• De tempos em tempos, surgem textos duvidosos no WhatsApp que acusam alimentos ou hábitos considerados saudáveis de causarem grandes malefícios. A vítima da vez foi a água. Ou melhor, a água gelada. Uma mensagem que está circulando pelas redes sociais afirma que ela pode provocar infarto, câncer, gordura no fígado e outros males no estômago e no intestino grosso.

    Veja o conteúdo da corrente:

    “Dica da Manhã

    E eu aqui achando que água gelada só afetava a garganta…

    A ÁGUA GELADA FAZ MAL PARA VOCÊ.

    No passado, dizia-se que: se a água gelada não lhe afetar na juventude, vai afetar na velhice

    A água gelada fecha 4 veias do coração e causa ataque cardíaco;

    Bebidas geladas são a principal causa de ataques cardíacos.

    A água gelada cria problemas no fígado; prende a gordura ao fígado. Muitas das pessoas que aguardam por um transplante de fígado, são vítimas da água gelada.

    A água gelada afeta as paredes internas do estômago.

    A água gelada afeta o estômago e o intestino grosso, causando câncer.

    Por favor não guarde isto para você. Repasse para ajudar outras pessoas.

    Dr Dráusio Varella – Medicina ortomolecular.”

    Antes de destrinchar o teor do conteúdo em si, repare na assinatura da suposta fonte. Esse nome lembra alguém famoso?

    Pois é. Acontece que Drauzio Varella é oncologista – não um médico ortomolecular – e seu nome se escreve com Z. Esse ponto, por si só, já levantaria suspeitas.

    Mas a verdade é que o texto está cheio de furos. Sim, é outra notícia falsa – e das grandes, aliás.

    Para destrinchar os enganos dessa mensagem, SAÚDE conversou com Abrão Cury, cardiologista do Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, e com a gastroenterologista Elaine Moreira, do Instituto Endovitta, também na capital paulista.

    Água gelada dá dor de garganta?

    Como um aperitivo, vamos partir para a alegação de que bebidas resfriadas abalam a garganta. Isso é, no máximo, uma meia verdade.

    Se a garganta está inflamada devido à ação de um vírus ou bactéria, a água gelada pode agravar a situação. Porém, ela em si não é o motivo do incômodo.

    Ela faz mal para o coração?

    Segundo a corrente, a água gelada fecha veias do coração. Mais do que isso, ela e outras bebidas frias seriam a principal causa de ataques cardíacos.

    Ocorre que o infarto é deflagrado pelo entupimento das artérias, impedindo que o sangue chegue ao músculo mais importante do corpo. Ou seja, esse problema grave nada tem a ver com veias, e sim artérias.

    E onde o líquido da vida entraria nessa história? Em lugar nenhum, pelo visto. “A água gelada não provoca infarto, nem entope os vasos sanguíneos”, atesta Abrão Cury.

    De acordo com o cardiologista, essa história pode ser uma deturpação de casos graves de hipotermia, uma queda excessiva da temperatura do corpo inteiro. “Ela é gerada por um ambiente de frio intenso e não pela água gelada consumida”, complementa.

    Nessa situação extrema, os órgãos em geral vão parando de funcionar, o que pode levar à morte. Mas não há quaisquer relatos de caso mostrando casos severos de hipotermia entre quem tomou goles de um líquido qualquer que acabou de sair da geladeira. Você teria que estar nadando por um tempo em meio a um mar congelante para sentir esses efeitos – como nas cenas finais do filme Titanic.

    Entretanto, o médico do HCor explica que alguns poucos indivíduos sofrem com uma hipersensibilidade a líquidos gelados. “Quando você toma uma bebida dessas, ela estimula terminações nervosas que diminuem a frequência cardíaca. Isso, em condições normais, não cria problemas”, explica. “Mas, se a pessoa tiver hipersensibilidade, ocorre uma redução importante nos batimentos, o que gera mal-estar”, explica.

    Mas nada de criar pânico: essa é uma condição rara e diagnosticada por meio de avaliações médicas. Além disso, mal-estar não é sinônimo de infarto. Portanto, não faz sentido espalhar por aí que as bebidas frias são a principal causa dessa encrenca.

    Água gelada gera problemas no fígado, estômago e intestino grosso?

    O texto espalhado pelo WhatsApp garante que a água gelada afeta as paredes do estômago e o intestino grosso, chegando até a originar câncer por ali. “Não existem estudos que comprovem essas alegações”, aponta Elaine Moreira.

