• Já se vão quase 50 anos desde que o médico americano Robert Atkins (1930-2003) lançou sua famosa dieta, caracterizada pela eliminação brutal de carboidratos (arroz, pães, massas…) e por uma maior permissividade em relação às gorduras. De lá pra cá, cardápios similares ficaram à espreita do prato, ora alcançando popularidade, ora caindo em desuso. A onda da vez, queridinha entre quem quer emagrecer sem demora, é conhecida como low carb, termo em inglês para cardápio com pouco carboidrato. Segundo o Google, principal site de buscas na internet, ela foi a dieta mais procurada em 2017 pelos brasileiros, com um crescimento de 986% em relação a 2016.

    Nem precisa gastar seu tempo vasculhando quanto carboidrato é permitido nesse modelo alimentar. Não há consenso quanto a isso – o que dificulta, do ponto de vista científico, chegar a conclusões sobre o método. Em geral, fala-se em um consumo de 20 a 40% do nutriente em relação às calorias ingeridas em um dia, ou algo em torno de 50 a 100 gramas. Em uma dieta tradicional, suas fontes devem representar de 55 a 65% das calorias diárias. É uma baixa considerável.

    Na ponta do lápis

    Dieta tradicional
    Indica-se que de 55 a 65% das calorias consumidas diariamente sejam de fontes de carboidratos.

    Dieta low carb
    De todas as calorias ingeridas no dia, só de 20 a 40% deveriam vir do famigerado nutriente.

    Mas, mais do que bitolar na quantidade, a low carb propõe foco no tipo de alimento escolhido para suprir essa demanda. As pessoas são incentivadas a obter os carboidratos a partir de legumes e verduras. Já grãos, cereais, farináceos, algumas frutas e tudo que leva açúcar saem de cena por causa do alto teor da substância. Para ter ideia, é preciso dar adeus ao pão do café da manhã e ao arroz com feijão do almoço. No outro lado da balança, o que sobe é a ingestão de redutos de gorduras e proteínas.

    Não é difícil explicar por que esse cardápio causou frisson entre quem está preocupado com as dobras na cintura. “Sabemos que as dietas low carb levam a uma perda de peso rápida”, informa o endocrinologista Bruno Halpern, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Só que esse fato, tão apreciado pelo público, não é animador para parte dos especialistas na área. Na visão de Halpern, como as fontes de proteínas e gorduras saciam bastante, as pessoas passam a comer menos – daí emagrecem mesmo. O dilema é que, segundo ele, essas dietas restritivas são menos efetivas com o tempo. Lá vem efeito sanfona…

    Para Antonio Herbert Lancha Jr., professor titular de nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), até o emagrecimento ligeiro merece vista grossa. Isso porque a queda súbita no número que a balança exibe não significaria necessariamente uma queima de gordura. Calma que a gente explica o mistério.

    Low carb e emagrecimento

    O carboidrato é um dos elementos que determinam a presença de água dentro de nossas células. Portanto, quando o nutriente está em falta, o líquido vai embora. “As pessoas acham que a variação do peso vem da eliminação de gordura. Mas, na realidade, elas só perderam água”, esclarece Lancha Jr., que também é autor do livro O Fim das Dietas (Editora Abril). Pior: de acordo com experimentos do professor, nesse bolo a massa magra também vai para o espaço. E os músculos são justamente nossos maiores torradores de energia e gordura corporal.

    O endocrinologista Pedro Assed, do Rio de Janeiro, concorda que é válido colocar essas questões em pauta. Afinal, desidratar ou ver a musculatura minguar não é nada desejável, apesar de o peso parecer adequado. “Nesses casos, é necessário um plano para reverter a situação. E ele envolve ajustes na dieta e em outros hábitos, como o tempo de sono e jejum“, descreve o médico.

    Então, o problema não estaria na low carb em si, mas no fato de ela ser realizada sem acompanhamento. Segundo o nutrólogo e neurologista Rafael Higashi, diretor da clínica Higashi, no Rio de Janeiro, caso o profissional não tenha aparelhos para verificar a taxa de gordura do paciente – como o de bioimpedância -, pode medir braço, panturrilha e força muscular. “Se houver perda em 30 dias, há algo errado”, avisa.

