• Só de olhar para a barriga não dá para desconfiar, mas ali dentro moram no mínimo 10 trilhões de micro-organismos. Uma população pra lá de numerosa – a título de comparação, em todo o planeta somos, atualmente, 7,3 bilhões de habitantes. A esse universo abrigado no aparelho digestivo deu-se inicialmente o nome de flora intestinal, devidamente rebatizada de microbiota.

    Assim como acontece em nossa sociedade, os bichinhos têm família, nome e sobrenome. E, mais importante de tudo, executam inúmeras funções dentro do corpo. “Nos últimos anos, o número de evidências sobre a influência da microbiota na saúde aumentou muito”, afirma Elisabeth Neumann, professora do Laboratório de Ecologia e Fisiologia de Micro-organismos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

    Essa influência, é bom que se diga, nem sempre é positiva. “O desbalanço nas populações bacterianas está associado a diversas doenças”, conta a nutricionista Adriane Antunes, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

    Uma equação bem simples denota essa quebra de equilíbrio: os micróbios potencialmente nocivos, que também habitam o intestino, se multiplicam a ponto de se sobrepor no jogo de influências sobre os bichinhos benfeitores. Uma das maneiras de evitar que isso aconteça ou reverter a situação é investir nos probióticos, bactérias reconhecidamente benéficas e que podem ser encontradas em iogurtes, leites fermentados, queijos, além de cápsulas e sachês.

    De acordo com Yasumi Osawa, farmacêutica da Yakult, empresa pioneira nas pesquisas sobre o tema, doses adequadas desses seres microscópicos ajudam a repovoar a microbiota, dessa vez com indivíduos de boa índole. Para mantê-los em forma e garantir sua colonização, também entram em cena os prebióticos, fibras que não conseguimos digerir. “Elas servem de alimento para os probióticos”, explica Yasumi.

    As relações e os banquetes travados dentro da barriga e seus reflexos no corpo vêm ganhando tanta importância que demandam um evento científico próprio, o Congresso Brasileiro de Pre, Pro e Simbióticos, o PreProSim. Realizado em junho, junto ao Ganepão, uma das conferências de nutrição mais relevantes do país, o evento não deixou dúvidas de que precisamos conhecer e valorizar o trabalho dessas bactérias. Abaixo, você vai ver como elas repercutem na imunidade, no coração e até na saúde mental.

    1. Baixa imunidade

    Está aí um efeito clássico dos probióticos: deixar nosso sistema de defesa mais afiado. Segundo Adriane, da Unicamp, a chegada das bactérias no intestino desperta as células de defesa, que, no susto, ainda não têm certeza se os bichinhos são mesmo aliados. “Esse mecanismo mantém o sistema imunológico ativo e mais apto a reagir frente a micro-organismos causadores de doenças”, explica a especialista.

    Há outras ações que contribuem para a blindagem contra agentes infecciosos. A farmacêutica Cristina Bogsan, professora da Universidade de São Paulo (USP), conta que as células de defesa que reconhecem o vírus da gripe passam a viver mais quando o indivíduo toma um probiótico presente em um leite fermentado, por exemplo – por tempo suficiente para passar o inverno numa boa.

    2. Problemas intestinais

    Considerando que 70% da microbiota fica na região do intestino, é natural que vejamos um impacto direto ali. “Atualmente, os probióticos e os simbióticos fazem parte do tratamento da constipação”, exemplifica o médico Dan Waitzberg, professor da USP e presidente do Ganepão.

    Há bactérias, como a Bifidobacterium animalis, presentes em determinados iogurtes, que incitam os movimentos peristálticos. São eles que fazem as fezes caminharem adiante. “O bolo fecal é transportado, mas não se liquefaz. É por isso que não há diarreia”, tranquiliza Cristina. Por falar nisso, Waitzberg lembra que os probióticos também são úteis frente ao popular intestino solto. Estudos apontam que certas bactérias reduzem o tempo de diarreia bem como as visitas ao banheiro.

    3. Obesidade

    Faz tempo que os cientistas sabem que a microbiota de um indivíduo obeso é diferente da de alguém com peso saudável. E um micro-organismo que marca presença em pessoas esbeltas tem animado a turma da pesquisa, a Akkermansia muciniphila. Durante palestra no PreProSim, a nutricionista Priscila Sala, do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, contou que a bactéria diminuiu de 40 a 50% o ganho de massa corporal entre cobaias.

    “Em experimentos, seu efeito foi preservado mesmo quando ela foi aquecida a 70 °C”, diz. Um grande diferencial, pois os alimentos com probióticos hoje são refrigerados para garantir a sobrevivência das bactérias. Enquanto a Akkermansia não chega ao mercado, invista em frutas vermelhas, cebola, chocolate e castanhas, que criam condições para o bichinho prosperar.

    4. Doenças bucais

    Aqui, dá para contar com duas formas de atuação. Uma é indireta: quando os probióticos chegam ao intestino, minimizam inflamações, o que melhora o estado de gengiva e adjacências. Mas a cavidade oral tem sua própria microbiota. Daí por que algumas bactérias têm impacto direto (e local) em encrencas como cárie e periodontite.

    Em estudos, o dentista Michel Messora, na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP, notou que associar o tratamento-padrão da periodontite a suplementos de probióticos melhorou a resposta dos pacientes à intervenção. “Além disso, caiu o risco de retorno da doença”, destaca Messora. Para prevenir o problema capaz de derrubar os dentes, ele diz que dá para apostar em iogurtes e leites fermentados – desde que tenham baixo teor de açúcar.

    5. Colesterol e pressão

    Nesses assuntos que afligem o coração, os achados são incipientes, porém empolgantes. A farmacêutica Elisabeth, da UFMG, revela que algumas linhagens dos gêneros Lactobacillus e Bifidobacterium seriam capazes de assimilar o colesterol no intestino. “Isso reduziria os níveis disponíveis para a absorção pelo corpo”, ensina. Mas ela diz que são necessários mais estudos para confirmar esse desfecho.

    Outros testes demonstram que certas bactérias têm a habilidade de induzir a produção de substâncias que regulam a pressão arterial, outro fator de risco ao coração. “Mas não podemos sonhar em resolver um problema dessa magnitude só com o uso desses micro-organismos”, ressalta Elisabeth. “Nenhum pre ou probiótico deve ser encarado como substituto da medicação”, enfatiza Cristina, da USP.