    A gastroenterologista do Instituto Endovitta, que também é membro da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), informa que, mesmo se você ingerir um líquido frio, ele vai sendo aquecido até chegar no estômago. No intestino então, a bebida já estará quentinha. Portanto, aquelas afirmações nem têm lógica.

    A corrente diz ainda que a água gelada “prende” a gordura no fígado, sendo uma grande razão das pessoas precisarem de transplante. Isso é um absurdo! Os líquidos que engolimos sequer passam por esse órgão durante a digestão.

    A tal da gordura no fígado – chamada de esteatose hepática pelos médicos – é consequência de consumo excessivo de álcool, sedentarismo, diabetes e obesidade. A água não tem qualquer relação com a história.

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  • Uma dúvida comum, ainda mais durante o Novembro Azul, é sobre qual médico deve fazer o toque retal para diagnosticar o câncer de próstata. Às vezes, vemos alguém falando que foi ao coloproctologista, fez o exame de toque e a próstata estava bem. Mas é preciso ficar claro que quem deve fazer essa avaliação visando um tumor maligno na glândula é o urologista.

    Porém, os médicos das duas especialidades podem realizar o toque no reto. O coloproctologista visa diagnosticar os problemas do reto e do ânus, como hemorroidas, fissuras, fístulas e também cânceres do reto e do canal anal. Já o urologista recorre ao método para, através da parede do reto, analisar o tamanho e a superfície da próstata.

    Ou seja, embora ambos façam o toque, cada um está buscando informações distintas. Inclusive, as posições de exame são diferentes.

    O câncer do urologista. E o do coloproctologista

    O tumor maligno da próstata é o segundo tipo mais comum em homens brasileiros, só perdendo para os da pele. Como a maior parte dos cânceres, o da próstata é melhor tratado no princípio. Quanto mais cedo iniciar o tratamento, maior a taxa de cura e menores os efeitos colaterais.

    A maioria dos cânceres da próstata é diagnosticada pelo rastreamento com o antígeno prostático específico (PSA) no sangue ou durante o exame de toque retal feito pelo urologista. Na fase inicial, essa doença não costuma dar sintomas.

    Por isso, o importante é fazer acompanhamento regular com o médico urologista, iniciando em torno de 50 anos, ou até mais cedo se o seu pai, avôs ou tios tiveram tumores malignos nessa glândula antes de 65 anos de idade.

    Lembre-se, no entanto, que o Novembro Azul alerta sobre a saúde do homem de uma forma total e que fazer um checkup da sua saúde é importante. Digo isso para agora propor um olhar para a coloproctologia.

    Nela, o câncer colorretal carrega uma incidência alta em todo o mundo. O que pode diminui-la? A adesão a uma vida saudável, com exercícios físicos regulares, bons hábitos alimentares e abolição do tabagismo.

    Junto a isso tem sido recomendado também o rastreamento para ambos os sexos, com a realização da colonoscopia pelo coloproctologista. O exame consiste na introdução de um tubo flexível acoplado a uma câmera para examinar o intestino por dentro. Caso seja encontrado algum pólipo (lesão benigna que pode dar origem ao câncer), ele é removido na hora, durante o procedimento.

    Recomenda-se iniciar o rastreamento do câncer colorretal para pessoas da população geral, com risco médio, aos 45 ou 50 anos. Aqueles com risco elevado, que tenham parentes com história de tumores do tubo digestivo ou que apresentem sintomas como sangramento ou alteração do hábito intestinal, devem iniciar antes.

    Lembre-se de realizar periodicamente seus exames de saúde. Nossa vida deve vir em primeiro lugar.

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  • Uma pesquisa feita por instituições brasileiras e americanas, em parceria com o Ministério da Saúde, constatou que 12% das mortes causadas pelo câncer de mama no Brasil poderiam ser evitadas caso as mulheres praticassem atividades físicas regularmente. Não é pouca coisa!

    Os cientistas começaram enumerando as vítimas desse tumor no nosso país entre 1990 a 2015. Depois, cruzaram esses números com os índices de sedentarismo do país e com outras pesquisas que mostram qual a probabilidade de uma pessoa que faz exercício ter câncer de mama, versus outra que é inativa.

    Daí veio a conclusão: se todas as brasileiras ao menos caminhassem meia hora por dia, cinco vezes na semana, uma a cada dez mortes por câncer de mama não teria ocorrido no país. Em 2015, por exemplo, isso representaria 2 075 vidas poupadas.

