• É como achar que só o sinal verde já resolveria o engarrafamento: a gente tende a pensar que o desconforto provocado pelo mau funcionamento do intestino é passageiro e pontual. Não é bem assim. A Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), juntamente com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Danone, conduziu um estudo que avaliou a saúde intestinal de 3 500 mulheres. E, entre os problemas mais comuns relatados, figura a constipação, que se caracteriza pela baixa frequência de evacuação, dor abdominal e fezes ressecadas. “O normal é ir ao banheiro entre três vezes por dia e três na semana”, dá um parâmetro o coloproctologista Antônio Lacerda Filho, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

    Se não é o caso de se preocupar além da conta quando o intestino não funciona todo santo dia, também não vale se juntar aos 45% das participantes do estudo – elas acham que a constipação não é doença e se resolve sozinha. “As consequências vão desde perda de concentração até alterações de humor”, garante o gastroenterologista Flávio Quilici, professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no interior de São Paulo. “Quando não é tratada direito, a prisão de ventre pode levar ao empedramento das fezes, incontinência anal e infecção urinária”, completa Lacerda Filho. Outro consenso médico é que a síndrome do intestino preguiçoso tem preferência pelas mais jovens. “Isso porque os altos níveis de hormônios femininos, como o estrogênio e a progesterona, lentificam a atividade intestinal”, justifica a ginecologista Rosa Maria Neme, diretora do Centro de Endometriose São Paulo.

    De qualquer modo, o alerta vale para homens e mulheres: assim que o problema for percebido, deve ser acompanhado por um especialista. Até porque a tendência é piorar com a idade, quando os músculos intestinais perdem a força necessária para impulsionar as fezes. Para facilitar o trânsito ali, apele para as recomendações do novo guia de prevenção e tratamento de constipação, da Fundação Espanhola do Aparelho Digestivo, listadas nas próximas páginas.

    A luz amarela do diagnóstico Uma consulta de rotina pode ser o primeiro passo para acender o alerta de que algo não vai bem com o intestino. Quando o médico perguntar sobre a frequência com a qual você vai ao banheiro, o tipo de sensação na hora de evacuar e a aparência das fezes, dê respostas claras e objetivas. Caso seja necessário, ele poderá solicitar alguns testes complementares – uma simples coleta de sangue ou até uma colonoscopia.

    Para destravar o intestino
    Atitudes que comprovadamente amenizam os sintomas da constipação

    Estabeleça uma rotina É possível ensinar o organismo a funcionar na hora certa. Basta designar um horário para ir ao banheiro e tentar segui-lo todos os dias. “Para criar uma memória intestinal, reserve pelo menos 15 minutos para ficar lá depois de cada café da manhã”, aconselha o gastroenterologista Vladimir Schraibman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

    Respeite sua vontade A urgência de ir ao banheiro pode aparecer a qualquer momento, especialmente se o corpo não é treinado com a estratégia acima. Então, obedeça seu corpo. “Quando adiamos essa tarefa, as fezes ficam duras e secas, dificultando a evacuação”, explica Flávio Quilici.

    Monte um prato balanceado Comece o dia com um iogurte – probiótico – e na hora do almoço invista em uma salada temperada com limão. Adicione um filé de carne grelhada ao azeite, por exemplo, e evite refeições ricas em gordura e açúcares, que tornam mais lenta a atividade do intestino. Jante antes das 8 da noite para evitar o estacionamento do bolo fecal, já que o órgão trabalha de forma mais lenta na madrugada. “Ameixa, mamão e manga contribuem para o bom fluxo digestivo”, lembra ainda a nutricionista Ingrid Bigotto, da OligoFlora Franchising.

    Corte o cigarro O guia espanhol de prevenção da prisão de ventre diz que, diferentemente do que se pensa, o fumo deixa o trato digestivo mais lerdo. “O uso crônico da nicotina faz com que, aos poucos, a dificuldade de evacuação aumente”, diz Schraibman. O assunto ainda é controverso, mas, na dúvida, apague o cigarro da rotina – até porque a saúde em geral só tem a ganhar com isso.

    Beba mais água Eis outro motivo para ingerir muito líquido – só não vale abusar das bebidas gasosas, que favorecem o refluxo. A água, combinada com alimentos fibrosos, forma um bolo fecal mais macio e homogêneo. “A recomendação gira em torno de 30 mililitros por quilo de peso”, avisa o nutrólogo Celso Cukier, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. Para não errar, aposte nos propalados 2 litros. “Deixe sempre uma garrafa ao alcance das mãos”, sugere Ingrid Bigotto. Lembre que alguns alimentos já contam com um teor altíssimo de água, caso da melancia e da abobrinha.