    6. Chateações íntimas

    Candidíase e vaginose respondem por quase 90% dos incômodos mais comuns nas mulheres em idade reprodutiva. O pior é que tendem a ser recorrentes. “E os antibióticos e antifúngicos andam menos eficazes”, observa José Maria Soares Junior, vice-chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    Um jeito de driblar essa resistência é botar os probióticos em jogo. “Ao ingeri-los por meio de suplementos, dá para mudar a flora intestinal e, assim, colonizar beneficamente a vagina”, descreve o médico. Daí os micro-organismos prejudiciais não acham brecha para se proliferar. Segundo Soares Junior, os alimentos probióticos até auxiliariam na prevenção. “Mas não adianta fumar, ser sedentária e descuidar do resto da dieta. Tudo isso afeta a microbiota”, alerta o ginecologista.

    7. Irritações de pele

    Ter um intestino regulado – com a forcinha dos probióticos – também deixa a cútis mais viçosa. “É que as toxinas que interferem na barreira hídrica da pele, por exemplo, acabam eliminadas”, informa Yasumi, da Yakult. Com isso, há menos espaço para rugas, pele seca… Mas as bactérias do bem têm outros trunfos na área dermatológica. Existem cepas, já disponíveis em sachês para serem tomados, que combatem a dermatite atópica.

    Os probióticos, nesse caso, ajudam a conter o processo inflamatório que leva a lesões na pele. Nessa mesma linha, segundo novos estudos, algumas bactérias ainda bateriam de frente com a acne. Para tirar proveito desses efeitos, o conselho é manter uma ingestão de probióticos frequente. Caso contrário, a microbiota volta ao seu estado natural, programado lá no início da vida. Mas é provável que, em breve, tenhamos cremes com essas bactérias.

    8. Câncer

    Especula-se que prevenir a disbiose – ou seja, o domínio das bactérias ruins na flora intestinal – diminuiria o risco de tumores, particularmente os colorretais. “É que teríamos menos inflamação ali, o que, com os anos, pode predispor à doença”, conta a nutricionista Thaís Manfrinato Miola, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Nesse aspecto, uma dieta equilibrada contendo alimentos com probióticos seria bem-vinda.

    Hoje, na prática, também se vê a indicação das bactérias boas durante o tratamento do tumor. Ao indicá-las a pacientes cirúrgicos, o médico Antonio Carlos Ligocki Campos, da Universidade Federal do Paraná, viu menos complicações infecciosas, além de menor uso de antibióticos e tempo de internação. Segundo Thaís, a medida também se mostra útil para aplacar reações adversas da quimio e radioterapia.

    9. Estresse e ansiedade

    Ninguém duvida que existe uma conexão direta entre intestino e cérebro. Por isso, há uma tendência em ligar os probióticos a impactos no sistema nervoso. “Algumas bactérias produzem moléculas precursoras de serotonina e estimulam a liberação de gaba”, exemplifica Cristina, da USP. Complicou? “Trata-se de neurotransmissores associados ao controle da ansiedade e à sensação de felicidade”, traduz.

    Ela frisa, porém, que os estudos estão caminhando para confirmar tais efeitos. Ainda se debate o papel dos probióticos frente a Alzheimer, Parkinson e depressão, além de desordens que afetam outras áreas do organismo. “Há um universo ilimitado de possibilidades”, diz Elisabeth, da UFMG. Mas não espere para mimar seus hóspedes. Eles retribuirão deixando a casa – ou seja, seu corpo – em ordem.

    Quem é quem nessa comunidade microscópica

    Probióticos
    São as bactérias bacanas, que só agem quando ingeridas na dose certa. Cada tipo (ou cepa) tem uma função específica.

    Prebióticos
    É assim que se definem certas fibras que alimentam os probióticos. Estão na cebola, no alho, na banana verde etc.

    Simbióticos
    Essas formulações já apresentam, numa tacada só, os benditos probióticos e seus alimentos, os prebióticos.

    Posbióticos
    Trata-se de substâncias liberadas pelos probióticos que podem ser acrescidas a produtos a fim de gerar vantagens.

    Parabióticos
    São os probióticos inativos, ou seja, mortos. Mesmo assim, eles conseguem atuar positivamente no organismo.

    Quando as bactérias aparecem?

    Ao contrário do que já se imaginou, hoje sabemos que o bebê não vem ao mundo sem uma microbiota. Mas esse conjunto de micro-organismos passa a se formar pra valer no nascimento. Por isso os louros vão para o parto normal, que permite a transferência das bactérias da mãe para o filho.

    O aleitamento materno é outro fator bem-vindo, enquanto o abuso de antibióticos não deixa a vizinhança tão amigável. Levar esses pontos em conta é essencial, porque a microbiota que carregamos pelo resto da vida se estabelece até uns 3 anos.

    Vale a pena investir em versões manipuladas?

    Em palestra durante o PreProSim, o médico Dan Waitzberg, da USP, frisou que as fórmulas de manipulação ainda não são as melhores opções para tirar proveito dos micro-organismos probióticos. “Não dá para saber de onde eles vieram”, justifica. Fora que os bichinhos podem se transformar em condições fora de controle, o que alteraria seu comportamento dentro do corpo.

    Segundo o expert, a junção de bactérias também requer bastante cautela. Não é porque são bacanas individualmente que serão excelentes em parceria. “Fazer misturas sem conhecer bem o assunto é feitiçaria, não medicina”, declara Waitzberg. Os itens industrializados seriam escolhas mais apropriadas, porque há laudos garantindo sua segurança. Mas, claro, o médico deve conhecer as bactérias minuciosamente, já que cada tipo tem uma função específica.

    Onde encontrar os probióticos

    Atualmente

    Iogurtes: alguns deles contam com as bactérias boas – e possuem diversos sabores.

    Leite fermentado: o mercado já conta com versões para adultos e até com menos açúcar.

    Cápsulas: além de protegerem bem as bactérias, são superfáceis de transportar.

    Sachês: o nitrogênio mantém os bichinhos vivos. É só dissolver o pó na água ou ingerir direto.

    Futuramente

    Sorvetes: pode comemorar: a guloseima garantiria a viabilidade dos probióticos.

    Chocolates: estudos já mostraram que ele também é ótima morada para bactérias do bem.

    Sucos: a acidez torna um desafio ter probióticos neles. Mas é uma forte possibilidade.

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    Somando duas décadas de estudos sobre substâncias chamadas AGEs, o nefrologista Jaime Uribarri, da Faculdade de Medicina Icahn, em Monte Sinai, nos Estados Unidos, guarda motivos de sobra para não nutrir simpatia por tais moléculas. “Temos vários experimentos indicando que uma dieta rica em AGEs causa doenças”, justifica.

    Mas onde estão as inimigas? Bem, seu surgimento depende das técnicas culinárias que empregamos. Nesse sentido, fritar é uma furada. Em busca de mais evidências sobre esse tema, Uribarri dividiu 100 indivíduos obesos em dois grupos.