    Além disso, a análise concluiu que 6,5% dos óbitos por essa doença são atribuídos ao consumo de bebidas alcoólicas, ao sobrepeso e a uma dieta rica em açúcar. O impacto é menor do que o do sedentarismo, porém bastante significativo.

    “A adoção de um estilo de vida equilibrado evitaria 39% das mortes por doença crônica, que respondem por 76% dos falecimentos no Brasil, sendo a promoção da saúde uma política com baixo custo e com grande impacto populacional”, corrobora Fátima Marinho, diretora do Departamento de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde, do Ministério da Saúde, em nota.

    Como as atividades físicas ajudam a prevenir o câncer de mama

    No geral, realizar 150 minutos de exercícios por semana ajuda a turbinar a imunidade e amenizar a inflamação do organismo. E isso, por si só, já ajudaria a afastar essa encrenca.

    Entretanto, no estudo mencionado acima, os experts citam outras pesquisas que atribuem à atividade física um papel no controle da produção de hormônios femininos, também ligados ao tumor de mama.

    Ora, o estrogênio é capaz de estimular a multiplicação de células nas mamas. Se uma dessas é defeituosa, portanto, o excesso desse hormônio facilita sua replicação, dando início a um câncer no local.

    Uma vez que fazer academia, pedalar, jogar bola e por aí vai mantém a concentração de estrogênio em níveis mais adequados, o risco da doença cai. Além disso, uma vida ativa diminui a produção de leptina, outra substância liberada no corpo e que, em largas doses, tem sido associada ao câncer na pós-menopausa.

    Brasileiras precisam ficar em estado de alerta

    A edição de 2017 da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) mostra que 13,9% das mulheres das capitais brasileiras são completamente sedentárias no tempo de lazer. Fora isso, 51,3% se mexe menos do que deveria.

    Isso significa que mais da metade da população feminina do país não alcança o equivalente a pelo menos 150 minutos de exercícios moderados ou 75 minutos de atividades vigorosas por semana.

    De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o tumor de mama é o segundo mais comum no sexo feminino, ficando atrás apenas do de pele não-melanoma. Ele corresponde a cerca de 28% dos casos a cada ano. Até o fim de 2018, são esperados 59 700 novos episódios.

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  • Há duas novidades para enfrentar o câncer de rim no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso combinado dos remédios ipilimumabe e nivolumabe, da farmacêutica Bristol-Myers Squibb, e a medicação cabozantinibe, da Ipsen, para o tratamento de tumores renais metastáticos – quando já se espalharam para outros órgãos.

    “São boas opções para essa doença. Cabe lembrar que, no Brasil, cerca de 30% dos cânceres de rim são diagnosticados em fase avançada”, contextualiza o oncologista Andrey Soares, do Centro Paulista de Oncologia. Vamos conhecer mais essas armas modernas?

    Imunoterapia em dose dupla

    Comecemos pelo combo ipilimumabe e nivolumabe. Ambas as drogas já são usadas em outros tipos de tumor, separadamente ou mesmo em conjunto. Elas estimulam as nossas próprias células de defesa a atacarem o câncer. Esse tipo de estratégia é conhecido como imunoterapia e faz parte de uma verdadeira revolução recente na oncologia.

    No estudo que justificou a sua liberação, a união desses fármacos diminuiu a probabilidade de morte em 37% entre pacientes com tumor renal avançado que não haviam sido tratados anteriormente. Isso em comparação com pessoas que tomaram a droga sunitinibe, da Pfizer, considerada uma terapia padrão e que elevou o tratamento contra esse problema para outro patamar em 2005.

    “Além disso, os imunoterápicos oferecem uma melhora na qualidade de vida”, completa Soares. “O paradigma de tratamento que tínhamos há mais de uma década para a doença foi quebrado”, arremata.

    Cabe destacar que esses resultados foram observados em tumores renais avançados e mais agressivos. “Por meio de exames, nós separamos esse câncer basicamente em três categorias: risco baixo, intermediário ou alto. Essa combinação está indicada para as últimas duas”, esclarece Andrey.

    O ipilimumabe e o nivolumabe são administrados por meio de infusões intravenosas dentro do hospital. A ideia de empregá-los em conjunto é a de incitar nosso sistema imune contra a enfermidade por diferentes vias.

