• A exemplo de nós, os cachorros também vêm ganhando uma expectativa de vida mais longa. A questão é que a idade traz consigo seus efeitos colaterais. E o coração é um dos órgãos que podem sofrer com isso: o envelhecimento é um dos principais fatores de risco para a insuficiência cardíaca, quando esse músculo deixa de trabalhar direito.

    Para amparar os animais com o problema, a farmacêutica Boehringer Ingelheim está trazendo ao Brasil um medicamento capaz de postergar o avanço do quadro e os seus efeitos negativos. Ao ajudar o coração a bombear o sangue, o remédio em forma de tabletes mastigáveis prolonga os anos pela frente e melhora a qualidade de vida.

    Ainda assim, o diagnóstico precoce faz diferença. “Quanto mais cedo ele acontecer, melhor o resultado do tratamento”, afirma o veterinário Mário Marcondes, diretor do Hospital Veterinário Sena Madureira, em São Paulo. Por isso, o especialista recomenda um checkup cardíaco aos cães a partir do sexto ano de idade.

    Insuficiência canina

    Da mesma forma que acontece com o coração humano, o dos cães pode se enfraquecer com a idade e em razão de doenças. A insuficiência cardíaca significa que o órgão está perdendo a capacidade de bater e mandar o sangue adequadamente para o organismo, o que acarreta cansaço e falta de ar. Outros sintomas que você pode observar são tosse, membros e barriga inchada e língua arroxeada.

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  • Desenvolvidos para evitar a gravidez, os contraceptivos orais não estão, a exemplo de qualquer outra medicação, isentos de efeitos colaterais. Dentre eles, a trombose, ainda que rara nesse contexto, é o evento mais temido. A trombose é caracterizada pela obstrução parcial ou total de veias ou artérias por coágulos sanguíneos (os trombos) em determinada região do corpo.

    Em 90% dos casos as veias das pernas é que são afetadas, gerando sintomas como dor e inchaço. Entre as reações adversas mais graves da pílula também são relatados quadros de infarto e acidente vascular cerebral. Novamente, falamos de complicações raras. O período de maior vigilância, contudo, engloba os seis primeiros meses de uso do anticoncepcional, quando estatisticamente esses problemas apresentam maior incidência.

    As pílulas são constituídas de hormônios sexuais femininos que possuem não só a capacidade de inibir a ovulação — daí o efeito contraceptivo — mas também a de induzir alterações no sistema de coagulação do sangue. Na prática, o que acontece é o aumento de substâncias e fatores pró-coagulação acompanhado da redução dos nossos anticoagulantes naturais.

    Pesquisas ao longo dos anos vêm esmiuçando a ligação dos hormônios da pílula — especialmente a combinação de etinilestradiol e progestagênio, base da maior parte das formulações — com a probabilidade de sofrer uma trombose. Sabe-se hoje que os contraceptivos com dosagem reduzida oferecem menor risco nesse sentido.

    Estudos revelam que mulheres em uso de pílulas com dosagens acima de 0,05 mg de etinilestradiol ou estradiol (derivados do estrogênio) apresentam um risco trombótico até dez vezes maior quando comparadas às não usuárias. Calcula-se que isso represente o dobro da possibilidade de ocorrência de uma trombose na comparação com as formulações com doses menores do hormônio.

    Em relação aos métodos contraceptivos que contêm apenas progesterona, observou-se no decorrer das análises que o levonorgestrel presente nos anticoncepcionais de segunda geração seria o que apresenta menor risco. Quando usado isoladamente, esse hormônio afeta de forma mínima o sistema de coagulação, de modo que não traria risco considerável para trombose. Ainda assim, vale notar que há uma diminuição do efeito contraceptivo.

    O mais importante na hora de prescrever ou contraindicar essas medicações é avaliar a presença de fatores associados à trombose: obesidade, diabetes, câncer, tabagismo, sedentarismo, idade acima de 40 anos, varizes, alterações genéticas ou adquiridas na coagulação e histórico pessoal e familiar de eventos trombóticos.

    A contracepção hormonal de hoje é segura e apresenta riscos menores para trombose até mesmo quando comparada a situações fisiológicas como a gestação e o período pós-parto. No entanto, seu uso deve ser individualizado e decidido e acompanhado junto a um médico.

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  • Todo ano, a publicação americana U.S. News & World Report divulga o ranking Best Diets (traduzindo: Melhores Dietas). Para realizá-lo, são ouvidos especialistas de instituições americanas de peso, como Johns Hopkins, Tufts Medical Center, Universidade Harvard, Mayo Clinic e por aí vai. Da análise desse júri saem as campeãs em diversas categorias: a dieta ideal para emagrecer, a mais fácil de seguir, a que controla melhor o diabetes…

    E há a grande vencedora na classificação geral. Neste ano, duas estratégias alimentares dividem a medalha de ouro. Uma delas é figurinha carimbada no pódio: trata-se da DASH, sigla em inglês que significa Medidas Dietéticas para Controlar a Hipertensão. Ao seu lado, está a Dieta Mediterrânea, reverenciada em diversos estudos científicos.

    A DASH
    Seu principal objetivo é prevenir e controlar a pressão alta, fazendo cair, assim, o risco de encrencas como infarto e derrame. No cardápio, são priorizados alimentos ricos em substâncias como potássio, cálcio, proteínas e fibras. Na prática, a ideia é investir naqueles grupos reconhecidamente saudáveis – ou seja, frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, carnes magras e lácteos com baixo teor de gordura.

    Por outro lado, é preciso limitar o consumo de fontes de gorduras saturadas, a exemplo de carnes gordas e laticínios integrais, e produtos abastecidos de açúcar, como doces, refrigerantes, néctares…

    Acima de tudo, recomenda-se, claro, prestar bastante atenção na quantidade de sódio, o mineral que faz a pressão decolar. Ele está no sal de cozinha e em um monte de produtos industrializados. A indicação é não exceder os 2 300 miligramas de sódio por dia – o melhor mesmo seria ingerir até 1 500 miligramas.

    A Dieta Mediterrânea
    As vantagens atribuídas a ela são diversas. Dá para citar perda de peso, prevenção de câncer, menor risco e controle de diabetes, além de benefícios para o coração e cérebro.

    Tem esse nome porque é seguida por povos que moram perto do Mar Mediterrâneo, no sul da Europa, e que são conhecidos por terem uma longa expectativa de vida.

    Mas não dá para definir um cardápio fechado. No site da U.S News, é lembrado que os gregos comem diferente dos italianos, que, por sua vez, não fazem o mesmo tipo de refeição dos franceses e espanhóis. O que não dá para negar: existem similaridades cruciais entre os pratos dessas populações.