    De qualquer forma, em termos de perda de peso, não é pra esperar milagres. Há evidências de que tanto faz investir na low carb ou em uma dieta baseada na redução de gorduras ou de calorias. “Uma das premissas para o emagrecimento é gastar mais do que consumir”, resume a nutricionista Ana Beatriz Barrella, da RG Nutri, na capital paulista. Ao revisar vários estudos publicados de 2005 a 2016 sobre todas essas estratégias, pesquisadores da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, concluíram que a perda de peso advinda da low carb seria insignificativamente maior – coisa de 1 a 2 quilos.

    Os cientistas salientaram ainda que só é possível garantir a segurança do método por seis meses, já que a maioria das experiências é de curto prazo. Fora isso, informam que, nos trabalhos, não dá para identificar a qualidade das fontes de proteínas e gorduras colocadas no prato.

    Portanto, é altamente contraindicado consultar o vizinho ou a internet na hora de montar o cardápio. Há quem interprete, por exemplo, que tudo bem comer, dia após dia, bacon, picanha, salsicha e frango com pele frito na banha de porco. Lembre-se: os impactos negativos vão além do peso.

    Ao carregar a mão na gordura animal, por exemplo, as consequências não são nada agradáveis. “Esse hábito pode chegar a dobrar o colesterol total, a triplicar o colesterol LDL e a reduzir pela metade o HDL“, alerta a nutricionista Nágila Damasceno, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP e membro da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Caso tenha se perdido nas siglas, a gente explica: enquanto o colesterol LDL deposita gordura nas artérias, o HDL a tira de circulação. Entendeu o enrosco?

    De acordo com a nutricionista clínica Isabella Vorccaro, da capital paulista, para minimizar qualquer ameaça, o ideal é privilegiar itens como azeite, abacate, coco, castanhas e sementes, ricos em gorduras insaturadas, reconhecidamente mais benéficas. “Eles geram saciedade e, ao mesmo tempo, ofertam vitaminas, minerais e fibras“, esclarece.

    Escrito nos hormônios

    Para os defensores da low carb, não é surpresa que outras estratégias – como simplesmente reduzir o tamanho das porções de comida – emagreçam na mesma magnitude. Mas a alegação para coibir o carboidrato não para por aí. “O consumo exagerado desse nutriente leva a uma superestimulação do pâncreas, com maior produção de insulina”, aponta Isabella.

    E o excesso desse hormônio é ligado a um maior risco de engordar e ficar diabético. Fora isso, o açúcar derivado do carboidrato contribuiria com processos inflamatórios, situação que patrocina muitas doenças.

    Que ter insulina aos montes na circulação não é bacana, ninguém discorda. Mas, para quem não é tão fã da low carb, outras questões merecem debate. Para começar, a produção do hormônio não é incitada apenas pela glicose derivada dos carboidratos.

    “Algumas proteínas e gorduras também estimulam esse processo”, explica a nutricionista Bruna Reis, do Conselho Regional de Nutricionistas – 3ª Região (CRN-3). Logo, ignorar o arroz do bufê e cair de boca na fraldinha não garantem folga ao pâncreas – a produção de insulina também será instigada.

    Nágila, da Socesp, frisa que o hormônio faz parte de um metabolismo saudável, já que abre as portas para glicose, proteínas e gorduras entrarem nos tecidos. “Essa história só se torna perigosa se comemos em excesso”, avisa a nutricionista.

    Nesse contexto, o pâncreas produz tanta insulina que, para se proteger, os tecidos se fecham. Ocorre, assim, um aumento do hormônio circulante e uma maior resistência à sua ação. E, se a insulina não atua direito, de fato sobra açúcar no sangue, um estopim para encrencas. “Mas isso se dá mais pelo abuso do todo”, reitera Nágila.

    Lancha Jr. também defende que é maldade colocar a oscilação de insulina só nas costas dos carboidratos. “Vamos supor que 90% de sua dieta venha de pão. Só que você consumirá tudo isso com um caminhão de alface. Pronto: o índice glicêmico já é compensado, assim como a liberação de insulina”, raciocina. O exemplo é surreal, claro, mas ilustra como o pico de açúcar no sangue depende bastante do que agregamos à refeição.

    Tem outro ponto: o que conta pra valer são quantidade e tipos de carboidratos escolhidos. Todos os especialistas concordam que exageramos em alimentos que fazem a glicose e a insulina dispararem – arroz e massas refinadas, sobremesas e refrigerantes são exemplos. Só que, em vez de ir para o extremo (a low carb), o pulo do gato seria maneirar e substituir esses itens por versões boas do nutriente, como arroz e massas integrais, grãos, cereais e frutas.