    Entre os efeitos colaterais, há a possibilidade de erupções na pele, coceira, cansaço, diarreia e dor de cabeça. Via de regra, sintomas bem mais tranquilos do que os experimentados com a químio.

    Uma terapia-alvo mais potente

    Já o cabozantinibe integra uma linha de tratamento batizada de terapia-alvo, que ataca pontos específicos do câncer responsáveis por seu desenvolvimento. Por mirar essas vias celulares, a estratégia agride menos o nosso corpo, em comparação com a quimioterapia tradicional. Se a terapia-alvo é um míssil teleguiado, a químio funciona como uma bomba.

    Acontece que o tal cabozantinibe parece ser mais potente do que outras armas similares frente ao câncer de rim metastático. Na pesquisa que garantiu sua aprovação, ele garantiu uma queda de 52% no risco de progressão da doença em pacientes avançados que não haviam sido tratados antes – de novo, quando comparado ao sunitinibe, que também é uma terapia-alvo.

    Só tenha em mente que frear o câncer não é sinônimo de menor probabilidade de morte. “Isso ainda está em investigação. Mas o maior controle da doença garante, no mínimo, uma melhor qualidade de vida”, avalia Soares.

    Ao contrário do combo ipilimumabe e nivolumabe, o cabozantinibe também foi aprovado para o que os médicos chamam de segunda linha de tratamento. Ou seja: para a pessoa com um tumor renal avançado que já experimentou outro remédio, sem sucesso.

    Outra diferença envolve a forma de uso. Como dissemos, a dupla de imunoterápicos é administrada diretamente nas veias. Já a nova terapia-alvo é um comprimido oral.

    Suas reações adversas incluem diarreia, fadiga, aumento da pressão, sangramentos… “Em geral, é uma toxicidade um pouco maior do que a observada na imunoterapia”, compara Andrey.

    Como o médico escolhe entre uma e outra?

    Vários critérios entram em cena na hora de escolher entre esses tratamentos – e tantos outros. Daí porque o principal recado é ouvir o médico e, acima de tudo, tirar todas as suas dúvidas antes de tomar uma decisão.

    De acordo com Andrey, de maneira muito geral os especialistas devem, ao menos por enquanto, preferir a combinação entre ipilimumabe e nivolumabe na luta contra o câncer de rim avançado. “Os estudos com ela são maiores e, portanto, mais confiáveis. Mas, de novo, todos os casos precisam ser avaliados individualmente”, reitera.

    Para puxar um exemplo genérico: pacientes com o tumor e uma doença autoimune grave (como o lúpus) talvez se beneficiem mais do cabozantinibe. Isso porque a imunoterapia pode agravar essa outra enfermidade.

    Já sujeitos com câncer renal metastático de baixo risco eventualmente podem recorrer ao sunitinibe, mais conhecido entre os profissionais de saúde.
    Outra questão importantíssima é o acesso. Medicamentos novos geralmente são mais caros e não estão disponíveis para uma parte considerável da população.

    Atraso no sistema público

    Você deve ter reparado que, nos estudos, as duas novas opções foram comparadas ao sunitinibe, um medicamento disponível no Brasil há mais de uma década nos hospitais privados. Acontece que nem esse fármaco está disponível na rede pública.

    No Sistema Único de Saúde (SUS), o brasileiro só tem à disposição o interferon, um agente significativamente menos eficaz, segundo Soares. Ainda de acordo com o médico, o sunitinibe – que já não é novo – dobrou o tempo de sobrevida em comparação com esses remédios.

    No momento, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) tem uma consulta pública aberta para incluir o sunitinibe e outra droga similar na rede pública. A orientação preliminar do órgão é, acredite, pela não incorporação. O relatório que justifica a decisão provisória alega falta de evidências sobre benefícios significativos e um custo considerável para o governo.

    Mas calma. Médicos, pacientes, familiares e quaisquer outras pessoas podem dar sua opinião acessando o site da Conitec e procurando pela consulta pública número 54, até o dia 29 de outubro. Lá, você também encontra outras informações sobre esse caso.

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  • Mais uma marca foi flagrada vendendo produtos de beleza sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dessa vez, todos os cosméticos para pele do site raizprodutos.com.br serão retirados do mercado.

    De acordo com a decisão desse órgão regulador, nem dá para saber qual a empresa por trás desses produtos. E, sem um registro junto à Anvisa, é impossível comprovar a segurança e a eficácia dos produtos.