    Por exemplo: frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas, azeite de oliva e ervas e especiarias aromáticas são comuns nas refeições dessa gente toda. Os peixes e frutos do mar também têm lugar especial no menu. Frango, ovo, queijos e iogurte aparecem com moderação, enquanto os doces e a carne vermelha ficam restritos a ocasiões especiais.

    Um item bastante lembrado ao falar de Dieta Mediterrânea é o vinho tinto, cheio de resveratrol – substância lembrada, entre outras coisas, por blindar o coração. Mas não é para encher a cara: recomenda-se uma taça por dia. Aliás, o suco de uva integral é uma ótima alternativa.

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  • A insônia foi alvo de debate no congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), o maior do Brasil. Durante uma apresentação de quase duas horas sobre o impacto da saúde mental no coração, o psiquiatra Kalil Duailibi, da Universidade Santo Amaro, fez questão de ressaltar a importância de receitar boas noites de sono para evitar que os pacientes sofram com infarto e mesmo AVC, o popular derrame.

    SAÚDE esteve presente nesta aula. E pinçou para você grandes motivos apontados por Duailibi — corroborados por outros especialistas — que explicam o porquê dessa associação negativa. Confira:

    Hipertensão: dormir menos de cinco horas por noite, acredite, aumenta em cinco vezes o risco de ter pressão alta, um dos principais fatores de risco para o infarto. Por quê? Além do estresse, os vasos sanguíneos de quem não consegue se desligar por tempo suficiente ficam mais rígidos.

    Obesidade: uma série de estudos mostra que a falta de descanso estimula a pessoa a comer mais. Pior: ela estimula que o alimento seja estocado na forma de gordura. Há, por exemplo, pesquisas sugerindo que, mesmo com uma ingestão idêntica de calorias, os sujeitos com poucas horas de sono tendem a engordar mais.

    Diabetes: Duailibi citou um levantamento com 300 pessoas completamente saudáveis que, por algumas semanas, foram impedidas de relaxar adequadamente. Algumas eram acordadas antes da hora, outras tinham de escutar barulhos ao longo da madrugada…

    Após tanto sofrimento, notou-se que essa turma — que antes apresentava exames normais — desenvolveu um princípio de resistência à insulina. E esse cenário, marcado por uma dificuldade de a tal insulina colocar a glicose para dentro das células, com o tempo abre as portas para o diabetes tipo 2.

    Depressão: é uma via de mão dupla, na verdade. Se por um lado esse transtorno psiquiátrico pode dificultar o adormecer, a insônia mexe com a cabeça da pessoa a ponto de aumentar o risco de uma tristeza profunda.

    Acontece que os quadros de melancolia moderada ou grave estão cada vez mais associados a repercussões pelo corpo inteiro. Isso porque substâncias produzidas em maior escala entre os pacientes deprimidos podem lesar os vasos sanguíneos.

    Mais do que isso, a doença em si faz o sujeito se importar menos com a própria saúde. Ele para de se exercitar, começa a comer pior, abandona o tratamento de eventuais doenças… E quem sofre com isso é o coração, literalmente.

    Resumo da ópera

    Segundo Duailibi, essas questões ajudam a entender levantamentos que indicam que, quanto mais sintomas da insônia águem apresenta, maior a probabilidade de infarto. Ou seja, é bom levar a sério sinais como dificuldade de concentração, sonolência diurna e irritação. Dormir não é desperdício de tempo, como muita gente alega.

    E um último dado para chamar atenção: menos de seis horas de sono aumenta o risco de morte por qualquer causa. Que tal valorizar o descanso?

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  • Marque no relógio: no tempo que você levará para ler esta reportagem, pelo menos dois brasileiros sucumbirão ao infarto, a causa de morte número 1 em nosso país e em boa parte do mundo. Esse cenário catastrófico é motivado pelo descontrole de fatores que patrocinam o entupimento das coronárias, as artérias que irrigam o coração, como o excesso de peso, o tabagismo, a pressão alta e altas taxas de colesterol e glicemia. Porém, chama a atenção a persistente lentidão com que as pessoas em geral (e, em certa medida, até profissionais de saúde) suspeitam dos sintomas de algo crítico no peito.

    Essa grave falha foi escancarada por uma pesquisa do Imperial College London, na Inglaterra, recém-publicada no jornal científico The Lancet. Os autores reuniram dados sobre todos os 135 mil óbitos por ataque cardíaco que ocorreram na Inglaterra entre 2006 e 2010. Eles descobriram que, em 16% dos casos, os indivíduos haviam visitado o hospital durante o mês anterior com dores, desmaios ou falta de ar.

    Mesmo assim, esses pontos de alerta não foram suficientes para levantar a possibilidade de um evento sério no coração. “O estudo destaca a importância de ficar atento aos sinais sugestivos do problema, uma vez que uma em cada seis pessoas passaram por consulta e não tiveram um diagnóstico correto”, analisa o médico Marcus Bolívar Malachias, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

    É óbvio que as pontadas agudas no peito são a face mais conhecida e comum do infarto. Mas nem sempre essa sensação dá as caras. Aliás, um músculo cardíaco em parafuso se entrega por outras vias também. “Entre elas, podemos citar dificuldades para respirar, palidez, suor frio, náuseas, vômitos, tontura, confusão mental, perda de consciência e dores difusas nas costas, nos braços e na mandíbula”, lista o médico Agnaldo Píspico, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

    O estabelecimento deles está relacionado à conexão entre diferentes estruturas do sistema nervoso que transmitem o estímulo doloroso e a região atingida. Se a obstrução aconteceu na porção inferior do coração, por exemplo, é natural experimentar desconfortos como regurgitação e azia.

    E olha que os sintomas menos famosos são corriqueiros em alguns grupos específicos, a começar pelas mulheres. Um levantamento do Centro Médico Regional de Lakeland, nos Estados Unidos, concluiu que 42% das infartadas não sentiram uma dorzinha sequer no tórax. “Elas também demoram em média uma hora a mais para ir ao pronto-socorro em comparação com os homens”, observa o cardiologista Otavio Gebara, do Hospital Santa Paula, na capital paulista. Para piorar, o aumento do estresse e das incumbências com trabalho, casa e família elevou as estatísticas das doenças cardiovasculares entre o público feminino nas últimas décadas.

