreas do cérebro envolvidas na imaginação do futuro são parte da DMN.

    É como se o cérebro fosse programado para contemplar o futuro toda vez que se encontra desocupado.

    Segundo o neurocientista Moshe Bar, da Faculdade de Medicina de Harvard, sonhar acordado essencialmente cria memórias de eventos que não aconteceram. “Isso nos dá um estranho conjunto de ‘experiências prévias’ que podemos usar para decidir como agir caso essas imaginações se tornem realidade”, afirma.

    “Muitas pessoas que viajam de avião costumam pensar em como seria sofrer um acidente. Se um dia houver mesmo um acidente, as memórias dessas visualizações podem ajudar o passageiro a decidir o que fazer na situação”, diz o pesquisador.

    Conexões peculiares

    O estado de repouso não é fácil de ser estudado. Mas os cientistas estão avançando. Um estudo realizado nos Estados Unidos e na Alemanha, publicado em outubro, indicou que nós experimentamos o estado de repouso de maneiras diferentes.

    Os pesquisadores conduziram um estudo de tomografia de cinco pessoas que foram treinadas para recontar suas fantasias cada vez que ouvissem um bip do computador. Os pesquisadores encontraram diferenças consideráveis entre as experiências e pensamentos de cada pessoa.

    Em setembro, pesquisadores da Universidade de Oxford usaram tomógrafos em 460 pessoas em estado de repouso para explorar quais partes do cérebro se comunicam entre si nesse momento. Novamente, os resultados apontam para diferenças pessoais, ligadas a habilidades e experiências de vida.

    O estudo mostrou que a força entre as conexões das diferentes partes do cérebro varia de acordo com a memória da pessoa, seu nível de escolaridade e sua resistência física. É como se partes do cérebro permanecessem conectadas quando nossa mente viaja, para o caso de precisarem ser reativadas.

    Cientificamente, a descoberta de que o cérebro nunca se desliga pode ajudar a resolver um antigo mistério: por que o órgão usa 20% da energia do corpo quando suas atividades deveriam precisar de apenas 5%?

    Para Marcus Raichle, neurologista da Universidade Washington em St. Louis, a atividade durante o estado de repouso poderia explicar essa discrepância.

    A descoberta do estado de repouso também tem o potencial de mudar a maneira como compreendemos o cérebro.

    Sabemos que é difícil esvaziar a mente e sabemos que ela tem a tendência de divagar mesmo quando não queremos.

    Mas, ao que parece, essas “viagens” podem ser realmente benéficas – mesmo se elas não permitem que terminemos uma tarefa antes do prazo.

    Ou seja, talvez esteja na hora de comemorarmos as virtudes de uma mente ociosa.

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