    Apenas um deles recebeu a orientação de fugir das altas temperaturas e, no lugar, cozinhar os alimentos na água ou no vapor, por exemplo. “Foram justamente essas pessoas que apresentaram melhoras em relação a indicadores de inflamação e estresse oxidativo. Também notamos que caiu a resistência à insulina, fator precursor do diabete”, conta o médico. É ou não é para rever o jeito de preparar as refeições?

    Um poço de AGEs

    De acordo com o pesquisador americano, a produção dessas moléculas é intensa em condições que usam o que ele define como “calor seco”. “Desculpe, isso inclui o churrasco brasileiro”, brinca o médico. Fazer a marinada com ervas, usar peças menores de carne e virar os bifes com frequência minimizam o surgimento das substâncias na grelha.

    Sem perigo e com sabor

    Você pode fazer um prato pobre em AGEs e gostoso usando sua imaginação como cozinheiro. “Nós sugerimos que as pessoas usem quantas especiarias desejarem”, diz Uribarri. Ele também recomenda marinar os alimentos no limão ou no vinagre antes de cozinhá-los.

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    Nada nem ninguém gerou tanto bafafá no último Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, recém-ocorrido na Costa do Sauípe, na Bahia, quanto a tireoide. A glândula localizada no pescoço e que regula o ritmo de funcionamento de todo o organismo foi o tema central de 12 mesas-redondas, conferências e aulas – a título de comparação, a obesidade, outra estrela do evento científico, esteve presente em 11 palestras. Dá pra entender o porquê: novos estudos estão mudando pra valer a maneira como os médicos (e os pacientes) devem encarar e remediar os descompassos tireoidianos.

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    A primeira grande notícia é a reclassificação de um tipo de câncer relativamente comum na glândula. Seu nome é complicado: variante folicular do carcinoma papilífero não invasivo encapsulado (ou EFVPTC, na sigla em inglês). Há seis meses, ele era considerado maligno e exigia um contra-ataque pesado, com cirurgia e boas doses de radiação.

    Pois um convênio de cientistas do mundo inteiro capitaneado pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, decidiu alterar radicalmente o caráter desse tumor. “Partimos da observação de que, na maioria dos casos, ele evoluía muito bem, sem sinal de proliferação, mesmo quando não se faziam intervenções”, relata o patologista Venancio Alves, da Universidade de São Paulo e do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP), único brasileiro a fazer parte da investigação.

    Por isso, a partir deste ano, o que era um câncer passa a ser visto como nódulo benigno, que não carece necessariamente de bisturi ou bombardeios de iodoterapia. “Alguns colegas dizem que este foi o primeiro recall da história da medicina”, brinca a endocrinologista Patrícia Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    Estima-se que o EFVPTC represente 20% do total de tumores de tireoide. A expectativa é que essa decisão reduza gastos com a saúde e o uso de tratamentos supérfluos, além de minimizar a ansiedade das pessoas diagnosticadas.

    A reclassificação é apenas um exemplo de uma série de transformações pelas quais a abordagem dos nódulos tireoidianos está passando. Todas as etapas de diagnóstico e tratamento são revistas atualmente e geram acalorados debates. Isso começou quando os experts perceberam que, nos últimos 25 anos, houve um aumento de três vezes no número de episódios, embora a taxa de mortalidade continuasse a mesma.

    A principal explicação para o fenômeno está na prescrição indiscriminada do ultrassom de pescoço, que vasculha a glândula à caça de tumores. A tecnologia progrediu tanto que essas máquinas são capazes hoje de apontar massas cada vez menores e indolentes.

    “Exames realizados com sujeitos de mais de 50 anos detectam lesões incidentais, sem grande significado para a saúde, em quase 60% das circunstâncias“, calcula o endocrinologista Hans Graf, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E 100% daqueles que alcançaram as oito décadas de vida apresentam um caroço na região. Ou seja: flagrar um nódulo com características perigosas é um tanto quanto mais raro.

    Portanto, não se recomenda fazer o ultrassom de rotina, como acontece com a mamografia na prevenção do câncer de mama após os 45 anos. “Esse teste só está indicado como checkup quando há histórico familiar da doença ou suspeitas na palpação do pescoço no consultório”, afirma Graf. Aliás, 7% das malformações são perceptíveis no exame clínico, em que o médico palpa o pescoço do paciente

    Se alguma bolota esquisita é encontrada no ultrassom, a próxima fase envolve determinar se ela é tranquila ou agressiva. Isso é possível por meio da biópsia, em que uma agulha fina é inserida na região da garganta e aspira um pedacinho defeituoso da glândula para análise em laboratório.

    E não é que esse procedimento também é alvo de reformas? A Associação Americana de Tireoide – que admite uma certa epidemia artificial do problema – atualizou suas diretrizes sobre o assunto e aconselha que nódulos com menos de 1 centímetro não sejam avaliados por uma punção. Isso vale até para aqueles que aparentam ser do mal: basta monitorar seu crescimento de tempos em tempos. Essa conduta, por enquanto, ainda não é a realidade nas clínicas e nos hospitais brasileiros.

    Nada de precipitações com o câncer

    Mas, ok, vamos supor que o médico pediu ultrassom e biópsia e os laudos mostram que se trata de um tumor maligno. Pois senta que lá vem novidade: há situações em que o melhor é nem intervir. Estudiosos do Hospital Kuma, no Japão, seguiram 340 pessoas com microcarcinoma papilífero – o câncer de tireoide mais prevalente – durante dez anos, sem recorrer a qualquer ação. Nesse período, 15% tiveram uma ampliação da massa cancerosa superior a 3 milímetros e apenas 3% sofreram metástase, ou seja, as células malignas se espalharam por outras áreas.

    A lição nipônica é que, na maior parte das vezes, o indivíduo morre com o nódulo, mas não em decorrência dele. Essa é a típica ocasião em que a terapia se torna mais prejudicial do que a enfermidade em si.

    Isso abre a perspectiva de se tomar alguma atitude só no momento em que existe uma ameaça à saúde. “O tema é bastante controverso e o nosso desafio está em selecionar os casos em que uma operação não é mesmo necessária”, raciocina o cirurgião de cabeça e pescoço Erivelto Volpi, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Que fique claro: uma estratégia dessas é válida somente se o tumor é pequeno, não está num local complicado nem tem capacidade de se dispersar pela circulação ou sistema linfático. Aliás, uma discussão similar vem ocorrendo com o câncer de próstata.

    A própria cirurgia, aliás, já não é a mesma. Os cortes ganharam precisão, e as cicatrizes estão quase imperceptíveis. Os riscos se mostram modestos e, mais importante, a palavra de ordem é preservar sempre que possível.