    O site raizprodutos.com.br vendia manteiga corporal, máscaras faciais de argila rosa ou verde, repelentes, tônico facial, esfoliante de café e por aí vai. São cosméticos mais voltados para a saúde da pele.

    Com a decisão, esses itens deixarão de ser produzidos. Os que já estão no mercado devem ser inutilizados.

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  • Testes genéticos são exames que permitem identificar, por meio da análise do nosso DNA, um maior risco ou propensão a determinadas doenças. Em oncologia, os testes genéticos podem ser usados para diagnóstico de câncer hereditário ou do risco de desenvolver tumores. É importante esclarecer que todo câncer é resultado de alteração genética, isto é, o câncer é uma doença genética, porém, um percentual pequeno é hereditário.

    O câncer hereditário é causado por uma mutação genética que o paciente carrega no DNA de suas células. Essa mutação está presente em parte das células germinativas do pacientes, isso é nos gametas, e pode passar para seus descendentes. Isso quer dizer que os descentes que herdam a mutação estão em risco de desenvolver tumores. Há varias síndromes genéticas de câncer hereditário já descritas, incluindo as que afetam as mamas, os ovários, os intestinos, a pele, entre outros órgãos.

    Os aspectos clínicos mais comuns para se suspeitar de uma síndrome de câncer hereditário são: o diagnóstico em idade mais jovem do que a idade de aparecimento daquele tipo de tumor, vários tumores no mesmo indivíduo ou câncer em várias gerações da família. Para se confirmar a suspeita de um câncer hereditário, há necessidade do individuo ser submetido a um teste genético.

    Para algumas síndromes genéticas o resultado positivo de uma mutação patogênica em genes já conhecidos pode ajudar o médico a traçar medidas de prevenção para evitar o surgimento do câncer e também medidas de rastreamento diferenciadas da população em geral para diagnosticar o tumor nos estágios mais iniciais quando são mais passíveis de cura.

    Quem se beneficia na prática

    Dos anos 1990 para cá, tivemos avanços expressivos no conhecimento sobre genética desencadeados pelos avanços nas tecnologias de sequenciamento, o que hoje nos permite realizar exames genéticos com maior precisão e rapidez e menor custo. No entanto, a facilidade no acesso não significa que os testes genéticos devem ser solicitados para todas as pessoas. As indicações são baseadas em diretrizes nacionais e internacionais que são revisadas periodicamente.

    Assim, o médico, suspeitando de câncer hereditário, deve encaminhar o paciente para os médicos oncogeneticistas, que estão capacitados a estimar o risco de síndrome genética e solicitar os testes genéticos mais adequados.

    É importante destacar que esse tipo de teste envolve questões emocionais importantes, sendo crucial que o indivíduo tenha acesso ao aconselhamento genético pelo oncogeneticista. Esse profissional vai explicar o que é o teste, como ele é feito e quais suas limitações. Também vai abordar a grande possibilidade de não se detectar a causa genética, as consequências de um resultado positivo para uma mutação patogênica, o risco dos descendentes herdarem a mutação, as medidas preventivas e medidas de vigilância diferenciadas para diagnóstico precoce, entre outros aspectos. Em resumo, o oncogeneticista fornece um suporte geral para que as informações colhidas do quadro clínico e do exame genético a ser realizado sejam devidamente contextualizadas e dúvidas e expectativas sejam esclarecidas.

    Outro aspecto importante é que o teste genético pode ser feito em pessoas com câncer ou em pessoas sem câncer. O mais comum e de maior benefício para a família é realizar o teste no paciente com câncer e, no caso de ser positivo, recomendar avaliação da mutação identificada para os outros membros da família.

    Em geral, os testes genéticos conseguem identificar a causa genética (uma mutação patogênica) somente em uma pequena porcentagem dos casos. Portanto, a ausência de mutação patogênica nos genes investigados não significa que a pessoa não tenha um câncer hereditário e/ou risco aumentado para desenvolver tumores. É possível que existam mutações em outros genes não investigados no teste realizado ou em outros genes ainda não associados com a síndrome genética suspeita.

    Os ganhos para o paciente

    A realização bem indicada de um teste genético é capaz de trazer ganhos importantes em termos de prevenção, detecção e tratamento para algumas síndromes. A detecção de uma mutação patogênica nos genes BRCA1 e BRCA2, por exemplo, que são os genes mais importantes associados com a síndrome de câncer de mama e ovário hereditários, permite tomar condutas que reduzem significativamente o risco da doença, como rastreamento diferenciado e mais frequente por meio de exames de rotina, bem como intervenções preventivas (como a cirurgia de retirada das mamas e dos ovários). Todas as decisões, é claro, têm de ser discutidas entre médico e paciente.

