• No entanto, especialistas indicam que o perfil do consumo está cada vez mais semelhante ao de países desenvolvidos, onde 80% do sal consumido no dia a dia tem origem na comida processada.

    Cerca de 76% de todo o sódio diário disponível para consumo na dieta do brasileiro tem origem no sal de cozinha e temperos a base de sal. Já a comida industrializada representa 15,8% dos 4,5 g consumidos em média pelos brasileiros todos os dias, valor mais do que duas vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Mesmo na região Centro-Oeste, onde foi encontrado menor índice de sódio disponível, o nível é 70% maior do que o aconselhado. Os dados são de estudo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, com base na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2002-2003.

    No entanto, especialistas apontam possível reversão desse quadro. Eles indicam que o perfil do consumo dessa substância no Brasil está cada vez mais semelhante ao de países desenvolvidos, onde 80% do sal consumido no dia a dia tem origem na comida industrializada.

    O médico Flávio Sarno, doutorando pela FSP, afirma que, com o aumento da renda média do brasileiro nos últimos anos e o maior número de refeições feitas fora de casa, a tendência é de que a comida industrializada seja cada vez mais responsável pelo consumo excessivo de sódio no País, principal causador da hipertensão e doenças cardiovasculares.

    A pesquisa de 2003 já mostrava que o a contribuição dos alimentos industrializados com adição de sal na dieta aumenta duas vezes e meia entre a população mais pobre e aquela de maior renda, saltando de 9,7% do total do consumo entre a primeira para 25%. Único estudo realizado no Brasil em nível nacional, o exame não computava as refeições feitas fora de casa e pode ter subestimado a ingestão de sódio.

    Cruzando dados dos produtores de sal e o número de habitantes do planeta, o professor Joel Heimann, da Faculdade de Medicina (FM) da USP, encontrou outro importante indicador. No início do século 20, quando não havia geladeira e os alimentos ainda eram salgados, eram produzidos 6,1 g diários de sal por pessoa. No final do século, esse número saltou para 62 g por pessoa por dia. Ainda que nem toda a produção seja destinada ao consumo humano, pesquisa da Universidade de Londres mostrou que aproximadamente 40% do lucro dos produtores de sal vêm da indústria alimentícia.

    Para Heimann, a maior fonte de sódio na alimentação do brasileiro já é a comida industrializada, seja a comprada em restaurantes ou em supermercados, mas o País carece de estudos representativos na área.

    Sal x sódio

    Mais recente alvo de regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o sódio é encontrado principalmente no sal, mas também está presente como conservante alimentar na comida industrializada e mesmo em doces e refrigerantes.

    O sódio é o elemento responsável pela elevação da pressão arterial e pode ser encontrado nos rótulos de produtos associado a nomes como glutamato, sacarina, ciclamato, caseinato, citrato e propinato.

    Para converter a quantidade de sódio encontrada no rótulo de algum produto em sal, basta multiplicá-la por 2,54. Uma porção de 27,5 g de Frango à Americana da marca Maggi, por exemplo, contém 1.550 mg de sódio. Multiplicando esse valor por 2,54, encontra-se a medida equivalente em sal: 3,9 g. Isso representa 65% do recomendado para consumo no dia todo, que é de 2 g de sódio ou 5 g de sal.

    Apesar de sua importância, 93,3% dos hipertensos não sabem diferenciar o sal de cozinha do sódio, segundo pesquisa do Instituto Dante Pazzanese, e 74% não se preocupam em ler o rótulo dos alimentos para verificar a quantidade da substância por porção.

    A Anvisa alerta que não são saudáveis para consumo alimentos que contenham mais do que 400 mg de sódio para cada 100 g do produto e recomenda que o consumidor adquira o hábito de ler o rótulo dos alimentos. “Se você for a uma gôndola de supermercado, há produtos semelhantes com quantidades de sódio muito diferentes”, explica o cardiologista Carlos Alberto Machado, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

    Doenças
    O consumo excessivo de sódio está diretamente relacionado à hipertensão arterial, que afeta cerca de 30% dos brasileiros, e das doenças cardiovasculares, como infarto, angina e insuficiência cardíaca, além de problemas renais.

    Em 2007, a doença renal terminal, consequência frequente da hipertensão, provocou a inclusão de 94,2 mil pessoas no programa de diálise do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo que cerca de 9,5 mil morreram.

    Atualmente, as doenças cardiovasculares são responsáveis por 30% do total de mortes no mundo, mais do que a soma dos óbitos provocados por câncer e causas externas. Entre os dez principais fatores de risco que mais matam, a hipertensão aparece em primeiro lugar, acima do tabagismo, da obesidade e do sedentarismo.

    Segundo Machado, da SBC, se o consumo de sódio caísse para 5 g por dia, haveria redução de 10% da taxa de pressão arterial média do brasileiro, 15% do número de óbitos por acidente vascular cerebral (AVC) e 10% das mortes por infarto. Cerca de 1,5 milhão de brasileiros ficariam livres dos remédios para hipertensão e a expectativa de vida dos hipertensos aumentaria em quatro anos.

    Mesmo uma redução modesta, de 1 g de sal por dia, teria impacto significativo nas taxas anuais de doenças cardiovasculares. Segundo a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, haveria até 40 mil casos a menos de doenças coronárias, diminuição de até 35 mil infartos e 23 mil AVCs.

    Custo-benefício
    Apenas em novembro de 2009, foram registradas 91,97 mil internações por doença cardiovascular no Sistema Único de Saúde (SUS), o que custou R$ 165.461.644,33, de acordo com dados da 6ª Diretriz Brasileira de Hipertensão.

    O governo gasta R$ 969.231.436 por ano para tratar hipertensão no SUS, o que se soma aos R$ 662.646.950 gastos no Sistema Suplementar de Saúde, que é composto pelos planos privados. Em 2005, estima-se que o custo total do tratamento da doença tenha representado 0,08% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

    No Canadá, pesquisadores avaliaram que uma redução de 4,6 g diários de sal baixariam em 30% o número de hipertensos no país, levando a uma economia de cerca de US$ 430 milhões por ano, que são gastos em medicamentos, visitas médicas e testes de laboratório.

    Outro estudo, conduzido em 21 países em desenvolvimento em 2007, mostrou que a redução de 15% do consumo de sal durante 10 anos – entre 2006 e 2015 – poderia evitar 8,5 milhões de mortes por doenças cardiovasculares e custaria, por ano, apenas US$ 0,09 por pessoa.

    “Em 2050, teremos em torno de 100 milhões de pessoas com mais de 50 anos no Brasil”, diz Machado. “Se não fizermos a prevenção agora, teremos idosos doentes e sem um sistema de saúde adequado.”

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