    Diabéticos e idosos são outros perfis de gente que tem o colapso cardíaco sem manifestar sintomas clássicos. “O diabete danifica os nervos e altera a sensibilidade à dor”, explica o cardiologista José Armando Mangione, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. A doença ainda modifica a configuração interna dos vasos sanguíneos e possibilita o surgimento de coágulos que bloqueiam a passagem do líquido vermelho.

    Nos mais velhos, o avançar das décadas deixa o coração franzino. “Muitas vezes, só vemos que um paciente de 70 ou 80 anos infartou após alguns meses, no resultado de exames de rotina”, conta o cardiologista Leopoldo Piegas, do Hospital do Coração, na capital paulista.

    Quando, então, suspeitar que sinais tão simples significam um infarto sem virar hipocondríaco? A regra essencial é ficar com a pulga atrás da orelha caso os incômodos sejam intensos e surjam do nada. Quem possui histórico familiar de enfermidades cardíacas, fuma, está acima do peso, hipertenso ou com o colesterol alto também deve ficar ligado. “É necessário socorrer na primeira hora, pois esse é o momento em que ocorre a maioria das mortes”, frisa o cardiologista Francisco Lourenço Junior, do Hospital Quinta D¿Or, no Rio de Janeiro. Não tem jeito: para o relógio trabalhar a nosso favor, rapidez é primordial. Só assim evitamos que o coração afunde em águas nada tranquilas.

    Desconfiar sempre

    Grupos em que as manifestações das emergências cardíacas não são tão clássicas

    Mulheres

    A dor pode não ser tão forte nelas e vem acompanhada de palpitações. Episódios com impacto emocional são o gatilho de muitos piripaques cardíacos nesse público.

    Idosos

    Com um coração pouco vigoroso, saem de cena as pontadas do infarto. No lugar delas, pintam sintomas como confusão mental, tontura e falta de ar.

    Diabéticos

    Açúcar demais lesa os nervos responsáveis pelas sensações dolorosas, o que mascara o aperto nos vasos do coração. Náuseas e suor frio acendem o sinal de alerta nessa turma.

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  • Na Europa do século 18, uma epidemia parecia emergir das plantações de arroz. Ninguém sabia ao certo a origem da condição, que provocava febre, calafrios, dores e até morte. A única pista era o alto número de acometidos nos arredores dos arrozais, que, por causa disso, acabaram ilegais em terras italianas e portuguesas durante quase 50 anos. Só muito tempo depois o mistério foi desfeito: o responsável pelo pânico todo era um mosquito, e a doença em questão era a malária.

    Eis que, nove décadas após a identificação do vilão, os terrenos alagados usados no cultivo do grão voltaram a gerar receio e discussão. A polêmica da vez, difundida pela internet, envolve a presença de uma substância tóxica no cereal. “Apesar de contribuir para o crescimento do arroz, a inundação potencializa sua contaminação por arsênio, metal pesado existente no solo”, explica Bruno Batista, professor de química analítica da Universidade Federal do ABC, na Grande São Paulo.

    Ocorre que a exposição crônica a esse composto aumenta o risco de câncer e doenças do coração. E olha que ele está na água, no ar e até em alguns pesticidas. Ou seja, mesmo o cultivo em áreas secas não estaria isento do problema. Mas muita calma antes de jogar fora a panela de arroz. “Nos últimos 15 anos, o limite imposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) caiu de mil para 300 nanogramas de arsênio por grama do grão”, destaca Batista. E estudos realizados pelo químico apontam que a média que chega ao nosso prato é de 222 nanogramas por grama. Portanto, o arroz que o brasileiro consome é seguro.

    Mas tem gente lá fora que não bota muita fé no grão a despeito de ele ser branco ou integral. Andy Meharg, professor de ciências biológicas da Queen’s University of Belfast, na Irlanda do Norte, acredita que, em função do metal pesado, o arroz exige moderação, especialmente entre as crianças. “Em longo prazo, o arsênio pode comprometer o desenvolvimento físico, neurológico e imunológico”, alerta.

    Desde 1999, ao retornar de uma viagem a Bangladesh, ele tenta encontrar alternativas para deixar o grão mais saudável. O solo e a água dos países asiáticos estão entre os que apresentam maior índice da substância – daí o bafafá que ganhou a rede.

    Meharg descobriu que a maneira como se prepara o arroz ajuda a liquidar o arsênio ali escondido. De acordo com seus experimentos, utilizar duas partes de água para uma do alimento e deixá-lo ferver até evaporar é um erro. “Aumente a quantidade de líquido para cinco medidas, retire o excesso quando atingir o ponto, e o nível de arsênio cairá quase pela metade”, ensina.

    Polêmicas internacionais à parte, não dá pra discutir a popularidade que o arroz mantém entre os brasileiros. “Anualmente, 12 milhões de toneladas são produzidas no país. É a maior quantidade registrada fora da Ásia”, afirma Andressa Silva, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), no Rio Grande do Sul, que hoje lidera com folga o ranking dos estados que mais contribuem para alcançarmos essa marca tão expressiva. Santa Catarina aparece em seguida.

    O consumo de arroz por aqui também continua inabalável. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estima que cada cidadão coma 46 quilos por ano. “O grão foi trazido pelos colonizadores portugueses e logo caiu no gosto dos nativos, tornando-se a base das nossas refeições até os dias de hoje”, conta José Almeida Pereira, pesquisador da área de Fitotecnia do Arroz da Embrapa Meio-Norte, no Piauí. Se não é de agora que o arroz possui lugar cativo à mesa e faz parte da história e do desenvolvimento do Brasil, nada mais justo do que dedicar mais tempo e atenção à compra e ao preparo, certo?

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    Depois de um dia exaustivo de trabalho, você finalmente chega em casa e toma um banho relaxante, daqueles em que precisa reunir forças para desligar o chuveiro. Mais tarde, na cama, o sono vem aos poucos, fazendo os olhos pesarem cada vez mais. Aí alguém de repente escancara a porta, acende a luz, arremessa as cobertas e, com berros animados, pede para você trocar o pijama por uma roupa de ginástica e calçar os tênis. É hora de correr alguns quilômetros – e não há como escapar. Soa como enredo de ficção, mas é mais ou menos o que acontece quando, pertinho de deitar, agente se empanturra de comida. É como se chacoalhássemos estômago, intestino e outros órgãos envolvidos na digestão, forçando-os a permanecer na ativa.

    Só que não dá para esperar um serviço perfeito quando falta tempo para uma folguinha. “Nossos órgãos têm relógios e funcionam melhor em períodos específicos do dia”, afirma Marie-Pierre St-Onge, professora de medicina nutricional da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Recentemente, ela e outros pesquisadores chamaram a atenção para a importância do planejamento das refeições em um estudo publicado na Circulation, revista científica da Associação Americana do Coração. De acordo com o documento, não levar em conta o horário das garfadas elevaria o risco de doenças do coração, derrames e outros pesadelos para a saúde.