    Ficou famoso, o caso da atriz americana Angelina Jolie, portadora de uma mutação no gene BRCA1. A atriz, com episódios de câncer na família característicos da síndrome, realizou um teste genético e obteve resultado positivo para a mutação em BRCA1, tomando a decisão de adotar medidas preventivas como cirurgias para extrair as mamas e os ovários, uma vez que a probabilidade de ter a doença nesses órgãos era alta. Com o procedimento, a atriz diminuiu o risco de câncer nesses órgãos a níveis menores que a população de mulheres sem mutações nos dois genes citados.

    Existem medicações aprovadas para pacientes com um tipo específico de câncer de ovário e que são portadores de mutação em BRCA1 ou BRCA2. A terapia é denominada anti-PARP e bloqueia um sistema de reparo de DNA existente nas células. Células do tumor de ovário de mulheres com mutação patogênica em um dos dois genes BRCA1 e BRCA2 apresentam maior sensibilidade ao tratamento com essa terapia, mostrando maior benefício para essas mulheres.

    É importante também comentar que, para várias outras síndromes de câncer hereditário, medidas de prevenção de diagnóstico precoce não estão bem estabelecidas e muitos esforços tem sido direcionados para ajudar nesse aspecto.

    Outros testes genéticos para escolher o tratamento do câncer

    O mapeamento das alterações genéticas em alguns tumores já são de grande utilidade clínica para ajudar na definição das melhores terapias. O sequenciamento massivo de tumores tem ajudado nas descobertas das suas alterações genéticas mais frequentes, auxiliando o mapeamento das vias gênicas que estão alteradas no tumor. Esses achados subsidiam o desenho de terapias para bloquear as vias alteradas e também a definição daquelas mutações que conferem sensibilidade ou resistência a essas terapias.

    Assim, testes genéticos em DNA tumoral já são realizados para vários tipos de tumor, por exemplo, casos específicos de câncer de pulmão, de ovário, de intestino, entre outros. Algumas terapias só devem ser prescritas para tumores que apresentam certas alterações genéticas.

    Estudos científicos

    Em nosso laboratório, estamos envolvidos em novas descobertas na área de genética e genômica e também na transferência para a clínica de testes genéticos e genômicos que apoiam o diagnóstico de síndromes genéticas e identificam alterações gênicas que guiam uma conduta terapêutica personalizada. Temos linhas de pesquisa dedicadas a síndromes hereditárias de tumores, visando caracterizar variantes genéticas na população brasileira nos genes já conhecidos, e também, linhas de pesquisa para desvendar outros genes, ainda não conhecidos, associados a elas. Dados da nossa população vindos das duas abordagens são particularmente importantes para contribuirmos com o conhecimento de variantes genéticas de risco ou benignas da população brasileira, que difere das populações mais conhecidas geneticamente, como a americana e europeia.

    Além disso, desenvolvemos pesquisas genômicas em tumores para descobrir as vias genicas que estão ativadas ou inativadas, contribuindo, assim, com a compreensão dos aspectos genéticos que subsidiam o aparecimento e a progressão do câncer.

    *Dra. Dirce Maria Carraro é chefe do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE) e responsável pelo Laboratório de Diagnóstico Genômico do A.C.Camargo Cancer Center.

    Pioneirismo

    O A.C.Camargo Cancer Center é pioneiro no estabelecimento de testes genéticos no diagnóstico de síndromes genéticas e para guiar tratamento. A transferência dos testes genético para a rotina clinica iniciou em 2010 e vem se aprimorando constantemente.

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  • As últimas pesquisas e aprovações de remédio reforçaram uma nova tendência na forma de enfrentar o câncer : é a imunoterapia. Antes restrita a poucos tumores, ela vem ganhando espaço, inclusive no Brasil. Confira novidades sobre o assunto para diferentes versões dessa doença:

    Estômago
    O câncer gástrico ganhou mais uma opção terapêutica: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou o uso do pembrolizumabe, do laboratório MSD, nos tumores que atingem esse órgão do sistema digestivo. O mesmo fármaco já estava aprovado contra a doença instalada na bexiga, nos pulmões e na pele (melanoma).

