• O Google News Lab, a divisão de jornalismo da gigante de tecnologia americana, lançou há pouco o “I’m Not Feeling Well” (Não Estou Me Sentindo Bem, em tradução livre), um projeto que tem o objetivo de investigar como o interesse na internet por determinados temas de saúde muda de acordo com a época do ano. Entre diversos achados, o trabalho revelou um aumento expressivo no número de buscas por palavras como “vômito”, “diarreia“, “febre”, “dor abdominal” e “enjoo” durante o verão.

    Curiosamente, todos eles são sinais de virose, uma condição que estraga viagens à praia, encerra cruzeiros marítimos antes da hora e está relacionada a uma perda produtiva superior a 227 bilhões de reais por ano no mundo inteiro.

    “Quando esquenta, as pessoas ficam menos em casa, saem da rotina, vão visitar outros lugares, fazem refeições fora, fatores que elevam o risco de enfrentar o problema”, lista o infectologista Alessandro Farias, do Hospital Português da Bahia. O próprio calor, aliás, acelera a decomposição da comida, outro patrocinador do revestrés na barriga.

    Antes de mais nada, vale dizer que “virose” se refere a toda infecção por vírus – ao pé da letra, até mesmo a aids pode ser encaixada nessa categoria. Porém, os médicos utilizam o termo para falar das gastroenterites virais.

    Seus principais causadores são o enterovírus, o coronavírus e o rotavírus. Eles marcam presença em minúsculos pedaços de cocô ou vômito que ficam na pele após o uso do banheiro. Caso o sujeito não lave as mãos direito, contamina água e alimentos que outros vão consumir e, sem saber, acabarão infectados por esses agentes.

    A primeira parada do vírus é o estômago. Ele irrita as paredes do órgão, o que desata a vontade de vomitar. Logo em seguida, o invasor desce para o intestino. “Por lá, prejudica algumas células e dispara a secreção de líquidos e sais minerais, que vão embora na diarreia”, ensina a gastroenterologista Marcia Wehba Cavichio, do Fleury Medicina e Saúde.

    Naturalmente, esses incômodos assustam qualquer um e estão entre os grandes motivos de idas ao pronto-socorro, ao lado de traumatismos e dor no peito.

    O diagnóstico da virose depende do relato do indivíduo: não há necessidade de fazer exames de sangue ou de imagem. “Descobrir o tipo de vírus que está atacando, o que seria possível por meio de um teste laboratorial, não vai influenciar a evolução do quadro ou o tratamento”, esclarece o médico Eduardo Alexandrino de Medeiros, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia.

    Portanto, não estranhe se você sair do consultório com apenas recomendações básicas – não tem por que tomar antibióticos, por exemplo, uma vez que eles atuam contra bactérias e não têm poder sobre vírus. Essas medidas simples já ajudam bastante a superar o piriri em questão de dias.

    Ficar de olho na hidratação é a regra número um para controlar a gastroenterite. Além da boa e velha água, aposte no soro, que pode ser feito em casa (confira abaixo) ou comprado nas farmácias – a água de coco, rica em sais minerais, também ajuda. Isotônicos, sucos, energéticos e bebidas alcoólicas são contraindicados.

    Sobre a dieta, a sugestão é restringir o consumo de gordura e açúcar. Nos primeiros dias, arroz branco, batata cozida, canja e peito de frango grelhado formam um mix ideal. “Além disso, prescrevemos algumas medicações para cuidar da febre, da dor e dos episódios de vômito”, acrescenta o infectologista Daniel Wagner de Castro, do Hospital São Luiz, em São Paulo.

    Se a situação não der sinais de melhora em três ou quatro dias, é bom voltar ao centro médico para ver se não há algo mais sério. A passagem pelo pronto-socorro ainda se torna necessária diante de sintomas graves, como sangue e pus nas fezes, garganta inflamada, olhos fundos, pele seca, prostração, pressão baixa e pouca vontade de urinar. “A atenção deve ser maior em crianças e idosos, que têm risco elevado de sofrer com as complicações da desidratação”, observa o gastroenterologista Carlos Frederico Porto Alegre, do Hospital Norte D’Or, no Rio de Janeiro.

    Mas saiba que dá para reduzir a probabilidade de a infecção atrapalhar sua vida. “A maneira mais eficaz de prevenir as viroses é lavar bem as mãos depois de ir ao banheiro”, indica a infectologista Mirian de Freitas Dal Ben Corradi, do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista. Também existe uma vacina contra o rotavírus, disponível para as crianças, uma das faixas etárias vulneráveis.