    “Hoje em dia, dá para retirar metade da glândula e conservar a porção saudável”, conta o médico Antonio Bertelli, do Hospital Samaritano de São Paulo. A parcela sadia consegue até produzir o T3 e o T4 normalmente, sem precisar de reposição hormonal por meio de comprimidos diários

    Cinco fatores influenciam a probabilidade de os tumores aparecerem

    Sexo: mulheres são mais propensas a desenvolver os carocinhos do que homens. A culpa é do estrogênio, hormônio feminino que estimula a proliferação desenfreada de células da tireoide.

    Idade: levantamentos comprovam que praticamente todas as pessoas com 80 anos têm massas tumorais na glândula. Na esmagadora maioria das vezes, isso não compromete o bem-estar delas.

    Genética: falhas no DNA predispõem a nódulos e tumores agressivos. Já está disponível um teste genético que antevê a doença e permite remover a glândula antes de o mal se instalar.

    Agressões: as versões autoimunes de hipotireoidismo e hipertireoidismo são marcadas por ataques das células de defesa ao tecido tireoidiano. Em longo prazo, isso também promove o surgimento de nódulos.

    Escassez de iodo: ele é o ingrediente básico da receita de T3 e T4. Se está em falta, tudo entra em parafuso. No Brasil, a carência é incomum, uma vez que o sal de cozinha é suplementado com esse mineral.

    Hiper e hipotireoidismo

    O hipotireoidismo, quando a glândula produz pouco hormônio e deixa o organismo lento, e o hipertireoidismo, situação contrária em que o corpo fica acelerado demais, são bem conhecidos e estudados. Mas, durante o congresso, causaram barulho as descobertas recentes sobre as versões subclínicas das duas doenças – o termo “subclínico” faz referência a um problema orgânico inicial que ainda tem poucas manifestações evidentes.

    8% dos brasileiros sofrem com o hipotireoidismo
    1,2% tem hipertireoidismo
    50% deles não sabem que têm disfunções tireoidianas. Um exame de sangue já flagra as variações

    Nessa situação, o hormônio TSH, liberado no cérebro e o grande influenciador do trabalho da tireoide, está em excesso (no hipotireoidismo) ou em falta (no hiper), só que o hormônio tireoidiano em si, o T4, está dentro dos níveis normais. Médicos ao redor do globo começaram a suspeitar que essa metamorfose prematura não é tão inofensiva assim. Desde então, pipocam pesquisas acusando um elo direto entre essas variações sutis e uma coleção de complicações.

    10% da população apresenta hipotireoidismo subclínico. A maioria nem sabe disso
    1,5% convive com o oposto: o hipertireoidismo subclínico
    15% daqueles com hipotireoidismo subclínico evoluem para a doença em si dentro de um ano

    O primeiro grupo do mundo a publicar achados sobre o hipertireoidismo subclínico é do Brasil, mais precisamente do interior paulista. O endocrinologista José Augusto Sgarbi, da Faculdade de Medicina de Marília, identificou que pessoas acompanhadas nesse estágio já sofriam perrengues cardiovasculares em comparação com quem tinha o TSH dentro das metas.

    “Observamos uma alteração na frequência das batidas do coração delas”, destaca Sgarbi. E o drama é que, entre essa turma, também foi registrado um maior número de infartos. Evidências posteriores, obtidas a partir de uma aliança internacional de pesquisadores, a Thyroid Studies Collaboration, reuniram dados de 55 mil pessoas de diversas etnias e desvendaram uma relação das quedas de TSH com osteoporose e AVCs.

    Tudo leva a crer que o hipotireoidismo subclínico também semeia desordem em várias instâncias… a começar pelos vasos sanguíneos. “Ele aumenta as taxas de colesterol ruim, o LDL, o que eleva o risco de doenças cardiovasculares”, exemplifica o endocrinologista Cleo Otaviano Mesa Junior, do Hospital de Clínicas da UFPR. Já existem indícios, ainda, de que o hipo leve teria algo a ver com infertilidade e disfunções renais.

    A questão é que as versões subclínicas não costumam dar sinais claros de sua presença. “Porém, se você perguntar para os pacientes, verá que eles demonstram mais sintomas típicos do hipo ou do hipertireoidismo do que a população geral e, obviamente, merecem ser avaliados com bastante critério”, chama a atenção a endocrinologista Laura Ward, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Fica a dúvida, então, de quando investigar ativamente queixas tão tímidas ou quase inexistentes. Alguns perfis, já se sabe, demandam cuidado extra, como quem tem distúrbios autoimunes – especialmente vitiligo, artrite reumatoide e diabete tipo 1 -, gente com depressão, gestantes e aqueles que tomam remédios que interferem na ação da tireoide, caso da amiodarona, prescrita para conter arritmias cardíacas, e do lítio, utilizado para controlar transtornos psiquiátricos.

    E como é possível o pequeno sobe e desce hormonal provocar esse rebuliço todo? “O TSH é muito sensível e apresenta grandes flutuações antes de o T4 ser afetado”, responde o médico Mario Vaisman, chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.

    Logo, por mais que o hormônio tireoidiano esteja dentro dos parâmetros nos exames laboratoriais, sua quantidade já não é suficiente para suprir as exigências do organismo. Sabe aquela história da água mole em pedra dura? Modificações mínimas que se arrastam na clandestinidade por anos a fio levam àquele turbilhão de ligações perigosas.

    Como o conhecimento sobre os incômodos subclínicos é novo, ainda permanece a polêmica de quando eles devem ser combatidos com remédios. Para inibir o hipo inicial, os médicos utilizam a levotiroxina, versão sintética do hormônio T4. Por ora, a terapia só está indicada a indivíduos com TSH muito elevado e que tenham menos de 65 anos.

    “De certa maneira, os mais velhos são protegidos e se beneficiam desse hipotireoidismo”, informa Sgarbi. Neles, a condição reduz ligeiramente o metabolismo e o uso do oxigênio. Isso facilita o trabalho do coração, que já não funciona como outrora. Pesquisas demonstraram, inclusive, que na faixa etária avançada a intervenção sai pela culatra e aumenta o risco de morte.

    E olha que curioso: no hipertireoidismo tênue, a recomendação se inverte. O tratamento, feito a partir de remoção cirúrgica ou drogas que sossegam a tireoide, é bem-vindo para mulheres na pós-menopausa e naqueles que passaram da casa das seis décadas de vida.

    “Quanto mais idoso, maior o risco de o hiper levar a um prejuízo cardíaco, uma vez que ele se soma a outros fatores comuns nessa idade, como pressão alta”, avisa Laura. Na contramão, um sistema cardiovascular jovem seria capaz de aguentar o tranco das flutuações hormonais. Por fim, os especialistas consideram a maior probabilidade de os quadros subclínicos evoluírem para as versões típicas antes de prescreverem o contra-ataque terapêutico.