    “É mais uma arma que se soma ao nosso arsenal. Cada vez mais teremos notícias de novas aplicações dos imunoterápicos que já estão disponíveis no país”, prevê o oncologista Antonio Carlos Buzaid, da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo e do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

    Pele
    A família da imunoterapia possui um novo membro: os brasileiros já podem contar com o avelumabe na luta contra o carcinoma de células de Merkel metastático, um tipo raro e agressivo de câncer dermatológico. O novo princípio ativo foi criado a partir de uma aliança entre duas gigantes da indústria farmacêutica: a Merck e a Pfizer.

    “Até agora, não existia nenhum recurso padrão contra essa doença”, observa o oncologista Ricardo Blum, diretor da Merck no Brasil. Nos estudos, a medicação aumentou em mais de um ano a sobrevida de 70 a 90% dos indivíduos — a quimioterapia usada até agora só proporcionava nove meses extras nos melhores cenários.

    Pulmões
    Pesquisas apresentadas no recente congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) provam que juntar pembrolizumabe e químio é o melhor caminho para contra-atacar o câncer de pulmão em estágio avançado. A união das duas linhas terapêuticas foi capaz de reduzir em 51% o risco de morte. Esse esquema duplo já recebeu o aval para prescrição em terras brasileiras.

    Melanoma
    A conferência da Asco ainda trouxe dados animadores sobre esse tumor de pele, que costuma ser duro de tratar. Sujeitos que começaram a tomar o pembrolizumabe ou ipilimumabe (da Bristol Myers-Squibb) há quatro ou cinco anos continuam muito bem.

    “Um terço dos casos mais graves pode até ser curado”, diz Buzaid. E pensar que algumas décadas atrás essa enfermidade matava em questão de meses…

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  • Acompanhar a evolução do câncer em tempo real é apenas uma das vantagens da biópsia líquida. “O método nos permite atualizar a terapêutica periodicamente, já que sinaliza mutações tumorais relacionadas com a resposta ao tratamento”, diz o oncologista clínico Celso Abdon de Mello, do A.C.Camargo Cancer Center, centro de referência do método no país.

    Para realizar o exame, é preciso uma amostra de sangue do paciente. Entram em cena, então, tecnologia de ponta e o olhar de especialistas que analisam o material desprendido do tumor, presente na corrente sanguínea. “Pode ser a própria célula, o DNA livre ou ainda vesículas do tumor”, explica a farmacêutica bioquímica Ludmilla T. Domingos Chinen, pesquisadora no A.C.Camargo Cancer Center.

    A leitura de tais componentes traz informações sobre o perfil genético do tumor e flagra biomarcadores, proteínas específicas capazes de apontar ao expert qual o melhor tratamento e também apoiar na identificação de recidiva e metástase.

    No Brasil, a biópsia líquida é voltada ao monitoramento da doença, especialmente em tumores de pulmão. Já nos Estados Unidos, foi aprovada para acompanhamento em câncer de mama, colorretal e próstata. Mas a expectativa é que em breve seja uma arma no diagnóstico primário do câncer.

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  • Há quem diga que o fator de proteção solar (FPS) dos filtros só faz diferença na pele até chegar ao número 30. Ou seja, de pouco adiantaria comprar um creme com FPS 50 ou mesmo 100. Mas uma nova pesquisa, realizada pela Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, sugere justamente o contrário.

    O grupo observou que o FPS 100 pode ser mais eficiente do que os outros para barrar queimaduras. Para chegar à conclusão, os cientistas entregaram dois frascos de protetor para cerca de 200 voluntários, um com FPS 100 e outro com 50. Aí, pediram que os voluntários aplicassem um no lado esquerdo e outro no lado direito do corpo.

    No dia seguinte, os participantes visitaram um consultório médico para analisar o impacto recente provocado pela radiação solar, com uma escala que ia de 0 a 5, do menos ao mais grave. Nessa avaliação, notou-se que o lado besuntado com o protetor mais leve exibia danos duas vezes maiores do que o outro.

    Para ter ideia, os dermatologistas que examinaram os voluntários – e que não sabiam qual filtro havia sido colocado em qual lado do corpo –, notaram que 55% dos participantes tinham se queimado mais na área do FPS 50, enquanto apenas 5% ficaram com a pele bem vermelha na porção coberta pelo protetor mais potente.

    Proteção solar na prática

    O estudo não bota um ponto final na discussão. Aliás, os autores reforçam que o efeito observado em um dia não necessariamente significa que a proteção do FPS 100 seja mais efetiva a longo prazo.