    No planejamento do organismo, o período noturno naturalmente ganha destaque. “À medida que a luz solar vai diminuindo, o metabolismo também se adapta para colocar o corpo em repouso”, ensina a nutricionista e doutora em cronobiologia Ana Harb, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul. Acontece que, atualmente, a chegada da noite nem sempre é um convite ao sossego.

    Ao bater o cartão no escritório, muitas pessoas aproveitam para se exercitar ou estudar. Com isso, não raro o jantar ocorre próximo à hora de dormir. Já quem consegue ir direto para casa nem repara, mas o expediente corrido e asensação de dever cumprido podem favorecer uma certa permissividade alimentar, com beliscos sem fim em frente à televisão. São situações que bagunçam o corpo. “Daí, alguns mecanismos fisiológicos comuns nesse período deixam de acontecer”, avisa Antonio Herbert Lancha Jr., professor de nutrição da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro O Fim das Dietas (Editora Abril).

    Entre os processos que ficam atrapalhados está a queda esperada da pressão arterial, como sinaliza um estudo apresentado no último Congresso Europeu de Cardiologia, realizado na Itália. Para a investigação, cientistas da Universidade Dokuz Eylül, na Turquia, avaliaram os hábitos de 721 voluntários já diagnosticados com hipertensão. Desse total, 376 tinham aversão da doença conhecida como não-dipper – o termo significa que apressão não cai como deveria no decorrer da noite.

    Ao compará-los com os outros 345 indivíduos, os pesquisadores identificaram algumas explicações clássicas para os vasos não relaxarem nem um pouquinho nessa etapa do dia, como maior índice de massa corporal e idade mais avançada. Mas um dado novo se sobressaiu: jantar tarde, especificamente duas horas antes de dormir, foi considerado fator de risco para ter a tal hipertensão não-dipper. Sim, é como se o organismo ficasse em estado de alerta.

    Parece mero preciosismo a definição do quadro. Mas não é bem por aí. De acordo com o médico Marcus Bolívar Malachias, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a maioria da população – inclusive a parcela hipertensa – deveria exibir uma queda de aproximadamente 10% na pressão arterial à noite. É como uma preparação para o corpo descansar. “Hoje, as evidências indicam que não passar por isso deixa o indivíduo mais propenso a encarar futuramente um infarto ou derrame”, diz.

    Eis o drama: como repousar direito quando a comida continua descendo goela abaixo e sendo digerida? Pois é, uma coisa não combina com a outra e o corpo permanece ligadão. Entre as consequências disso está a produção contínua de substâncias como noradrenalina e cortisol – também chamadas de hormônios do estresse -, que deveria despencar ao anoitecer. “São elas que impedem a queda da pressão”, esclarece o presidente da SBC. Para ele, embora a investigação turca tenha focado apenas em hipertensos, todo mundo deveria ficar esperto com os achados.

    Até porque há motivos extras para evitar estripulias alimentares quando o sol se põe. “O organismo lida pior com a glicose. Por isso, o exagero alimentar nesse período não é bom em termos de controle do açúcar no sangue”, exemplifica Marie-Pierre, da Universidade Colúmbia. Em um pequeno experimento japonês, ao comparar os efeitos de jantar às 18 horas com os de uma refeição às 23 horas, os estudiosos notaram que a última situação chegava a desajustar os níveis de glicose após o café da manhã do dia seguinte.

    A conclusão do grupo é que o hábito de comer muito tarde favoreceria o surgimento do diabete. “Durante a noite, já contamos com um mecanismo natural de produção de glicose. Se ainda ofertamos mais dessa substância por meio da alimentação, ocorrerá uma sobrecarga capaz de predispor a problemas”, concorda o endocrinologista Bruno Geloneze, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista.

    Quem não mede o prato (e os petiscos) antes de deitar também periga ter um descanso insatisfatório. Lembra aquela história de que a comida mantém o sistema digestivo em pleno funcionamento? “De fato, isso torna o sono superficial”, atesta o neurocientista John Fontenele Araújo, professor do Laboratório de Neurobiologia e Ritmicidade Biológica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

    Não quer dizer que você será incapaz de pregar os olhos. “Mas é como se estivesse dormindo em um lugar com muito ruído”, compara. Se isso ocorre com frequência, temos a ativação constante do sistema nervoso simpático – de acordo com o expert, é como submeter o corpo a um estresse crônico. O resultado dessa história é que o intestino não funciona como deveria, a pressão arterial sobe e por aí vai.
    Uma questão de quantidade

    Que fique claro: o preocupante não é se alimentar após o pôr do sol, mas cometer abusos em uma refeição que, por razões fisiológicas, deveria ser mais leve. “Nós fomos feitos para comer de dia e descansar à noite“, acredita o endocrinologista Bruno Halpern, do Hospital 9 de Julho, em São Paulo. Mais uma prova disso tem a ver com a termogênese, o processo que leva à queima de calorias. “Pela manhã ele é mais intenso do que no almoço. No jantar, por sua vez, não é ativado da mesma maneira”, conta aendocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

    “Se consumida no horário errado, a mesma comida, na mesma quantidade, pode ter impacto diferente no ganho de peso”, assegura a neurologista Phyllis Zee, diretora do Centro de Ritmo Circadiano e Medicina do Sono da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos. Não à toa muitos estudos associam a fartura no jantar a um maior risco de obesidade – e a várias encrencas que surgem no encalço de uma barriga saliente. “Sempre recomendo aos meus pacientes que parem de comer três horas antes de deitar”, revela Phyllis.

    Tem outro ponto que joga contra os comedores noturnos. Em geral, encher a pança no fim do dia faz o apetite minguar pela manhã. Se o indivíduo ainda é do tipo que levanta e sai correndo para o trabalho, mais uma razão para o desjejum ser ignorado. Está aí uma combinação traiçoeira. Afinal, pular o café seria o primeiro passo para chegar ao jantar com uma fome danada. “E nessa refeição o ideal é consumir menos de 25% das calorias totais ingeridas ao longo de um dia”, calcula Geloneze. “Mas vejo gente que chega a 50% ou mais”, relata.