    O que está em suas mãos

    Algumas mudanças no estilo de vida ajudam, sim, a prevenir enroscos na glândula. A primeira delas é emagrecer ou se manter dentro de um peso adequado. “Novas evidências sugerem que a obesidade perturba a função da tireoide e induz o surgimento de nódulos e até câncer ali”, afirma o endocrinologista

    Joaquim Custódio Junior, da Universidade Federal da Bahia. O caminho contrário, porém, é mito: o hipotireoidismo não engorda pra valer. Há uma facilidade de retenção de líquidos que acrescenta uns 3 quilos à balança – e não mais que isso. “Ele desacelera o metabolismo, o que dificulta a perda de peso, mas os medicamentos tendem a acabar com esse problema”, diz Vaisman.

    Circulou pela internet recentemente uma moda de tomar a levotiroxina para enxugar as medidas, mesmo sem diagnóstico de doenças na tireoide. Muita cautela com tais fórmulas miraculosas. “Essa atitude não é aconselhável porque pode provocar o hipertireoidismo e uma posterior degradação dos ossos”, alerta Mesa Junior.

    No que se refere à alimentação, não há nenhuma comida ou dieta mágica para proteger a glândula. O iodo é suficiente para que ela funcione em paz. O mineral marca presença no sal de cozinha por lei desde a década de 1950 e a porção ali supre nossas necessidades diárias.

    Em 2013, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária baixou o teor permitido. Antes, eram liberadas concentrações de 20 a 60 miligramas de iodo por quilo do produto. Agora, a legislação pede entre 15 e 45.

    Muitos endocrinologistas foram contra a decisão porque temem repercussões na gestação. “Estamos conduzindo uma investigação para conferir se essa modificação afeta as mulheres grávidas”, diz Vaisman. Talvez as futuras mamães precisem engolir cápsulas de iodo pelo bem do bebê.

    O selênio, presente em abundância na castanha-do-pará, parece ter influência positiva sobre a tireoide. Mas, como inexistem deficiências do mineral entre os brasileiros, não haveria razão para usar suplementos. Vale, se for o caso, consultar um especialista para averiguar a situação e verificar se cápsulas seriam necessárias para corrigir desfalques nutricionais.

    Agora, exageros à mesa seriam contraindicados sobretudo em se tratando da soja, que tem substâncias capazes de interferir na fabricação dos hormônios. “Os derivados do grão devem ser consumidos sem abuso porque estão relacionados ao bócio”, diz Custódio Junior.

    Se a doença está instalada, saiba que os fármacos disponíveis são seguros, baratos e eficazes – a levotiroxina, por exemplo, é idêntica ao T4 natural. E as farmacêuticas lançaram nos últimos tempos doses intermediárias do remédio, o que assegura um ajuste mais certeiro do esquema de uso.

    Sim, são muitas descobertas para uma glândula só. Esteja certo, porém, de que o bem-estar dela repercutirá pelo corpo todo… e pela vida inteira.

    4 condutas que ajudam a evitar hipo, hiper e até os nódulos

    Alimentação: o iodo, adicionado ao sal, é essencial à formação dos hormônios da tireoide, enquanto o selênio regula seu trabalho. A falta ou o abuso geram problema.

    Meio ambiente: a exposição a poluição e a produtos químicos como o chumbo e o bisfenol dos plásticos bagunça a glândula. Hábitos sustentáveis são cada vez mais importantes.

    Peso: a obesidade desnivela as concentrações de leptina, hormônio do tecido gorduroso que atrapalha a tireoide. Emagrecer evita a necessidade de algumas intervenções.

    Exames: medir o TSH e o T4 no checkup e realizar ultrassom nos casos em que há indicação auxiliam a detectar (e tratar) as doenças no estágio inicial.

    A história da tireoide

    Ela só foi estudada com profundidade há cerca de 500 anos. Os avanços nos séculos 19 e 20 permitiram garantir uma vida totalmente normal aos portadores de distúrbios na secreção dos seus hormônios

    2700 a.C.

    Imperadores chineses usam algas marinhas para tratar o bócio – inchaço no pescoço ocasionado pela deficiência de iodo.

    961 d.c.

    O árabe Abulcasis realiza uma cirurgia de retirada da glândula, mesmo sem saber direito para que ela servia.

    1500

    O artista e inventor italiano Leonardo da Vinci é o primeiro a reconhecer, vasculhar e desenhar a tireoide.

    1656

    O britânico Thomas Wharton cria o termo “tireoide”. Ele se inspirou no formato de um escudo que soldados da Grécia Antiga portavam.

    1831

    O médico brasileiro Francisco Freire Alemão recomenda, de forma pioneira, suplementar o iodo para evitar o bócio.

    1834

    Um quadro de palpitações e olho saltado é descrito pelo inglês Robert Graves. A culpada? A tireoide acelerada.

    1895

    Descoberto o papel da estrutura com formato de borboleta no ritmo de funcionamento de vários órgãos.

    1909

    Emil Theodor Kocher, fisiologista alemão, fatura o Prêmio Nobel de Medicina pelas suas descobertas sobre a glândula.

    1914

    Surgem as primeiras versões sintéticas do T4. Mas elas só chegaram às farmácias a partir de 1917.

    1956

    Descrita a ação dos anticorpos do sistema imune que atacam a tireoide no hipotireoidismo de Hashimoto.

    2016

    Um tipo de tumor que atinge as células tireoidianas é reclassificado e deixa de ser visto como um câncer.

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  • foto-imagem-suco-de-uva

    Estão chegando ao mercado dois produtos turbinados com proteína, nutriente conhecido por fortalecer os músculos. A marca Itambé acaba de lançar um leite (nas versões semi e desnatada) que apresenta o dobro da substância em relação aos similares. Já a Maxxi Ovos investe em uma linha com três sucos integrais, todos enriquecidos com albumina, a famosa proteína do ovo.

    A nutricionista Cynthia Antonaccio, da Equilibrium Consultoria, na capital paulista, vê as novidades com bons olhos. “É uma tendência mundial”, diz. Segundo ela, a proteína não deve ser encarada como coisa de marombeiro, não. “Esse nutriente favorece a saciedade, o que é interessante em um mundo ansioso por comida como o nosso”, afirma. Portanto, as bebidas proteicas são indicadas para todos — de crianças a idosos — que quiserem fazer lanches intermediários capazes de deixar a barriga cheia por mais tempo.