    É que elas são lotadas de fibras, substâncias que freiam a subida da glicose no sangue. “Isso, por si só, já altera o padrão de produção da insulina”, reforça o biólogo e nutricionista Geraldo Thedei, da Universidade de Uberaba (MG).

    Há mais argumentos favoráveis às trocas, e não ao corte radical. “Alguns estudos demonstram que a dieta restrita em carboidratos, especialmente nesses ricos em fibras, modificam a diversidade de bactérias no intestino, o que predisporia a problemas inflamatórios, como alergias e doenças autoimunes”, diz Bruna.

    Agora, para quem já recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2, a low carb pode até ser uma saída para domar a glicemia. O pesquisador Grant Brinkworth, da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, na Austrália, viu essa faceta da dieta de perto. Em experiência com 115 diabéticos, metade seguiu uma alimentação com baixo teor de carboidratos (14% das necessidades calóricas diárias), enquanto outra parte focou na redução de gorduras. “Embora os dois grupos tenham perdido peso de forma similar, quem aderiu à low carb conseguiu controlar melhor a doença”, revela Brinkworth.

    A nutricionista Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), confirma que alguns pacientes se beneficiam bastante do método – quando bem-feito e individualizado. Contudo, ressalta que tanto a SBD como as organizações internacionais que atuam com esse público priorizam um cenário de equilíbrio nutricional, em que há, sim, espaço para os carboidratos. “Evitar o terrorismo nutricional é essencial para a adesão ao tratamento”, defende.

    Caso você tenha chegado até aqui sem a certeza se a low carb é um bom investimento, tranquilo. No fim das contas, o melhor padrão alimentar é aquele factível de ser seguido. “E isso depende do perfil do paciente”, pondera Assed. O crucial é não embarcar em modismos sem a orientação de um profissional. Ele consegue avaliar, de forma global, se a dieta está valendo a pena. O primeiro erro é deixar isso só a critério da balança.

    Cetogênica é outra coisa

    Esse estilo de dieta é uma versão bem mais radical da low carb. Em geral, o consumo de carboidratos não passa de 10%. Já o de gordura chega a incríveis 90%. Nágila Damasceno avisa que tal cardápio só vale para situações muito específicas, como quadros de epilepsia que não respondem a remédios.

    Mas tem gente que anda recorrendo à dieta cetogênica para secar a barriga. Na visão de Geraldo Thedei, da Universidade de Uberaba (MG), é um verdadeiro disparate. “Há produção elevada de substâncias que mudam o pH do sangue. Isso traz riscos para o organismo”, alerta. Para completar, o menu é pobre em vitaminas, minerais, fibras… “Trata-se de uma deseducação alimentar”, crava Thedei.

    Tem que malhar

    Caso escute por aí que a low carb ajudou fulano a emagrecer 30, 40, 50 quilos sem atividade física, saiba: não há vantagem alguma nisso. “Exercício nunca é dispensável”, declara a nutricionista Isabella Vorccaro. “Inclusive, é um dos pilares da saúde”, acrescenta. Ocorre que, ao cortar os carboidratos, muita gente sente uma indisposição tremenda. Normal, pois o nutriente nos fornece energia. A solução, porém, não é parar de se mexer. Nem se entupir de cafeína. “Ela não produz energia. Só disfarça a fadiga”, aponta Gabriela Parise, nutricionista da RG Nutri. Fora que pegar pesado nos estimulantes pode acarretar danos depois.

    O QUE PODE COMER

    Os grupos alimentares abaixo dão uma ideia do que é o padrão low carb na prática

    Café

    Sem açúcar, tá? Chás e água com limão podem também.

    Laticínios

    Iogurte natural, ricota e cottage são opções.

    Azeite

    O óleo da azeitona tem gordura boa.

    Carnes

    De vaca, frango, peixe… Vale tudo.

    Cogumelos

    De todos os tipos, à vontade.

    Ovos

    Liberados em qualquer refeição.

    Tubérculos

    Batata-doce e inhame seriam os melhores.

    Frutas com baixo índice glicêmico

    Abacate, coco, morango e damasco fazem parte da lista.

    Leguminosas

    Grão-de-bico e lentilha, mas com muita moderação.