    Em um experimento com 93 mulheres acima do peso e portadoras de síndrome metabólica – quadro que ameaça o coração -, um grupo foi incentivado a comer 200 calorias no café da manhã e 700 calorias no jantar. A outra turma fez exatamente o oposto. Em 12 semanas, os cientistas da Universidade Tel Aviv, em Israel, perceberam que todas as voluntárias perderam peso, viram a cintura diminuir e tiveram melhoras no controle da glicose e da insulina. Porém, todos esses efeitos foram mais expressivos entre quem se esbaldou no café da manhã. Além disso, os níveis de triglicérides caíram 33% nessas mulheres. Já nas que se excederam no final do dia as taxas subiram 14%.

    Para o endocrinologista da Unicamp, ninguém deve considerar cortar o jantar. O melhor caminho seria incentivar a primeira refeição do dia. “Assim, fica mais fácil e natural a mudança do hábito noturno”, raciocina. Também não vá arrancar os cabelos caso só consiga comer lá pelas 22 horas. “O problema é se o consumo calórico for grande”, analisa Geloneze.

    Ou seja, nada de jejum. O recado é válido sobretudo aos diabéticos. Isso porque muitos usam remédios capazes de induzir à hipoglicemia se a alimentação não ocorre a cada três horas. “Logo, eles devem jantar e ainda fazer a ceia mais tarde”, recomenda o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da USP de Ribeirão Preto. A verdade é que, com moderação, as duas refeições estão permitidas a todo mundo.
    O que comer

    Evidentemente há escolhas mais sensatas para essa fase do dia. Os especialistas orientam, por exemplo, pegar leve nos itens de difícil digestão, como os carregados de gorduras. Sabe aquela carne com molho superelaborado que sobrou do almoço? Então… “Quando a gordura é reconhecida pelo corpo, um hormônio chamado colecistocinina lentifica adigestão”, explica Lancha Jr. “Por isso é comum acordar com a sensação de que esse processo não acabou”, diz. É meio caminho andado para pular o café da manhã (e chegar, de novo, faminto à noite). Segundo Halpern, também há evidências de que, na calada da noite, lidamos pior com agordura. “Os depósitos gordurosos também iriam para uma parte do coração que atrapalha os batimentos”, informa.

    Pode acreditar: no final das contas, o tão difamado carboidrato não é o monstro que pintaram. “Ele ganhou essa fama porque achavam que seu consumo atrapalhava a fabricação do hormônio do crescimento”, explica Lancha Jr. “Mas a liberação dessa substância acontece quando a gente dorme. Não tem nada a ver com o nutriente”, argumenta. Então, dá para comer macarrão tranquilamente. Basta trabalhar com o bom senso na hora de eleger os acompanhamentos.

    A nutricionista Bianca Chimenti Naves, da clínica Nutrioffice, em São Paulo, afirma que na refeição noturna o ideal é contemplar um alimento do grupo dos carboidratos, como arroz (de preferência integral) e tubérculos; um representante da ala das proteínas, a exemplo de carnes magras, peixe ou ovo; e três redutos de micronutrientes e fibras, tais quais verduras, legumes e frutas. No melhor dos mundos, essa combinação cai bem lá pelas 19 ou 20 horas.

    Próximo de dormir, tudo bem apostar em iogurte, leite ou fruta. Agora, o lanchinho mais proteico teria suas vantagens. Pelo menos é o que insinuam experiências conduzidas no laboratório de Michael Ormsbee, diretor do Instituto de Medicina e Ciência do Esporte, na Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos. “Notamos que bebidas proteicas podem ajudar na formação de músculos durante a noite, na melhora do metabolismo e no controle da saciedade”, descreve. “Além disso, não prejudicariam a queima da gordura”, adianta. Por enquanto, Ormsbee testou um shake com cerca de 150 calorias e 30 a 40 gramas de caseína, proteína achada no leite. Ele está avaliando se o queijo cottage surtiria os mesmos efeitos.
    “Mas eu não janto”

    Você costuma fazer o famoso lanche, é isso? Pois ele deve seguir o mesmo preceito de parcimônia de um jantar – tarefa não tão fácil assim. “Dependendo da composição do sanduíche, ele pode ter as mesmas calorias de um prato enorme”, avalia Maria Edna de Melo, da Abeso. A nutricionista Bianca dá exemplo de um lanche adequado: duas fatias de pão de fôrma integral, atum e salada de tomate e alface. Nada de camadas e camadas de embutidos, molhos e companhia.

    E resista ao repeteco. O recado faz sentido porque o lanche tende a acabar mais rápido do que um prato de arroz e feijão. Aí a saciedade demora abater. “Uma dica é utilizar talheres para comer mais devagar”, sugere Lancha Jr. Se estiver fora de casa, o jeito é manter a linha mesmo e mastigar sem pressa. Nesse contexto, o prático sanduba até cai como uma luva, já que facilita a recomendação de jantar umas 19 horas e cear depois.

    Seja qual for a preferência – comida ou lanche -, o crucial é usufruir bem dessa refeição. Muitas vezes ela é a única oportunidade de juntar a família em volta da mesa. Mas, justamente por esse clima relax, existe o risco de abusarmos inconscientemente. “Para evitar esse comportamento, prepare amesa, mantenha as panelas no fogão e desligue a TV”, aconselha anutricionista Cynthia Antonaccio, da Consultoria Equilibrium, em São Paulo. Não é porque o jantar tem virado a refeição nobre do dia que precisa parecer destinado a um rei. Estudo após estudo, esse posto ainda pertence ao café da manhã.

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    Uma pesquisa da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, foi a primeira a analisar o elo entre as ondas de calor da menopausa e a capacidade de dilatação dos vasos sanguíneos. Os resultados apontaram que, entre as mulheres que tinham esse incômodo com mais frequência, os vasos que transportam sangue eram mais contraídos e de difícil expansão, características que servem de estopim para enfermidades cardíacas.

    Curiosamente, esse vínculo foi identificado somente em voluntárias mais jovens, entre 40 e 53 anos. Aquelas com idades entre 54 e 60 também foram analisadas, mas nenhuma alteração importante foi encontrada. No total, 252 mulheres foram avaliadas, sendo que elas não eram fumantes nem possuíam histórico de disfunções cardiovasculares.

    “As ondas de calor não são apenas um desconforto. Elas já foram relacionadas a doenças no coração, nos ossos e no cérebro”, explicou JoAnn Pinkerton, diretor da Sociedade Norte-Americana da Menopausa. “Nesse estudo, elas puderam ser medidas fisiologicamente e mostraram estar ligadas a alterações cardíacas que ocorrem no início da transição para a menopausa”, completa.