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  • foto-imagem-prato-quebrando

    Em 1973, no auge de seus 100 quilos, o peso-pesado da música popular brasileira Tim Maia resolveu se internar em um spa e entrar em um regime radical. A experiência foi um fracasso: na primeira oportunidade, ele fugiu e correu para a churrascaria. Ao ser questionado por um repórter sobre o ocorrido, o cantor soltou uma frase icônica. “Cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas, perdi 14 dias.” É lógico que Tim precisava emagrecer, assim como 54% da população brasileira que atualmente se encontra acima do peso. Não param de surgir evidências, porém, de que apostar numa dieta pra lá de rigorosa (e, muitas vezes, apoiada em restrições e trocas alimentares malucas) pode ser uma perda de tempo – e de saúde.

    Para entender essa história direito, temos que fazer uma breve viagem ao passado. Há 12 mil anos, nossos ancestrais penavam para obter uma boa refeição. Eles se esforçavam com frequência na caça a um bisão ou a um antílope – e olha que nem todo dia a empreitada era um sucesso. Quando havia fartura de alimentos, nossos antepassados devoravam tudo e estocavam o excedente da comilança em forma de gordura na barriga. Daí, em tempos de escassez, o organismo recorria a essas reservas de energia para se manter. “A seleção natural privilegiou genes que permitiam uma maior chance de sobrevivência naquele ambiente de menor oferta de comida”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

    O problema é que o mundo evoluiu e não corremos mais atrás da refeição. Ela já está pronta para consumo, no supermercado ou na praça de alimentação. “Acontece que nós continuamos com a genética do homem das cavernas”, afirma o endocrinologista Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Isso significa que o corpo interpreta qualquer exagero à mesa como pretexto para amontoar energia de olho no período de vacas magras – mesmo que tais momentos nem existam mais.

    O grande atrativo das dietas da moda é a promessa de perda de peso rápido. E muitas delas até permitem eliminar 5 quilos em poucas semanas. Só que aí é que vem a má notícia: “Os estudos mostram que esse peso subtraído é basicamente água e massa muscular”, conta a nutricionista Marle Alvarenga, idealizadora do movimento Nutrição Comportamental. A gordura permanece lá. Se levarmos isso em conta, o indivíduo na verdade “engorda” no regime. Ora, com a diminuição de músculos e líquidos, a proporção de tecido adiposo no corpo é ampliada.

    Mas, ok, vamos ser bonzinhos e considerar que houve um enxugamento nas medidas – e o espelho está aí para provar. O dilema é que, após as primeiras semanas, começa o efeito platô. Em outras palavras, o ponteiro da balança se mantém estático, mesmo que o corte de calorias siga firme. E isso acontece porque o próprio organismo conspira contra as tentativas de chapar a barriga. Lembra o mecanismo de sobrevivência de nossos tataravôs pré-históricos? “Durante uma dieta, há uma maior secreção de grelina, hormônio que dá fome, e uma queda nos hormônios por trás da saciedade”, esclarece o médico Amélio Godoy Matos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Parece que a comida não enche a pança e fica sempre aquela vontade de beliscar algo.

    Nesse sentido, cientistas do Instituto Nacional de Diabete, Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos acompanharam os participantes do reality show The Biggest Loser (“O Grande Perdedor”), competição que dá o prêmio a quem perde mais peso em menos tempo. Eles descobriram que o metabolismo dos participantes fica mais lento que o normal, mesmo seis anos depois do fim do programa de TV. Todos passaram a queimar gordura numa velocidade reduzida e voltaram a engordar. “O corpo entra em modo de economia de energia e poupa tudo o que puder para restabelecer o peso original”, resume o endocrinologista Bruno Geloneze, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Pois é, o efeito sanfona ainda gera frustração e nervosismo. E esses sentimentos, por si sós, são promotores do ganho (ou da volta) de peso. De acordo com a Associação Americana de Psicologia, 38% dos adultos dizem exagerar nas porções por causa de preocupações e aflições emocionais. “Sob o ponto de vista fisiológico, o estresse altera o ciclo do hormônio cortisol e pode facilitar o ganho de peso, lentificar o metabolismo e modificar a distribuição de gordura pelo corpo”, lista Geloneze. Em última instância, regimes extremos deixam as pessoas tensas, neuróticas e sabotadas pelos próprios hormônios.

    Outro fator que aumenta a ansiedade é o desejo constante pelo corpo de capa de revista – ou de foto de celebridade no Instagram. “Fazemos de tudo para nos enquadrar num padrão magro de beleza, que é visto como símbolo de sucesso em todas as sociedades ocidentais”, analisa o psiquiatra Adriano Segal, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). Infelizmente, o abdômen trincado é para poucos: formas esculturais dependem de grandes privações e, principalmente, de uma genética favorável. Aceitar a própria imagem corporal na busca por uma vida saudável é o primeiro passo para não entrar em parafuso.

    Pra piorar, o ambiente em que vivemos também patrocina a obesidade. As comidas mais acessíveis são inúmeras vezes aquelas com muitas calorias e poucos nutrientes. As escadas são trocadas pelos elevadores. O controle remoto e o celular permitem realizar tudo sem sair do sofá. “As modernidades inverteram a lógica da natureza e nos fazem consumir mais calorias do que gastamos ao longo do dia”, diz a endocrinologista Tarissa Petry, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. É nesse mar de contradições que o mercado das dietas nada de braçada: só nos Estados Unidos, a venda de livros, DVDs, métodos de emagrecimento, aplicativos e afins cresce desde os anos 1980 e movimentou 59,8 bilhões de dólares só em 2014.

    A preocupação excessiva com carboidratos, proteínas, gorduras e calorias típica de dietas exigentes é outro ponto de crítica entre os especialistas. “Valorizar tanto os nutrientes faz as pessoas se esquecerem do caráter social e cultural da comida”, reflete Marle. Afinal, a refeição não cumpre só uma necessidade fisiológica. Sentar-se à mesa envolve compartilhar histórias e momentos com os familiares e os amigos, honrar tradições culinárias e testar novos sabores e combinações de ingredientes. Uma dieta muito restritiva isola e impede de aproveitar toda essa riqueza que está por trás de um reles prato. Mais um motivo para essas estratégias naufragarem em médio prazo.

    Tachar alguns produtos como bons ou ruins também é contraproducente. Proibir determinados itens só aumenta o desejo de prová-los, enquanto liberar determinada classe pode levar ao exagero nas quantidades. “Devemos sempre apostar no conhecimento e no consumo responsável”, acredita Antonio Herbert Lancha Junior, professor titular da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo e autor do livro O Fim das Dietas. Portanto, dentro de uma vida equilibrada, há espaço até para o chocolate e a batata frita. O segredo está na frequência e no tamanho das porções. “O ser humano não é uma máquina que precisa de um combustível qualquer. Cada um tem alguma comida que adora e faz bem à alma”, concorda a nutricionista Olga Amancio, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.