    Verduras e legumes

    Pode variar e investir sem medo.

    Oleaginosas

    Prove amêndoas, castanhas, nozes…

    O QUE É MELHOR EVITAR

    Os alimentos e grupos abaixo são contraindicados na dieta low carb

    Leite desnatado

    O ponto fraco é que não tem gordura.

    Doces

    Têm açúcar pra dar e vender.

    Massas

    Aposente macarrão, lasanha, nhoque…

    Industrializados

    Não são considerados comida de verdade.

    Milho

    Em qualquer receita, ele está vetado.

    Pães

    É o símbolo máximo do carboidrato, né?

    Sucos de frutas

    Tem que evitar os naturais e o néctar.

    Tapioca

    É bastante similar ao pão.

    Refrigerante

    Um verdadeiro poço de açúcar.

    Frutas com alto índice glicêmico

    Banana, melancia, manga, uva e abacaxi são exemplos.

    Arroz branco

    Nem o integral deve entrar no prato.

    Batata-inglesa

    Tem menos fibras que os outros tubérculos.

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  • Eliminar fontes de carboidratos – pães, massas e afins – da rotina está na moda. Discussões à parte sobre o efeito disso na perda de peso, um novo estudo dá motivos para grávidas ou mulheres que estão planejando engravidar não seguirem a tal dieta low carb.

    Segundo os pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill (EUA), esse padrão alimentar aumenta o risco de o feto apresentar defeitos no tubo neural, o que pode levar a incapacidades para o resto da vida e até mesmo à morte. No trabalho, foram analisadas 11 285 gestações ocorridas entre 1998 e 2011.

    “Nós já sabíamos que a dieta da mulher antes e durante a gravidez tem papel importante no desenvolvimento do feto. A novidade é a sugestão de que uma dieta com pouco carboidrato pode aumentar o risco de o bebê ter defeitos no tubo neural em 30%”, informou a pesquisadora Tania Desrosiers, ao site da instituição. “Isso é preocupante, especialmente porque as dietas low carb são populares”, acrescentou.

    Para a cientista, esses achados demonstram a importância de a mulher, ao engravidar, conversar com profissionais de saúde sobre qualquer dieta ou hábito alimentar.

    O tal do ácido fólico
    Trata-se do nutriente essencial para garantir o bom desenvolvimento do tubo neural. Nos Estados Unidos, desde 1998 os produtos à base de grãos são enriquecidos com o ácido fólico. No Brasil, não é diferente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também exige que as farinhas de trigo e milho sejam turbinadas com a substância.

    De olho nisso, fica fácil entender por que abolir massas, pães e companhia não é uma boa ideia durante a gravidez ou no momento que antecede a concepção do bebê. Aí você pode pensar: “mas basta tomar um suplemento!”.

    A questão é que, como muitas gestações não são planejadas, boa parte das mulheres só recorre a esses itens mais tarde, depois que o defeito no tubo neural já teria ocorrido. Daí a relevância dos alimentos enriquecidos com o ácido fólico.

    De acordo com Tania, autora da pesquisa, investigações futuras são necessárias para ver se essa relação é válida para outras populações e também para entender exatamente de que maneira o consumo de carboidratos se relaciona com prejuízos no tubo neural.

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  • foto-imagem-dieta-cinto

    No livro O Fim das Dietas, o professor da USP Antonio Herbert Lancha Jr. expõe erros comuns perpetrados por quem busca perder peso. Não cair neles faz parte da sua proposta para se livrar do excesso de gordura e do efeito sanfona. Confira essas grandes ciladas!

    Dieta tem que ser restritiva
    Parece até uma sentença: daqui para a frente você vai abolir o pão, a lasanha, o chocolate, a cerveja… Prepare-se para o mundo das calorias contadas, regado a água, filé de frango e folhas de alface. Claro que isso é uma caricatura, mas tenha em mente que o princípio por trás desse raciocínio norteia a maior parte dos regimes. Evidentemente, emagrecer depende de um acerto no balanço energético — o quanto se gasta e se repõe de calorias —, só que Lancha Jr. mostra por A mais B que dietas superrestritivas ou monótonas não sustentam a perda de peso. Além disso, defende que momentos de indulgência — as ilhas na travessia do emagrecimento — podem ser muito úteis. Acabar com o prazer oferecido por um tablete de chocolate ou por um chope no final de semana não raro é o que dá margem para o plano inteiro ruir.