    Hoje, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) recomenda usar FPS mínimo de 30. “Costumo indicar esse no inverno e o 50 no verão, mas noto na prática que os fatores de proteção mais alto preservam melhor a derme”, indica Murilo Drummond, dermatologista da SBD.

    O especialista ressalta ainda que o protetor com FPS 100 não será duas vezes mais competente do que o 50 – apesar de aquele primeiro dado do estudo sugerir isso. “A diferença não é tão grande. Mas estamos falando de prevenir um câncer, então, mesmo que o benefício seja pequeno, ainda assim vale a pena considerá-lo”, opina o médico.

    O fato é: não dá para dispensar o protetor e as outras medidas que resguardam contra a radiação solar. Chapéu, guarda-sol e roupas compridas ajudam bastante, assim como valorizar a sombra e não se expor por muito tempo entre 10 e 16 horas.

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  • Boa notícia para os cerca de 5 milhões de brasileiros com psoríase. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente mais dois remédios contra essa doença de pele crônica que promove descamações e lesões cutâneas.

    Comecemos pelo guselcumabe, da farmacêutica Janssen. Indicado para casos moderados a graves, ele é um medicamento biológico que bloqueia a interleucina 23, uma proteína inflamatória associada à doença e aos seus sintomas.

    Nos estudos que garantiram sua liberação, a droga garantiu uma redução de 90% dos sinais da psoríase após seis meses de aplicação. Isso de sete a cada dez pacientes tratados. E, em uma pesquisa mais recente, notou-se que 86% das pessoas mantiveram a melhora mesmo após um ano e meio.

    “Os resultados com esse tipo de remédio são muito positivos. E o melhor é que ganhamos mais uma opção para quando outros tratamentos falham”, opina o médico Caio Castro, coordenador da Campanha Nacional de Psoríase da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

    Tratamento à prova de falhas
    Além do guselcumabe, existem outros fármacos biológicos disponíveis por aqui – todos são injetáveis. O secuquinumabe (Novartis) e o ixequizumabe (da Eli Lilly, aprovado no finalzinho de 2017), por exemplo, focam em outra substância inflamatória atrelada à psoríase, a interleucina 17.

    Portanto, se uma medicação não traz o resultado esperado, o médico ainda pode recorrer a outras, com mecanismos de ação diferentes, mesmo nas situações mais graves. “Também podemos trocar de opção em virtude de efeitos colaterais indesejados”, completa Castro.

    Por exemplo: os remédios biológicos que focam na inibição da interleucina 17 causam um ligeiro aumento no risco de candidíase. Logo, pessoas com maior propensão a esse problema podem apostar em alternativas.

    “Até o momento, não há muitas pesquisas comparando a eficácia entre as drogas dessa nova geração, então a decisão será tomada por certos detalhes mesmo”, explica Castro. Entre eles, claro, também está o preço.

    Hoje, dificilmente uma dose do secuquinumabe, por exemplo, sairá por menos de 5 mil reais – após um período mais intenso de aplicações, a administração pode se tornar mensal. E os seguros de saúde ainda não são obrigados a cobrir esses custos, embora alguns arquem com eles. Atualmente, vários pacientes recorrem à Justiça para obter acesso a tais medicações.

    No caso do guselcumabe, os preços ainda serão definidos junto com a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

    De qualquer forma, o valor desses remédios modernos ajuda a explicar o fato de os médicos apostarem, para a psoríase mais leve, em cremes e fármacos tradicionais, como a ciclosporina. “Eles também funcionam bem nessas situações”, tranquiliza Castro.

    E o outro remédio?
    O segundo medicamento aprovado contra a psoríase se chama apremilaste, da farmacêutica Celgene. Ao contrário do guselcumabe, esse é um fármaco sintético, que poderá entrar em cena para pacientes que não responderam ou têm alguma contraindicação contra terapias como as mencionadas acima.

    O que é psoríase
    Trata-se de uma doença crônica inflamatória da pele, que afeta cerca de 1,5% da população brasileira. Lesões, descamações e coceira são bem comuns – a severidade do quadro é definida, por exemplo, pela extensão das feridas e pelo impacto na qualidade de vida.

    Alguns indivíduos desenvolvem artrite psoriática, uma inflamação nas juntas que pode levar à perda de movimentos e deformações. Os tratamentos biológicos, aliás, também podem ajudar a tratar e até mesmo prevenir essa encrenca.

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