    Esse maniqueísmo alimentar não encontra amparo nem na ciência. Um experimento com 800 voluntários realizado no Instituto Weizmann, em Israel, concluiu que o mesmo alimento pode ser vantajoso a alguns e provocar barbaridades no organismo de outros. No artigo, os estudiosos citam o caso de uma mulher que sofria um aumento expressivo do açúcar no sangue após mastigar um inofensivo tomate. “As características genéticas individuais têm uma repercussão enorme no ganho ou na perda de peso”, ressalta Coutinho.

    Se as dietas falham (ou, no mínimo, não surtem efeito de maneira consistente), então devemos desistir e nos conformar com os quilos extras? Claro que não. Um emagrecimento consciente e sustentável é possível dentro de um plano mais amplo de mudanças no estilo de vida. Isso envolve exercício, alívio do estresse, respeito ao sono… “Não há segredo: a dieta tem de contar com quantias adequadas de nutrientes”, diz Iara Waitzberg Lewinski, nutricionista do Ganep Nutrição Humana, em São Paulo. Tantas vezes, pequenos ajustes fazem diferença. Em uma pesquisa da Universidade Baylor, nos Estados Unidos, indivíduos capazes de manter o novo peso eram aqueles que, em vez de aderir a um pacote de proibições, priorizavam alimentos saudáveis de que realmente gostavam.

    O êxito contra o excesso de peso tira proveito também do acompanhamento de médicos, nutricionistas, educadores físicos e psicólogos. Esse time ajuda a balizar indivi-dualmente a rota do emagrecimento. Há casos, inclusive, em que remédios ou a cirurgia bariátrica têm um papel a cumprir. “Os profissionais de saúde devem realizar um atendimento customizado e considerar o que é saudável e prazeroso para cada pessoa na hora de fazer as prescrições”, argumenta Lancha. E não pode faltar o apoio de familiares e amigos. Em estudo da americana Universidade Harvard, voluntários que compareciam a reuniões e conversavam com outros pacientes enxugavam duas vezes mais quilos em relação aos que seguiam um programa sozinhos.

    “Se insistirmos na ideia de que as dietas são a resposta para a obesidade, não lograremos efeito nenhum”, sentencia Lancha. O emagrecimento saudável não depende de fórmulas mágicas ou sacrifícios drásticos, mas, sim, de estabelecer uma relação honesta com os alimentos e o próprio corpo. Criar metas realistas e reconhecer os sinais de fome e saciedade são um ótimo ponto de partida. É uma mudança de visão e postura na rotina – não uma vez ou outra – que permitirá assinar um cessar-fogo na guerra com a balança.

    Que furada!

    Confira alguns planos dietéticos que ganham espaço na agenda de quem quer emagrecer num zás-trás. Eles valem a pena?

    Dieta da sopa

    Pede pra trocar almoço e jantar por ensopados e caldos de legumes durante uma semana ou mais. É até carregada de fibras, vitaminas e sais minerais. Mas deixa as refeições chatas – e quase aposenta a arcada dentária.

    Dieta do limão

    A principal vertente pede que seus seguidores bebam um copo de limonada (sem açúcar!) em jejum. O fruto até possui boas doses de vitamina C e minerais, mas não é a única solução para ficar magro, né?

    Dieta do tipo sanguíneo

    Diz que as escolhas à mesa devem se guiar pelo grupo sanguíneo. O tipo O carece de um capricho nas proteínas, enquanto o B necessita de leite e derivados aos borbotões. Não tem o menor fundamento científico.

    Dieta Detox

    O conceito é amplo e abarca desde aqueles que defendem tomar só suco verde até quem mete o pau em glúten e lactose. A missão seria “desintoxicar” as células, termo com pouco crédito entre os estudiosos.

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  • foto-imagem-dieta-silvestre-emagrece-desintoxica

    Disposta a fazer algumas mudanças no cardápio (trocar a carne vermelha por lentilha, nozes ou quinua, por exemplo) para aumentar o seu bem-estar e, de quebra, perder aqueles últimos quilinhos? Muito além de uma dieta da moda, o conceito Silvestre chega como um novo estilo de vida. Mas, para seguir esse tipo de alimentação, você precisa colocar no prato ingredientes no seu estado mais natural possível e que aparecem de forma espontânea no ambiente, sem intervenção do homem. Por isso, o nome silvestre.

    Mais ainda: a dieta prioriza algumas substituições como gordura saturada (carne vermelha, manteiga, fritura) pela insaturada (oleaginosas, azeite extravirgem, abacate) e evitar o excesso de carboidratos refinados (doces), além de caprichar nas doses de fibras (grãos integrais e hortaliças) e optar por alimentos ricos em antioxidantes, vitaminas e minerais (frutas e verduras).

    Aqui, Flavia Medeiros, diretora da 7 Princípios da Terra e especialista em nutrição funcional, lista os principais benefícios encontrados na Dieta Silvestre:

    Prevenção da obesidade, diabetes, doenças cardíacas e crônicas.
    Promove emagrecimento, mantém a forma e aumenta a disposição.
    Previne intoxicação alimentar e aumenta a expectativa de vida.
    Reduz risco de alergias e promove desintoxicação no corpo.
    Reduz a TPM nas mulheres e melhora a imunidade.
    Auxilia na saúde dos rins, reduz risco de câncer e protege a tireoide.

    Confira o cardápio de 1 dia

    Café da manha: Suco silvestre – 1 copo (200ml) água de coco + 2 folhas de couve + 2 rodelas de pepino + 1/2 maçã verde + 1 rodela de abacaxi. Bata todos os ingredientes no liquidificador e consuma sem coar. Para diversificar: torque a couve pelo agrião, ou espinafre, ou salsão. E a maçã verde por pera ou melão.

    Lanche da manhã: mix de nuts – 200g amêndoas + 200g nozes + 200g castanha do para + 200g castanha caju + 200g avelã + 200g uva passa preta + 200g uva passa branca + 20 ml óleo de coco.

    Misture todos os ingredientes com o óleo de coco e leve ao forno até ficarem crocantes.

    Almoço: 1 polpetone silvestre – 400g amaranto + 200g farinha de grão-de-bico + 30g alho picado +25g cebola selvagem + 5g chia (hidratada em 20ml de água por 15min) + 2g pimenta dedo de moça + 20g salsinha + 500ml agua + sal rosa a gosto. Cozinhe o amaranto na água com sal, cebola selvagem e alho. Após o cozimento completo, misture os demais ingredientes e use a chia hidratada para dar liga. Asse em forno baixo por 15min.

    Lanche da tarde: 1 porção de frutas silvestres desidratadas (gojiberry, blueberry, cranberry)

    Jantar: 1 prato de creme amarelo Silvestre – 10g manteiga ghee + 250g mandioquinha + 1 banana da terra + 25g folha de henbit + 1 col. (sopa) azeite + 200ml de água + sal rosa a gosto.