    É preciso banir o carboidrato
    Nos últimos anos, o nutriente das massas e companhia levou muita pedrada das dietas da moda (inclusive a glúten-free). A ele atribuem a culpa pela engorda da civilização ocidental. Lancha Jr. não banca o advogado, mas explica por que a restrição extrema do ingrediente é uma furada que muitas vezes sabota a manutenção do peso perdido. Por ser fonte de energia mais imediata, o carboidrato é caro ao organismo — tanto que entre 50 e 70% das calorias da dieta deveriam vir dele. Quando se corta o nutriente, o sujeito até perde peso, só que manda embora líquido e massa magra. Para complicar, sem carboidrato o organismo perde eficiência em quebrar e se livrar da gordura acumulada. Aí não funciona. O autor postula que não temos de proibir um ou outro nutriente. Tudo cabe no prato se houver consciência e moderação.

    Tecnologia sempre ajuda
    O professor não propõe um regresso aos tempos dos nossos avós, quando nem se sonhava com internet no celular. No entanto, faz questão de ressaltar que a bem-vinda tecnologia pode estorvar a perda e a manutenção do peso. Talvez você argumente que hoje existe até aplicativo para ajudar a se exercitar ou controlar a ingestão calórica. E eles são aliados, sim. A questão é que a dependência das telinhas e telonas tira a atenção e o foco de questões cruciais ao emagrecimento. Lancha Jr. se refere aqui a algumas cenas clássicas dos dias de hoje: o indivíduo que almoça de olho no celular e nem contempla o que leva à boca, o amigo que vai para a cama com o telefone… O mundo digital facilita muito a vida, mas, sem se desligar um pouco dele, ninguém adere de verdade aos bons hábitos que resultam na perda de peso.

    Metas devem ser ousada
    Nem projeto verão, nem “perderei 30 quilos em dois meses”. Anos de pesquisas acadêmicas e experiências de consultório levaram o expert a preconizar um esquema consolidado de metas. Elas têm de ser específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes no dia a dia e baseadas em um tempo definido. Em uma palavra, têm de ser realistas. No livro, Lancha Jr. ajuda a estruturá-las sem deixar de lembrar que elas podem e devem mudar quando o contexto também muda. Ou seja, o que valia para os tempos de solteiro não necessariamente vale para os tempos de casado. Traçar essa agenda é essencial para perder peso de maneira sustentada. E é preciso ter flexibilidade para fazer ajustes de olho em novos objetivos. O livro é taxativo: dietas prontas têm começo, meio e fim. Uma rotina balanceada, não.

    Dá para pular os exercícios
    Lancha Jr. revela que se cansou de ouvir a pergunta “é possível emagrecer sem se exercitar?”. Como ele conta no livro, existe gente que consegue se safar dos quilos extras só com mudanças no cardápio. O duro é manter-se magro e ganhar saúde quando a atividade física não faz parte do cotidiano. O corpo humano foi feito para se movimentar. Quando o sedentarismo impera, nosso módulo “poupar energia” é ativado com tudo, cenário perfeito para a gordura se acumular, de preferência na barriga. Ao adotar um esquema regular de exercícios — que nem precisa ser feito em uma academia, diga-se —, o organismo pisa no acelerador do gasto calórico, inclusive no repouso do pós-treino. Aos poucos e com planejamento, a gente pega gosto pela coisa e define novos limites, inclusive para espantar o efeito platô.

    Pode confiar na balança
    Na última parte de O Fim das Dietas, o autor foca nas melhores formas de monitorar o emagrecimento, as conquistas e as derrapadas. E, nesse sentido, trate de aposentar a balança. Ela até pode acusar vitórias (ou pequenas derrotas), mas não é o método mais respaldado para medir o progresso. A começar pelo fato de não distinguir a massa gorda da magra — é a mesma falha, aliás, do cálculo do índice de massa corporal, o IMC. Sem contar que flutuações de peso normais após um fim de semana, por exemplo, podem gerar angústia a ponto de balançar a continuidade do plano de ação. De olho nisso, Lancha Jr. prefere recorrer ao número da roupa ou à fita métrica. Eles marcam a evolução de maneira mais fidedigna. Só não vale, é óbvio, transformar as medidas numa bitolação contraproducente.