    Acerte as contas com a balança Os quilos a mais retardam todo o processo digestivo, criando obstáculos para as visitas ao reservado. “Estudos preliminares têm mostrado uma relação entre a manutenção do peso ideal e o bom funcionamento do intestino, mas ainda não sabemos exatamente como isso acontece”, conta a nutricionista Fernanda Pisciolaro, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

    Pratique mais atividades físicas O exercício estimula os movimentos intestinais, melhorando a frequência das idas ao toalete. “Além disso, o esforço físico obriga a pessoa a ingerir mais líquidos, sendo, dessa maneira, duplamente benéfico para quem sofre com o mal do intestino preguiçoso”, explica o cirurgião gastrointestinal Marco Antônio Bassi, do Hospital Samaritano de São Paulo. Claro que, sozinha, a atividade não faz milagres. Combine-a com uma boa alimentação e outros hábitos saudáveis.

    Regule as doses de medicamentos O desequilíbrio químico pode estar por trás da lerdeza intestinal. “Remédios, sobretudo os de tarja preta, a exemplo dos antidepressivos, favorecem a prisão de ventre”, explica Schraibman. Exagerar nos antiácidos, anti-inflamatórios, sedativos, analgésicos e relaxantes musculares também pode causar complicações semelhantes. Converse com seu médico e não se esqueça de listar todas as medicações que geralmente toma. Quando combinadas, elas muitas vezes agravam o quadro.

    Adicione mais fibras ao cardápio A ingestão dessas substâncias é fundamental contra a constipação. “A recomendação diária é de até 35 gramas por dia, o equivalente a seis porções de frutas e vegetais”, explica o nutrólogo Celso Cukier. Mas atenção: as fibras perdem água durante o processo digestivo. Isso endurece o bolo fecal e favorece a prisão de ventre. Para evitar esse gol contra, não se esqueça dos copos d’água, inclusive no almoço. O líquido se junta às fibras e forma um gel no intestino, criando uma mistura encorpada e macia – ou seja, fácil de ser eliminada.

    Aposte na semente de psílio Ela é tão procurada por quem sofre com o intestino preguiçoso que merece um destaque especial. “Seu principal ativo são as fibras, que, mais uma vez, contribuem para a formação de grandes volumes de fezes amolecidas”, explica Cukier. É um laxante natural e não agride as bactérias benéficas que moram no órgão. Na presença de água, essas fibras agem feito esponjas e captam resíduos. Coma 2 colheres de sopa da semente por dia, acompanhadas de um copo de água. Se preferir, salpique-as sobre folhas ou salada de frutas. Mas sempre combine com líquidos.

    Consuma probióticos Eles são famosos por conterem bactérias positivas para o corpo. “Esse conjunto de organismos vivos normaliza a flora intestinal e aumenta a absorção de água dentro do intestino grosso, o que leva a um aumento do bolo fecal”, explica o cirurgião do aparelho digestivo Marcelo Rodrigues Borba, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Hoje já é possível encontrar probióticos em iogurtes, leites fermentados e até sachês.

    Use remédio, mas só com receita Em casos mais graves, o médico prescreve medicamentos específicos para fazer o trânsito vagaroso transcorrer com mais naturalidade no intestino. “As doses são utilizadas para incentivar os estímulos fisiológicos do órgão”, conta o coloproctologista Antônio Lacerda Filho. “Já as lavagens intestinais são feitas como última opção, quando há a formação de fecaloma, o empedramento das fezes”, completa. O procedimento geralmente é realizado em pessoas mais velhas.

    Cuidado com laxantes Automedicação pode gerar encrenca. Alguns produtos encontrados em farmácias irritam a mucosa interna do intestino. Não consuma sem falar com um especialista. Sem contar que existem alimentos com efeito laxativo natural. “Vegetais folhosos, farelo de trigo, arroz integral e casca de maçã são boas opções para quem quer aliviar o problema”, sugere Rodrigues Borba. Azeitonas e cebola dão gosto especial aos pratos e ainda ajudam no combate da prisão de ventre.

    Fontes fibrosas
    A lista não é pequena. Basta escolher opções como as dos exemplos abaixo e distribuí-las ao longo do dia. Aqui, a quantidade de fibras equivale à porção de 100 gramas

    Farelo de trigo 43 g
    Aveia 9,1 g
    Quinua 6 g
    Granola 6 g
    Couve 3,1 g
    Agrião 2,1 g
    Maçã 1,3 g
    Laranja 0,8 g

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