• Quando a noite chega, surge um desconforto nas pernas que parece inexplicável. Não dá pra dizer se é dor, aflição, arrepio, sensação de peso, mas que algo está errado, está. Na hora de dormir, quem se encontra na outra metade da cama sofre com a movimentação constante da pessoa ao seu lado e pode até tomar um chute na canela sem querer. Aparentemente trivial, o transtorno descrito aqui tem nome: síndrome das pernas inquietas, ou SPI. E não afeta pouca gente. “A prevalência na população chega a 15%. Mas é um distúrbio ainda desconhecido e cujo diagnóstico não é tão simples”, expõe o neurologista Fernando Morgadinho, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Agora, além do desconforto e da privação de sono, a SPI vem sendo associada a um maior risco de problemas cardiovasculares, como infartos e derrames.

    Esse elo inusitado foi sugerido no ano passado, quando pesquisadores ao redor do mundo publicaram dados mostrando a prevalência de hipertensos entre portadores da síndrome. Um deles veio da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Ao avaliar questionários e medir a pressão arterial de 65 mil mulheres com a mesma faixa etária e sem outros problemas de saúde, os especialistas verificaram que 33% das voluntárias com pernas inquietas tinham pressão alta. Já entre o grupo sem a chateação, essa incidência caía para 21%.

    Outra pesquisa que ajuda a comprovar a ligação vem da também americana Clínica Mayo. Dessa vez, 584 pessoas diagnosticadas com a SPI submeteram-se a um exame de imagem que avaliava o estado cardíaco. Os resultados mostraram o seguinte: quem chutava mais vezes durante o sono possuía um risco maior de ser acometido pela chamada hipertrofia ventricular esquerda, quando uma parte do coração aumenta de espessura, dificultando o bombeamento do sangue. Aliás, disfunção típica de quem sofre com a pressão nas alturas.

    Ainda não se sabe muito bem por que tudo isso ocorre, mas as principais suspeitas recaem sobre um descompasso que a SPI promove no sistema nervoso simpático, responsável por regular a pressão e os batimentos cardíacos. “A síndrome se manifesta quando o indivíduo está propenso a relaxar, naquele estado de transição da vigília para o sono”, explica o neurologista Raimundo Nonato, professor da Universidade de Brasília, na capital federal. “Com os movimentos, há uma descarga de adrenalina que altera o sistema simpático, elevando a pressão durante o período noturno.” Esses picos contribuem para que a hipertensão arterial se instale de vez — de noite, de dia, toda hora. “No entanto, precisamos de mais pesquisas para confirmar essa relação. Não sabemos se os dois problemas estão associados ou se essas pessoas já apresentavam risco cardiovascular”, pondera Nonato, com cautela.

    Se já sabemos como a SPI pode influenciar o sistema nervoso e até o coração, falta indagar: que fator estaria por trás dela? “A SPI é fruto de um problema na ação da dopamina, neurotransmissor envolvido nos movimentos do corpo”, esclarece o neurologista Gustavo Guimarães Protti, do Hospital Santa Isabel, em São Paulo. “Por algum motivo, a capacidade de inibir a movimentação fica diminuída. Com isso, o indivíduo precisa se mexer constantemente”, completa Protti.

    Os deflagradores desse defeito variam. Quando a síndrome aparece em crianças e jovens, a causa é genética, mas, se a doença surge na fase adulta, na maioria dos casos a culpa incide sobre o ferro — sim, o mesmo mineral que, em falta, prejudica o transporte de oxigênio no sangue. “O nutriente é necessário para a produção da dopamina e sua carência colabora para que os níveis desse neurotransmissor caiam, fazendo a pessoa perder o controle motor e sobre algumas sensações”, explica Nonato. Daí vêm à tona dores, incômodos e os chutes na calada da noite. “A principal razão para tratarmos o indivíduo não é o desconforto nas pernas em si, mas a má qualidade do sono, que provoca cansaço intenso durante o dia”, diz Protti.

    Identificar a síndrome não é tarefa das mais fáceis. “Muitas vezes, ela é confundida com outros distúrbios que também podem ser percebidos durante a polissonografia, exame que avalia o descanso noturno”, diz Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Labor tório do Sono do Instituto do Coração, em São Paulo. Para complicar, além da polissonografia, não existem testes que apontem a SPI e o diagnóstico é feito inteiramente pelo médico, baseado num conceito adotado por todos que une quatro sintomaschave. O primeiro deles é a já descrita sensação incômoda na perna. O segundo diz respeito ao fato de a pessoa melhorar somente quando se movimenta. Por acontecer nos momentos de repouso, sentado ou deitado, configura o terceiro sinal. Por fim, a síndrome só se manifesta entre o começo da noite e o meio da madrugada.

    Há alguns grupos específicos que devem ficar bem mais atentos a essa encrenca. Anêmicos, por exemplo, já que a deficiência de ferro está presente nos dois chabus, além de doentes renais crônicos. Nesse caso, os colapsos nos rins prejudicam a absorção do mineral no organismo. Sobra até para as gestantes e mulheres com transtornos que afetem o ciclo menstrual — aliás, a ala feminina sofre mais de SPI.

    Após a detecção, o médico avalia a necessidade de remédios como a levodopa, que auxilia a dopamina a cumprir seu papel. Mas o tratamento depende muito da origem do mexe-remexe. Eis o porquê de uma análise completa. “Às vezes, só a suplementação de ferro é eficaz”, conta Protti. Outras atitudes também ajudam a boicotar os chutes noturnos (veja o slideshow abaixo). Uma vez controlada, a síndrome deixa de atormentar as noites — e, como agora se sabe, o coração do sujeito.

    Parkinson e SPI
    Ambos aparecem quando a dopamina — neurotransmissor responsável pelos movimentos dos membros — não consegue cumprir bem seu papel. A diferença entre os dois é que, no Parkinson, os neurônios que produzem a molécula vão se destruindo, enquanto na síndrome das pernas inquietas são os receptores dela que não funcionam lá muito bem.

    Medicar ou não?
    Os especialistas são quase unânimes ao dizer que o indivíduo que sofre com as pernas inquietas deve tomar medicamentos controlados. Mas a decisão deve levar em conta uma série de fatores, que vão da idade ao grau do incômodo.

    Vale a pena esclarecer: balançar as pernas sem parar enquanto se está sentado não tem relação nenhuma com o distúrbio do sono.

    Sono menos agitado
    Confira no slideshow abaixo as táticas que amenizam o remelexo nas pernas

    Posted by @ 17:50

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