    É bom que os profissionais de saúde fiquem cientes dos achados da pesquisa, já que infartos são uma das principais causas de morte entre o sexo feminino. Ainda de acordo com a investigação, 70% das participantes relataram que sentiam ondas de calor e, dessas, um terço disse que o sintoma era frequente e severo.

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    Pera, maçã ou banana? Pode até parecer que estamos reinventando aquela famosa brincadeira juvenil ou selecionando ingredientes para uma salada de frutas. Mas, na verdade, os três termos são utilizados por médicos para definir tipos físicos.

    A endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, explica: “Um corpo maçã é aquele com maior concentração de gordura na região abdominal, com pernas e braços finos. O pera, por sua vez, é curvilíneo, tem uma melhor distribuição de tecido adiposo. Banana seriam os totalmente magros”. Agora que você já sabe qual é o seu biótipo, descubra mais detalhes clicando nas imagens abaixo:

    Maçã

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    Seu metabolismo é: lento. A barriga mais inchada, típica do perfil maçã, é resultado do excesso de gordura visceral, que se aloja dentro e ao redor dos órgãos. O problema: ela é especialmente danosa e pode, por exemplo, levar a problemas cardiovasculares e diabete, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos.

    Pera

    foto-imagem-pera

    Seu metabolismo é: rápido. O maior volume das coxas e do quadril — que dá o formato de pera —, denota uma tendência a estocar gordura no chamado tecido adiposo subcutâneo. Ele é bem menos nocivo do que o visceral, porém é mais difícil de ser queimado.

    Banana

    foto-imagem-banana

    Seu metabolismo é: superrápido. Mas atenção: não caia na história de que magreza é sinônimo de saúde e dispensa exercícios físicos e alimentação equilibrada. Mesmo que a silhueta permaneça intacta, ficar parado e exagerar nas refeições favorece o diabete e diversas doenças entre os “magros de ruim”.

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    Nada nem ninguém gerou tanto bafafá no último Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, recém-ocorrido na Costa do Sauípe, na Bahia, quanto a tireoide. A glândula localizada no pescoço e que regula o ritmo de funcionamento de todo o organismo foi o tema central de 12 mesas-redondas, conferências e aulas – a título de comparação, a obesidade, outra estrela do evento científico, esteve presente em 11 palestras. Dá pra entender o porquê: novos estudos estão mudando pra valer a maneira como os médicos (e os pacientes) devem encarar e remediar os descompassos tireoidianos.

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    A primeira grande notícia é a reclassificação de um tipo de câncer relativamente comum na glândula. Seu nome é complicado: variante folicular do carcinoma papilífero não invasivo encapsulado (ou EFVPTC, na sigla em inglês). Há seis meses, ele era considerado maligno e exigia um contra-ataque pesado, com cirurgia e boas doses de radiação.

    Pois um convênio de cientistas do mundo inteiro capitaneado pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, decidiu alterar radicalmente o caráter desse tumor. “Partimos da observação de que, na maioria dos casos, ele evoluía muito bem, sem sinal de proliferação, mesmo quando não se faziam intervenções”, relata o patologista Venancio Alves, da Universidade de São Paulo e do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP), único brasileiro a fazer parte da investigação.

    Por isso, a partir deste ano, o que era um câncer passa a ser visto como nódulo benigno, que não carece necessariamente de bisturi ou bombardeios de iodoterapia. “Alguns colegas dizem que este foi o primeiro recall da história da medicina”, brinca a endocrinologista Patrícia Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    Estima-se que o EFVPTC represente 20% do total de tumores de tireoide. A expectativa é que essa decisão reduza gastos com a saúde e o uso de tratamentos supérfluos, além de minimizar a ansiedade das pessoas diagnosticadas.

    A reclassificação é apenas um exemplo de uma série de transformações pelas quais a abordagem dos nódulos tireoidianos está passando. Todas as etapas de diagnóstico e tratamento são revistas atualmente e geram acalorados debates. Isso começou quando os experts perceberam que, nos últimos 25 anos, houve um aumento de três vezes no número de episódios, embora a taxa de mortalidade continuasse a mesma.

    A principal explicação para o fenômeno está na prescrição indiscriminada do ultrassom de pescoço, que vasculha a glândula à caça de tumores. A tecnologia progrediu tanto que essas máquinas são capazes hoje de apontar massas cada vez menores e indolentes.

    “Exames realizados com sujeitos de mais de 50 anos detectam lesões incidentais, sem grande significado para a saúde, em quase 60% das circunstâncias“, calcula o endocrinologista Hans Graf, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E 100% daqueles que alcançaram as oito décadas de vida apresentam um caroço na região. Ou seja: flagrar um nódulo com características perigosas é um tanto quanto mais raro.

    Portanto, não se recomenda fazer o ultrassom de rotina, como acontece com a mamografia na prevenção do câncer de mama após os 45 anos. “Esse teste só está indicado como checkup quando há histórico familiar da doença ou suspeitas na palpação do pescoço no consultório”, afirma Graf. Aliás, 7% das malformações são perceptíveis no exame clínico, em que o médico palpa o pescoço do paciente

    Se alguma bolota esquisita é encontrada no ultrassom, a próxima fase envolve determinar se ela é tranquila ou agressiva. Isso é possível por meio da biópsia, em que uma agulha fina é inserida na região da garganta e aspira um pedacinho defeituoso da glândula para análise em laboratório.

    E não é que esse procedimento também é alvo de reformas? A Associação Americana de Tireoide – que admite uma certa epidemia artificial do problema – atualizou suas diretrizes sobre o assunto e aconselha que nódulos com menos de 1 centímetro não sejam avaliados por uma punção. Isso vale até para aqueles que aparentam ser do mal: basta monitorar seu crescimento de tempos em tempos. Essa conduta, por enquanto, ainda não é a realidade nas clínicas e nos hospitais brasileiros.

    Nada de precipitações com o câncer

    Mas, ok, vamos supor que o médico pediu ultrassom e biópsia e os laudos mostram que se trata de um tumor maligno. Pois senta que lá vem novidade: há situações em que o melhor é nem intervir. Estudiosos do Hospital Kuma, no Japão, seguiram 340 pessoas com microcarcinoma papilífero – o câncer de tireoide mais prevalente – durante dez anos, sem recorrer a qualquer ação. Nesse período, 15% tiveram uma ampliação da massa cancerosa superior a 3 milímetros e apenas 3% sofreram metástase, ou seja, as células malignas se espalharam por outras áreas.

    A lição nipônica é que, na maior parte das vezes, o indivíduo morre com o nódulo, mas não em decorrência dele. Essa é a típica ocasião em que a terapia se torna mais prejudicial do que a enfermidade em si.

