• A obesidade aumentou substancialmente nos últimos 30 anos, gerando diversas hipóteses sobre o fenômeno mundial. Talvez uma das mais criativas que já ouvi é a de que a obesidade seria transmitida por uma forma de contágio social. Estariam os seus amigos te deixando gordinho? Por incrível que pareça, a resposta parece ser positiva.

    A ideia de redes sociais influenciando no comportamento humano vem de um colega meu na Universidade da Califórnia em San Diego, James Fowler, e de seu colaborador de Harvard, Nicholas Christakis. Juntos, desenvolveram uma série de pesquisas sobre o assunto e publicaram os resultados no livro “Connected”, que recomendo com veemência.

    Os resultados mostram que, se uma pessoa fica obesa, as pessoas relacionadas com ela aumentam significativamente as chances de também ficarem obesas. Surpreendentemente, o maior efeito não é entre pessoas da mesma família ou que vivem na mesma casa, mas entre amigos. Não aquele conhecido, ou colega superficial, mas aquele que tem um significado real para você.

    Se seu melhor amigo torna-se obeso, suas chances de também ficar obeso nos próximos dois anos aumentam em 57%. Caso aquela pessoa também o considere como um melhor amigo, a probabilidade salta para 171%. Entre irmãos, a chance de um ficar obeso caso o outro engorde é de 40%, e entre casais, de 35%. Pessoas do mesmo sexo têm mais influência sobre a outra do que pessoas do sexo oposto.

    Os resultados saíram de um banco de dados de outra pesquisa, sobre as chances de doenças cardíacas, com dados acumulados durante 32 anos e que envolveu 12.067 adultos. Os autores conseguiram mapear as conexões sociais desses indivíduos, elaborando a base para o estudo da obesidade. Desse mesmo banco de dados, puderam concluir que a diminuição do tabagismo não foi responsável pela epidemia de obesidade nos Estados Unidos.

    As causas dessa observação também foram investigadas. Uma das razões excluídas foi a de que nos pareamos com pessoas fisicamente parecidas, com peso semelhante. Efeitos contextuais, como geografia, presença de uma academia ou McDonald’s na esquina também foram eliminados. O impacto das redes foi independente de a pessoa morar no mesmo continente ou na mesma vizinhança. O efeito parece ser mesmo causal e não apenas consequência do ambiente.

    A explicação parece estar no inconsciente do que denominamos “obeso”. De alguma forma, o cérebro interpreta a norma de saúde baseando-se naqueles com quem interagimos. Essa interpretação influencia no quanto comemos, nos exercitamos ou mesmo o que consideramos estar fora do peso ideal. Isso mostra que as redes sociais parecem muito mais fortes do que imaginamos, superando até mesmo a ação da mídia.

    Fowler tem confirmado seus achados usando ferramentas online de redes sociais como o Facebook. Ele usa as fotos dos usuários para estimar o índice de gordura da pessoa e os amigos para montar e analisar a rede. Até agora, os dados estão aparentemente confirmados em diversas partes do mundo, dando suporte à influência social no controle do peso.

    As implicações dessas conclusões são profundas. Os efeitos da rede são observados mais nitidamente nos três primeiros níveis de separação (no amigo do amigo do amigo). Decisões de saúde devem, portanto, considerar esse tipo de dinâmica. Assim, quando ajudamos uma pessoa a perder peso, estamos na realidade ajudando outras ao mesmo tempo. Perder peso em um grupo de amigos também parece ser mais eficiente do que tentar sozinho. O mesmo vale para parar de fumar, começar a prática de exercícios etc. Outra implicação é que não só a obesidade é contagiosa socialmente, mas também a magreza.

    Mas tudo em biologia é mais complexo do que se imagina. Uma nota aos leitores que sairiam correndo para cortar a intimidade com os amigos gordinhos: cada amigo que você tem, independente do peso, contribui para transformá-lo em uma pessoa mais feliz e viver mais tempo. Mais vale ajudar o seu amigo a perder peso do que perdê-lo de vez.

    Fonte G1

    Posted by @ 01:27

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