• Nós, mulheres, tendemos a encarar as cólicas como um dos desconfortos típicos da menstruação. Entretanto, essas velhas conhecidas muitas vezes são o principal sintoma da endometriose. “Mesmo quem as tem regularmente procura pouco o médico por não estar ciente da importância delas”, aponta o ginecologista Maurício Abrão, presidente da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva, a SBE.

    Por ser silenciosa e facilmente confundida com outras moléstias, a doença, que financia problemas que vão de fortes dores até a infertilidade, ainda é ignorada por grande parte do público feminino. Uma pesquisa nacional encomendada pela SBE em parceria com a farmacêutica Bayer mostrou que 55% das moças a desconhecem. Esse número é preocupante, principalmente se levada em consideração outra estatística: a de que o mal afeta uma em cada dez brasileiras. “A mulher com endometriose tem menos qualidade de vida, já que a dor a incapacita para realizar as tarefas cotidianas”, alerta o ginecologista Thomas Moscovitz, da SalomãoZoppi Diagnósticos, em São Paulo.

    Os medicamentos geralmente prescritos para combater o distúrbio, caso de anticoncepcionais e hormônios masculinos, não foram originalmente desenvolvidos para tratá-lo. Agora, chega ao mercado o dienogeste, novo remédio que simula a ação da progesterona, hormônio feminino que, entre outras coisas, coordena o ciclo menstrual. Ele promete atuar diretamente sobre o endométrio, o tecido uterino responsável por desencadear a enfermidade, e é o primeiro fármaco a ser recomendado especialmente para a endometriose. “Os testes comprovaram que a substância inibiu a ação do estrogênio, molécula que estimula o crescimento do tecido uterino”, conta Abrão. “Além disso, o comprimido pode ser usado por um longo período com poucos efeitos colaterais”, completa o especialista.

    A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou a venda do dienogeste. Os médicos agora esperam observar no consultório os efeitos propagados da droga. “Só poderemos atestar pra valer a eficácia dessa nova progesterona após avaliar os resultados nas pacientes”, pondera o ginecologista Eduardo Schor, da Universidade Federal de São Paulo, na capital paulista. É uma esperança na luta contra essa misteriosa vilã, que será destrinchada a seguir.

    O que é endometriose?

    Durante o ciclo menstrual, o endométrio, composto de células e glândulas que respondem ao comando dos hormônios, é estimulado a ponto de crescer. Depois, se não recebe nenhum óvulo fecundado, descama. O caminho para aniquilar esse tecido inutilizado é o sangue, ou seja, a menstruação. No entanto, nem todo o líquido vermelho que transporta essas células é eliminado – parte dele volta no sentido contrário ao da vagina e se aloja onde não deveria. “A teoria mais aceita para justificar a endometriose é que essas células que seriam despejadas ainda estão com vida e formariam as lesões”, expõe o ginecologista Julio Cesar Rosa e Silva, professor da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, no interior paulista.

    Entretanto, a menstruação retrógrada, como é chamado esse processo, não explica tudo, já que a maioria das mulheres apresenta essa espécie de refluxo sem nenhuma complicação. Somente o organismo que sofre com a doença é que não dá conta de absorver as sobras do endométrio. E é aí que reside uma das principais dificuldades: estabelecer as causas do problema. “Acreditamos que essa falha seja causada por uma mistura de componentes genéticos e uma alteração do sistema de defesa da mulher, que não absorve esses resquícios”, discorre a ginecologista Rosa Maria Neme, diretora do Centro de Endometriose São Paulo. Outro possível facilitador é o estilo de vida. Atualmente, a mulher demora mais para engravidar. Isso faz com que o estrogênio aja por tempo prolongado, aumentando o risco de a chateação aparecer. “Outros fatores, como estresse e má alimentação, também têm algum envolvimento”, completa Rosa.

    Os pequenos focos de endométrio fora de lugar se instalam em locais ao redor de toda a região pélvica. Daí começam os transtornos. “O principal deles é a cólica intensa, que, com o avançar dos anos, piora e surge até fora do período menstrual”, aponta Moscovitz. Trata-se de um mal-estar daqueles: de dores que se assemelham ao desconforto provocado por gases, passando por dificuldades para urinar, intestino preso ou solto demais e irregularidades na menstruação. “Geralmente, ela fica mais curta e pode ocorrer até duas ou três vezes ao mês”, diz a ginecologista Flávia Fairbanks, de São Paulo. Sentir dor ao longo e depois da relação sexual também é um sinal importante. A infertilidade, porém, é a mais grave das consequências – cerca de 40% das mulheres que não conseguem engravidar têm endometriose. Felizmente, é possível reverter esse quadro com o tratamento hormonal.

    A questão é: descobrir a existência do mal não é tarefa das mais simples. Um estudo recente realizado pela Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo, revelou que a média de tempo de investigação é de sete anos, e, entre as mais jovens, esse período sobe para 12. Em média, as mulheres recebem o diagnóstico do distúrbio aos 32 anos de idade. “A partir da primeira menstruação, o médico precisa ficar atento às reclamações de cólicas fortes”, orienta Abrão. A certeza de que é endometriose, no entanto, só vem mesmo com a cirurgia, quando é possível observar os focos rebeldes, por assim dizer, do endométrio. Mas uma batelada de exames de sangue e de imagem pode evitar a operação e acelerar o início do tratamento.

    Após o diagnóstico, chega o momento de domar a endometriose. Como em quase tudo que envolve o sistema reprodutor feminino, os hormônios exercem um papel fundamental na maioria das opções terapêuticas. Não à toa, um dos principais alvos dos tratamentos é o estrogênio. Até pouco tempo atrás, usavam-se substâncias que imitavam a ação dos hormônios masculinos e, consequentemente, reduziam a ação do estrogênio no endométrio. “Mas, por causa dos efeitos colaterais, como o crescimento de pelos e a voz que se tornava mais grave, esse tipo de medicação foi sendo deixado de lado”, observa o ginecologista Renato Ferrari, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    A tática mais utilizada hoje é a prescrição de anticoncepcionais à base de progesterona, uma espécie de antagonista do estrogênio. Ele entra em cena na fase do ciclo menstrual em que o endométrio já cresceu o suficiente, sinalizando que está na hora do tecido descamar. Em mulheres com endometriose, ingerir doses de progesterona não apenas impede a ação do seu rival como também atrofia os focos do endométrio que foram parar fora do útero. É como se a substância formasse um escudo que impede o estrogênio de alimentar o revestimento uterino.

    Câncer à espreita
    Em abril, a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, divulgou um trabalho relacionando a endometriose a tumores no ovário. Os estudiosos analisaram 20 mil mulheres e concluíram que o risco de três tipos de câncer nessas glândulas era mais alto em quem já tinha problemas com o endométrio. “Esse elo está sendo levantado há alguns anos, mas o estudo inglês deu robustez à discussão”, analisa o ginecologista Maurício Abrão, presidente da SBE.

    A influência dos hábitos saudáveis
    Algumas mudanças no dia a dia contribuem para afastar o risco da endometriose, como diminuir os níveis de estresse e aumentar o consumo de ômega-3, gordura do bem presente em alimentos como a chia, o salmão e o óleo de linhaça. Em quem já está às voltas com o distúrbio, além de uma alimentação balanceada, a atividade física pode ser uma aliada pelo fato de liberar no cérebro substâncias que aliviam a dor.

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