    Isso abre a perspectiva de se tomar alguma atitude só no momento em que existe uma ameaça à saúde. “O tema é bastante controverso e o nosso desafio está em selecionar os casos em que uma operação não é mesmo necessária”, raciocina o cirurgião de cabeça e pescoço Erivelto Volpi, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Que fique claro: uma estratégia dessas é válida somente se o tumor é pequeno, não está num local complicado nem tem capacidade de se dispersar pela circulação ou sistema linfático. Aliás, uma discussão similar vem ocorrendo com o câncer de próstata.

    A própria cirurgia, aliás, já não é a mesma. Os cortes ganharam precisão, e as cicatrizes estão quase imperceptíveis. Os riscos se mostram modestos e, mais importante, a palavra de ordem é preservar sempre que possível.

    “Hoje em dia, dá para retirar metade da glândula e conservar a porção saudável”, conta o médico Antonio Bertelli, do Hospital Samaritano de São Paulo. A parcela sadia consegue até produzir o T3 e o T4 normalmente, sem precisar de reposição hormonal por meio de comprimidos diários

    Cinco fatores influenciam a probabilidade de os tumores aparecerem

    Sexo: mulheres são mais propensas a desenvolver os carocinhos do que homens. A culpa é do estrogênio, hormônio feminino que estimula a proliferação desenfreada de células da tireoide.

    Idade: levantamentos comprovam que praticamente todas as pessoas com 80 anos têm massas tumorais na glândula. Na esmagadora maioria das vezes, isso não compromete o bem-estar delas.

    Genética: falhas no DNA predispõem a nódulos e tumores agressivos. Já está disponível um teste genético que antevê a doença e permite remover a glândula antes de o mal se instalar.

    Agressões: as versões autoimunes de hipotireoidismo e hipertireoidismo são marcadas por ataques das células de defesa ao tecido tireoidiano. Em longo prazo, isso também promove o surgimento de nódulos.

    Escassez de iodo: ele é o ingrediente básico da receita de T3 e T4. Se está em falta, tudo entra em parafuso. No Brasil, a carência é incomum, uma vez que o sal de cozinha é suplementado com esse mineral.

    Hiper e hipotireoidismo

    O hipotireoidismo, quando a glândula produz pouco hormônio e deixa o organismo lento, e o hipertireoidismo, situação contrária em que o corpo fica acelerado demais, são bem conhecidos e estudados. Mas, durante o congresso, causaram barulho as descobertas recentes sobre as versões subclínicas das duas doenças – o termo “subclínico” faz referência a um problema orgânico inicial que ainda tem poucas manifestações evidentes.

    8% dos brasileiros sofrem com o hipotireoidismo
    1,2% tem hipertireoidismo
    50% deles não sabem que têm disfunções tireoidianas. Um exame de sangue já flagra as variações

    Nessa situação, o hormônio TSH, liberado no cérebro e o grande influenciador do trabalho da tireoide, está em excesso (no hipotireoidismo) ou em falta (no hiper), só que o hormônio tireoidiano em si, o T4, está dentro dos níveis normais. Médicos ao redor do globo começaram a suspeitar que essa metamorfose prematura não é tão inofensiva assim. Desde então, pipocam pesquisas acusando um elo direto entre essas variações sutis e uma coleção de complicações.

    10% da população apresenta hipotireoidismo subclínico. A maioria nem sabe disso
    1,5% convive com o oposto: o hipertireoidismo subclínico
    15% daqueles com hipotireoidismo subclínico evoluem para a doença em si dentro de um ano

    O primeiro grupo do mundo a publicar achados sobre o hipertireoidismo subclínico é do Brasil, mais precisamente do interior paulista. O endocrinologista José Augusto Sgarbi, da Faculdade de Medicina de Marília, identificou que pessoas acompanhadas nesse estágio já sofriam perrengues cardiovasculares em comparação com quem tinha o TSH dentro das metas.

    “Observamos uma alteração na frequência das batidas do coração delas”, destaca Sgarbi. E o drama é que, entre essa turma, também foi registrado um maior número de infartos. Evidências posteriores, obtidas a partir de uma aliança internacional de pesquisadores, a Thyroid Studies Collaboration, reuniram dados de 55 mil pessoas de diversas etnias e desvendaram uma relação das quedas de TSH com osteoporose e AVCs.

    Tudo leva a crer que o hipotireoidismo subclínico também semeia desordem em várias instâncias… a começar pelos vasos sanguíneos. “Ele aumenta as taxas de colesterol ruim, o LDL, o que eleva o risco de doenças cardiovasculares”, exemplifica o endocrinologista Cleo Otaviano Mesa Junior, do Hospital de Clínicas da UFPR. Já existem indícios, ainda, de que o hipo leve teria algo a ver com infertilidade e disfunções renais.

    A questão é que as versões subclínicas não costumam dar sinais claros de sua presença. “Porém, se você perguntar para os pacientes, verá que eles demonstram mais sintomas típicos do hipo ou do hipertireoidismo do que a população geral e, obviamente, merecem ser avaliados com bastante critério”, chama a atenção a endocrinologista Laura Ward, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Fica a dúvida, então, de quando investigar ativamente queixas tão tímidas ou quase inexistentes. Alguns perfis, já se sabe, demandam cuidado extra, como quem tem distúrbios autoimunes – especialmente vitiligo, artrite reumatoide e diabete tipo 1 -, gente com depressão, gestantes e aqueles que tomam remédios que interferem na ação da tireoide, caso da amiodarona, prescrita para conter arritmias cardíacas, e do lítio, utilizado para controlar transtornos psiquiátricos.

    E como é possível o pequeno sobe e desce hormonal provocar esse rebuliço todo? “O TSH é muito sensível e apresenta grandes flutuações antes de o T4 ser afetado”, responde o médico Mario Vaisman, chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.

    Logo, por mais que o hormônio tireoidiano esteja dentro dos parâmetros nos exames laboratoriais, sua quantidade já não é suficiente para suprir as exigências do organismo. Sabe aquela história da água mole em pedra dura? Modificações mínimas que se arrastam na clandestinidade por anos a fio levam àquele turbilhão de ligações perigosas.

    Como o conhecimento sobre os incômodos subclínicos é novo, ainda permanece a polêmica de quando eles devem ser combatidos com remédios. Para inibir o hipo inicial, os médicos utilizam a levotiroxina, versão sintética do hormônio T4. Por ora, a terapia só está indicada a indivíduos com TSH muito elevado e que tenham menos de 65 anos.