    A comida é digna de precaução em todas as idades. Fora de casa, escolha restaurantes e bares de confiança. Na sua própria cozinha, sempre higienize os vegetais, não deixe recipientes longe da geladeira por muito tempo, fique atento ao prazo de validade e verifique pistas de decomposição, como mau cheiro ou mudanças de cor. Afinal, todo mundo merece curtir o verão sem penar com os rebuliços na barriga.

    Receita para prevenir

    Frutas e legumes são itens primordiais de um cardápio saudável. Mas, antes de comê-los, é importante se certificar que estão limpos. A recomendação é lavar na torneira e, depois, deixar de molho por 20 minutos numa solução com 1 litro de água e uma colher de sopa de hipoclorito de sódio.

    Receita para tratar

    A fim de abreviar as chateações das viroses, mantenha o corpo hidratado. Nesse sentido, o soro caseiro é um santo remédio: misture uma colher de sopa de açúcar e uma colher de chá de sal em 1 litro de água. O gosto é neutro: nem doce nem salgado.

    Sobrou para nariz, garganta e pulmões

    Se as viroses intestinais são comuns no calor, as infecções respiratórias preferem o frio. “No inverno, ficamos mais próximos e em ambientes fechados, o que facilita a transmissão, que ocorre por gotículas de saliva”, explica o médico Eduardo de Medeiros. Os vilões dos resfriados são o rinovírus, o vírus sincicial e o adenovírus, entre outros. Repouso e hidratação são os principais recursos terapêuticos disponíveis.

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  • De uma hora para outra, o sujeito, em geral jovem, começa a perder peso, sentir dores abdominais e ter diarreias constantes. Embora esses não sejam sintomas específicos, muitas vezes é assim que se manifestam as doenças inflamatórias intestinais (DII), conjunto de distúrbios cuja incidência vem crescendo mundo afora. “Não há estudos epidemiológicos no Brasil, mas notamos na prática um aumento nos casos, em parte pela melhora no diagnóstico, em parte por razões ainda não totalmente esclarecidas”, contextualiza a gastroenterologista Didia Cury, da clínica Scope, em Campo Grande (MS).

    A médica, que realiza pesquisas em parceria com a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, organizou um simpósio internacional na capital sul-matogrossense para discutir, com outros especialistas, novidades e aspectos pouco conhecidos da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa, os tipos mais comuns do transtorno. “A retocolite ataca mais o intestino grosso, enquanto o Crohn pode afetar o sistema digestivo da boca ao ânus e também outros locais, como pele, olhos e articulações”, explica as diferenças o gastroenterologista Jaime Gil, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

    A teoria mais aceita é que a inflamação crônica é resultado de uma reação exagerada do sistema imune à flora intestinal. Como nem sempre os sintomas são claros, não é raro ver gente levando dez anos para receber o diagnóstico, atraso que compromete a qualidade de vida. Com a meta de educar mais a população sobre o tema, elencamos agora os pontos quentes recém-debatidos no evento.

    Novas armas com mais foco

    Até pouco tempo atrás, havia poucos fármacos disponíveis para tratar os casos mais complicados de DII. Chegaram, então, medicamentos inovadores, os anticorpos monoclonais, com a missão de inibir moléculas específicas por trás da inflamação crônica – um dos principais é o anti-TNF. Nem sempre, porém, eles atingiam o resultado esperado e ainda impunham efeitos colaterais. É aí que entra a nova geração dessas medicações (caso do vedolizumabe e do ustequinumabe), concebidas para agir apenas no local afetado pela doença, o que reduz riscos e melhora a eficiência da terapia.

    Hoje, os anticorpos são indicados em quadros moderados e severos, mas se discute uma mudança de abordagem. “Estamos prescrevendo essas substâncias mais cedo porque elas parecem ser mais eficazes nos primeiros anos do que depois de uma década com o problema”, conta Alan Moss, gastroenterologista e pesquisador de Harvard.

    De olho na tuberculose

    Quem toma medicamentos imunossupressores, caso do próprio anti-TNF, está mais sujeito a desenvolver essa infecção. “Já é uma praxe procurar o micro-organismo nos portadores de doença inflamatória intestinal, mas nem sempre esse rastreamento é efetivo e refeito ao longo da vida”, diz o patologista Julio Croda, da Fundação Oswaldo Cruz, um dos palestrantes do evento.