    Experimentar o fim das dietas não engorda

    Separamos cinco trechos do livro para você degustar a proposta de Lancha Jr. E começar a encarar i processo de emagrecimento de um jeito diferente

    Não acredito em dietas
    “Eu não acredito em dietas, pelo menos não na forma como a gente as conhece hoje. E não estou falando apenas de regimes malucos, que defendem o consumo de um único tipo de alimento ou proíbem a ingestão de determinado nutriente sob pretextos que simplesmente não batem com as evidências científicas. Sim, essas fórmulas mágicas são especialmente perigosas, inclusive para a missão de emagrecer e manter-se magro, como verá mais adiante. Mas isso não quer dizer que ter em mãos a dieta mais balanceada do mundo do ponto de vista nutricional e um programa de exercícios intensos vai fazer você conquistar a forma física que deseja. Aliás, provavelmente não vai. Faço questão de trazer um pouco da minha trajetória e experiência profissional para explicar os porquês.”

    Pare de culpar a genética
    “Pare de culpar a genética (ou o universo). Uma das piores consequências de enfiar a saúde goela abaixo da população, isto é, de impor um padrão considerado ideal a todo mundo, é a de que cada um de nós passa a atribuir a responsabilidade pelo próprio bem-estar ao médico, ao hospital, à família, ao governo… menos a si mesmo. Seguindo esse raciocínio, é normal uma pessoa achar que está gordinha porque três letras — o D, o N e o A, ou seja, o DNA — não a deixam emagrecer e ponto final. No entanto, a epidemia de obesidade, que vem se espalhando pelo mundo independentemente de cor, raça, credo ou classe social, não permite atribuir os quilos a mais da humanidade apenas a fatores genéticos individuais. Pelo menos não na vasta maioria dos casos.”

    Apreensão dispara fome
    “É comum confundir fome com ansiedade. Até porque ambas são interpretadas de um jeito parecido na cabeça. Existe uma região no cérebro chamada hipotálamo, onde ocorre o controle da ingestão de alimentos. Lá, certas substâncias abrem o apetite, enquanto outras promovem a saciedade. Acontece que essa área da massa cinzenta integra o sistema límbico, responsável por armazenar experiências atreladas ao prazer e por processar as nossas emoções. Em outras palavras, um estado de apreensão dispara mensagens nesse centro cerebral que, até pela proximidade, podem ser percebidas como fome no hipotálamo. Está aí uma das razões pelas quais a ansiedade é um gatilho para a alimentação compulsiva. Se, diante disso, não optamos por fazer uma intervenção, é natural que a barriga cresça.”

    Livre-se da culpa
    “Julgar um comportamento qualquer é tão perigoso que tem quem esvazie travessas enormes ‘porque há pessoas morrendo de fome’. Parte desse raciocínio é uma herança dos imigrantes que, durante as guerras do passado, conviveram com a escassez de alimentos e, assim, não toleravam o desperdício dentro de casa. O mau aproveitamento da comida merece ser atacado nas mais diversas instâncias. Mas não é estufando o próprio estômago que alguém vai solucionar a fome mundial (ou nem sequer nutrir uma pessoa além dela mesma). Se deseja combater a miséria, trace metas factíveis e coloque os planos em ação. Quanto ao seu prato, se não dá para reduzir a porção, guarde o excesso para depois ou o ofereça a um terceiro, se for possível. Acima de tudo, livre-se da culpa que prejudica sua busca por qualidade de vida.”

    Não existem atalhos
    “Ninguém engorda 2 quilos em um fim de semana. Ganhar 2 quilos de gordura significa acumular 18 mil calorias além do que você gasta. Vou dar um exemplo: 18 mil calorias equivalem a 3 quilos de chocolate. Por mais que eu adore essa guloseima, é um desafio comer tanto assim em tão pouco tempo. E considere que você acrescentaria esses 3 quilos às refeições que faz normalmente. Na contramão, ninguém emagrece 2 quilos em um fim de semana. Para ter ideia, um homem com 90 quilos gasta 900 calorias a cada 10 quilômetros percorridos. Isso quer dizer que ele teria de cumprir essa tarefa 20 vezes para atingir a meta até o domingo! Grandes ganhos ou perdas de peso no curto prazo vêm eminentemente de acúmulo ou eliminação de massa magra. O emagrecimento verdadeiro é lento. Não existem atalhos.”

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