    “De certa maneira, os mais velhos são protegidos e se beneficiam desse hipotireoidismo”, informa Sgarbi. Neles, a condição reduz ligeiramente o metabolismo e o uso do oxigênio. Isso facilita o trabalho do coração, que já não funciona como outrora. Pesquisas demonstraram, inclusive, que na faixa etária avançada a intervenção sai pela culatra e aumenta o risco de morte.

    E olha que curioso: no hipertireoidismo tênue, a recomendação se inverte. O tratamento, feito a partir de remoção cirúrgica ou drogas que sossegam a tireoide, é bem-vindo para mulheres na pós-menopausa e naqueles que passaram da casa das seis décadas de vida.

    “Quanto mais idoso, maior o risco de o hiper levar a um prejuízo cardíaco, uma vez que ele se soma a outros fatores comuns nessa idade, como pressão alta”, avisa Laura. Na contramão, um sistema cardiovascular jovem seria capaz de aguentar o tranco das flutuações hormonais. Por fim, os especialistas consideram a maior probabilidade de os quadros subclínicos evoluírem para as versões típicas antes de prescreverem o contra-ataque terapêutico.

    O que está em suas mãos

    Algumas mudanças no estilo de vida ajudam, sim, a prevenir enroscos na glândula. A primeira delas é emagrecer ou se manter dentro de um peso adequado. “Novas evidências sugerem que a obesidade perturba a função da tireoide e induz o surgimento de nódulos e até câncer ali”, afirma o endocrinologista

    Joaquim Custódio Junior, da Universidade Federal da Bahia. O caminho contrário, porém, é mito: o hipotireoidismo não engorda pra valer. Há uma facilidade de retenção de líquidos que acrescenta uns 3 quilos à balança – e não mais que isso. “Ele desacelera o metabolismo, o que dificulta a perda de peso, mas os medicamentos tendem a acabar com esse problema”, diz Vaisman.

    Circulou pela internet recentemente uma moda de tomar a levotiroxina para enxugar as medidas, mesmo sem diagnóstico de doenças na tireoide. Muita cautela com tais fórmulas miraculosas. “Essa atitude não é aconselhável porque pode provocar o hipertireoidismo e uma posterior degradação dos ossos”, alerta Mesa Junior.

    No que se refere à alimentação, não há nenhuma comida ou dieta mágica para proteger a glândula. O iodo é suficiente para que ela funcione em paz. O mineral marca presença no sal de cozinha por lei desde a década de 1950 e a porção ali supre nossas necessidades diárias.

    Em 2013, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária baixou o teor permitido. Antes, eram liberadas concentrações de 20 a 60 miligramas de iodo por quilo do produto. Agora, a legislação pede entre 15 e 45.

    Muitos endocrinologistas foram contra a decisão porque temem repercussões na gestação. “Estamos conduzindo uma investigação para conferir se essa modificação afeta as mulheres grávidas”, diz Vaisman. Talvez as futuras mamães precisem engolir cápsulas de iodo pelo bem do bebê.

    O selênio, presente em abundância na castanha-do-pará, parece ter influência positiva sobre a tireoide. Mas, como inexistem deficiências do mineral entre os brasileiros, não haveria razão para usar suplementos. Vale, se for o caso, consultar um especialista para averiguar a situação e verificar se cápsulas seriam necessárias para corrigir desfalques nutricionais.

    Agora, exageros à mesa seriam contraindicados sobretudo em se tratando da soja, que tem substâncias capazes de interferir na fabricação dos hormônios. “Os derivados do grão devem ser consumidos sem abuso porque estão relacionados ao bócio”, diz Custódio Junior.

    Se a doença está instalada, saiba que os fármacos disponíveis são seguros, baratos e eficazes – a levotiroxina, por exemplo, é idêntica ao T4 natural. E as farmacêuticas lançaram nos últimos tempos doses intermediárias do remédio, o que assegura um ajuste mais certeiro do esquema de uso.

    Sim, são muitas descobertas para uma glândula só. Esteja certo, porém, de que o bem-estar dela repercutirá pelo corpo todo… e pela vida inteira.

    4 condutas que ajudam a evitar hipo, hiper e até os nódulos

    Alimentação: o iodo, adicionado ao sal, é essencial à formação dos hormônios da tireoide, enquanto o selênio regula seu trabalho. A falta ou o abuso geram problema.

    Meio ambiente: a exposição a poluição e a produtos químicos como o chumbo e o bisfenol dos plásticos bagunça a glândula. Hábitos sustentáveis são cada vez mais importantes.

    Peso: a obesidade desnivela as concentrações de leptina, hormônio do tecido gorduroso que atrapalha a tireoide. Emagrecer evita a necessidade de algumas intervenções.

    Exames: medir o TSH e o T4 no checkup e realizar ultrassom nos casos em que há indicação auxiliam a detectar (e tratar) as doenças no estágio inicial.

    A história da tireoide

    Ela só foi estudada com profundidade há cerca de 500 anos. Os avanços nos séculos 19 e 20 permitiram garantir uma vida totalmente normal aos portadores de distúrbios na secreção dos seus hormônios

    2700 a.C.

    Imperadores chineses usam algas marinhas para tratar o bócio – inchaço no pescoço ocasionado pela deficiência de iodo.

    961 d.c.

    O árabe Abulcasis realiza uma cirurgia de retirada da glândula, mesmo sem saber direito para que ela servia.

    1500

    O artista e inventor italiano Leonardo da Vinci é o primeiro a reconhecer, vasculhar e desenhar a tireoide.

    1656

    O britânico Thomas Wharton cria o termo “tireoide”. Ele se inspirou no formato de um escudo que soldados da Grécia Antiga portavam.

    1831

    O médico brasileiro Francisco Freire Alemão recomenda, de forma pioneira, suplementar o iodo para evitar o bócio.

    1834

    Um quadro de palpitações e olho saltado é descrito pelo inglês Robert Graves. A culpada? A tireoide acelerada.

    1895

    Descoberto o papel da estrutura com formato de borboleta no ritmo de funcionamento de vários órgãos.

    1909

    Emil Theodor Kocher, fisiologista alemão, fatura o Prêmio Nobel de Medicina pelas suas descobertas sobre a glândula.

    1914

    Surgem as primeiras versões sintéticas do T4. Mas elas só chegaram às farmácias a partir de 1917.

    1956

    Descrita a ação dos anticorpos do sistema imune que atacam a tireoide no hipotireoidismo de Hashimoto.

    2016

    Um tipo de tumor que atinge as células tireoidianas é reclassificado e deixa de ser visto como um câncer.

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