    A demora no diagnóstico nesses casos traz complicações potencialmente fatais. “Sem contar que contribui para a transmissão da tuberculose, que hoje mata mais que a aids por aqui”, aponta Croda. O pesquisador estudou pacientes em tratamento de DII na clínica Scope e descobriu que 3,8% deles tinham o bacilo no sangue, incidência proporcionalmente maior que a da população em geral.

    Por que o divã é bem-vindo

    Estresse e ansiedade fora de controle favorecem as crises nas doenças inflamatórias intestinais. Na via oposta, essas condições por si podem gerar angústia, irritação e medo, dificultando o convívio social e alimentando quadros depressivos. Para se blindar dessa situação, que atrapalha o próprio contra-ataque à DII, especialistas indicam um acompanhamento psicológico.

    “A doença impõe solidão, e o estresse emocional precisa ser administrado antes que impacte na manifestação dos sintomas”, explica a psicóloga Daisy Maldaun, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autora de um livro recém-lançado que traça o perfil psicológico das pessoas com DII. Além da terapia, meditação e ioga são técnicas recomendadas para ajudar na manutenção do equilíbrio mental, tão importante para o sucesso do tratamento.

    Homeopatia ajuda?

    A busca pela medicina alternativa costuma ganhar força quando os remédios tradicionais falham no socorro ao intestino, o que não é tão raro de acontecer. Daí a proposta da homeopatia de aliviar certas manifestações na DII. “O método foca no indivíduo como um todo e traz um olhar cuidadoso que faz diferença na percepção e no trabalho com os sintomas da doença”, diz Gilson Roberto, psicólogo e homeopata de Porto Alegre e um dos participantes do simpósio.

    O tema, no entanto, ainda gera controvérsia. “Não há evidência científica de que a homeopatia funcione na DII e práticas não comprovadas podem gerar frustração e prejudicar a adesão ao tratamento convencional”, contrapõe Jaime Gil. Na dúvida, o melhor a fazer é conversar com o especialista e jamais abandonar as medicações anteriormente prescritas.

    E a fertilidade, como é que fica?

    Esse assunto nem sempre é discutido no consultório ao longo do tratamento, mas deveria. Isso porque a inflamação crônica – e até os fármacos que a combatem – pode comprometer a capacidade reprodutiva de homens e mulheres com DII. Quando o problema atinge o cólon (no intestino grosso), por exemplo, chega a repercutir em regiões como o útero, onde o óvulo fecundado se aninha para dar origem ao embrião.

    Já na ala masculina, o uso de alguns medicamentos está relacionado a uma baixa na velocidade dos espermatozoides. “A DII afeta especialmente pessoas em idade reprodutiva que, com medo e sem informação, adiam os planos de ter filhos. Só que, quanto mais o tempo passa, maior é a queda na taxa de fertilização”, analisa Didia. Felizmente, com acompanhamento médico, é possível, sim, garantir a continuidade da família.

    Para flagrar mais cedo

    Uma das ameaças que a turma com DII enfrenta é o maior risco de câncer colorretal. “Isso porque, com o tempo, a inflamação constante favorece alterações nas células que ficam nas paredes do intestino. E essas pequenas lesões podem evoluir para um tumor”, resume o coloproctologista Guilherme Cutait, da Universidade de São Paulo (USP).

    A boa notícia é que, com a nova safra de aparelhos endoscópicos e outros métodos de imagem, dá para detectar mais precocemente essas feridinhas com potencial de virarem malignas no futuro. E mais: na endoscopia, dá até para remover os pontos suspeitos durante o próprio exame. “Só que estamos falando de tecnologias de ponta que ainda não estão disponíveis em todos os lugares do país”, pondera o gastroenterologista Alexandre Carlos, também da USP.

    O que o futuro reserva

    Existem três promessas à vista. Uma delas vem de estudos com comprimidos de uso diário para controlar a doença – baita vantagem se pensarmos que os anticorpos monoclonais atuais dependem de injeções periódicas. Já a terapia com células-tronco tenta fazer uma correção no sistema imune para ele parar de agredir o aparelho digestivo. “Só que esse método parece beneficiar um grupo pequeno de pacientes, além de o efeito ser temporário”, conta Alan Moss, que testou a técnica em Harvard.

    Por fim, há o transplante fecal, a transposição de bactérias de uma flora saudável para o intestino doente. Moss está avaliando essa opção e adianta que ela esbarra, por ora, no mesmo problema de uma resposta de curta duração. A chave, diz o pesquisador, é investigar mais para entender melhor esses males. “Eles têm mecanismos diferentes e pedem uma abordagem individualizada.”

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