    Cozinhe a mandioquinha e a banana. Depois, bata os ingredientes cozidos no liquidificador e refogue o creme com os demais ingredientes (acrescente as folhas de henbit crua).

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  • foto-imagem-pilular

    A substância 2,4-dinitrofenol, mais conhecida como DNP, era usada originalmente para a fabricação de explosivos, mas está sendo cada vez mais comercializada de forma ilegal pela internet em forma de cápsulas, pó ou creme, sendo procurada por pessoas que querem emagrecer ou reduzir a porcentagem de gordura em seu corpo.

    Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o DNP “já causou doenças graves e mortes em vários países nos últimos três anos”.

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    O uso do DNP como emagrecedor não é novo: na década de 30 foi descoberto que essa substância aumentava a taxa metabólica e permitia a perda de peso.

    Mas o alto número de efeitos colaterais e mortes fez com que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, proibisse o composto em 1938 e ele acabou catalogado como uma “substância extremamente perigosa e não apta para o consumo humano”.

    O uso do DNP, no entanto, parece estar crescendo novamente, especialmente graças à facilidade de se adquirir essa substância pela internet.

    Segundo um estudo do Departamento de Medicina de Emergência do Hospital Whittington, de Londres, publicado em 2011 pela revista especializada Journal of Medical Toxicology, desde a década de 60 até o fim do século 20 não foram registradas mortes devido ao consumo de DNP.

    Os pesquisadores observaram, porém, um ressurgimento dos casos fatais na primeira década do século 21 – foram 12 mortes entre 2001 e 2010 -, o que, segundo eles, reflete “o aumento da disponibilidade do DNP na internet, onde (esse produto) é comercializado particularmente para o uso de fisiculturistas”.

    Em 2015, apenas na Grã-Bretanha foram 30 casos de intoxicação pela substância (contra 9 casos em 2014). E dos intoxicados, cinco acabaram morrendo.

    Por isso, o Departamento de Saúde Pública da Inglaterra decidiu fazer um alerta no dia 11 de dezembro, advertindo sobre o “ressurgimento” desse tipo de intoxicação, principalmente entre adolescentes e jovens.

    “Essa droga deveria ser classificada como veneno, já que só traz danos (ao organismo)”, disse à BBC Ryck Albertyn, anestesista e consultor do Hospital Worthin, na Grã-Bretanha.

    Morte

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    Um dos casos mais recentes de intoxicação por DNP foi o da jovem britânica Eloise Aimee Parry, que sofria de bulimia e morreu aos 21 anos em abril, após ingerir a substância.

    Fiona Parry, sua mãe, disse à BBC que Eloise tomou oito pílulas e que os médicos “não puderam fazer nada para salvar sua vida”.

    Parry também pediu que fossem adotadas medidas mais duras contra as empresas que distribuem o DNP.

    “As pessoas precisam saber do perigo que são essas pílulas. A busca por uma boa aparência nunca deveria custar a saúde ou (causar) a morte de alguém”, disse a jornais britânicos.

    Em maio, Rachel Cook, que sofria de transtorno alimentar, também morreu, aos 25 anos.

    De acordo com uma investigação recente, Rachel, que já estava muito magra, tomou as pílulas de DNP porque “queria queimar gordura e perder peso rapidamente”.

    “Sei que existe uma pressão entre os jovens para ficarem magros e muitos tomam medidas drásticas para conseguir isso. Mas eles devem estar cientes das consequências inevitáveis de ingerir essa substância mortal”, disse um dos peritos que investigou o caso de Rachel.

    Alerta mundial

    A Agência Espanhola de Consumo, Segurança Alimentar e Nutrição (Aecosan) fez recentemente um alerta de que algumas páginas na web que vendem o DNP se passam por empresas farmacêuticas.151214175926_dnp_304x171_reuters_nocredit

    A OMS e a Interpol (a agência internacional de polícia criminal) também emitiram informes alertando sobre o aumento do consumo desse composto.

    “(Trata-se de uma substância) ilícita e potencialmente mortal. Além disso, os riscos ligados a seu consumo são agravados pela condição ilícita de sua fabricação”, afirmou a Interpol em um Alerta Laranja mundial emitido em maio e distribuído a seus 190 países membros.

    Segundo a Aecosan, o efeito adverso mais comum associado ao uso do DNP são as erupções cutâneas (vermelhidão e inflamação da pele, muitas vezes com presença de bolhas).

    “Outros efeitos são a neuropatia periférica (problemas no sistema nervoso), gastroenterite (inflamação que afeta o estômago e o intestino), anorexia, catarata ou surdez permanente”, entre outros.

    Há também outros problemas derivados dos efeitos tóxicos do DNP: confusão, agitação, coma, convulsão, hipertermia, taquicardia, sudorese e colapso cardiovascular.

    E não há nenhum antídoto para a intoxicação por essa substância.

    “As pessoas precisam estar conscientes e atentas, especialmente no que diz respeito a vulnerabilidade de pessoas com transtornos alimentares que pode levar ao uso dessa substância”, diz Ryck Albertyn, anestesista e consultor do Hospital Worthin.

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  • A pré-diabetes é uma condição em que o nível de açúcar no sangue está entre 100 mg/dl e 125 mg/dl, ou seja, acima do normal (acima de 100 mg/dl de sangue ) e muito próximo do que define a diabetes (acima de 125 mg/dl). Para explicar como reverter esse quadro que pode levar à diabetes, o Bem Estar recebeu o endocrinologista Antônio Chacra e a nutricionista Alessandra Rodrigues.

    Pessoas com histórico de diabetes na família ou na gestação, obesos, sedentários e acima dos 40 anos são as que têm maior risco de serem pré-diabéticas. No entanto, já está cientificamente comprovado que é possível prevenir a diabetes do tipo 2 com a redução de apenas 5% a 10% do peso corporal, sem tomar remédio. Não é necessário sequer atingir o IMC ideal.

    Será que estou chegando lá?
    Há quatro perguntas a responder. O “sim” em pelo menos uma delas significa que é hora de checar os níveis de açúcar no sangue. A dosagem é um teste muito simples, disponível no SUS, nos planos de saúde e a R$ 8 em serviços privados.

    • Está acima dos 40?
    • É sedentário?
    • Está obeso?
    • Tem casos de diabetes na família?

    O que ocorre no corpo

    Quando uma pessoa está no quadro de pré-diabetes, isso significa que o pâncreas não está conseguindo produzir insulina suficiente para quebrar o açúcar e permitir que ele entre dentro da célula ou há uma resistência da célula à entrada do açúcar. Por isso, os níveis de açúcar estão aumentando na corrente sanguínea e iniciando os danos ao corpo.

    Dois passos para uma grande recompensa

    Fazer atividade física moderada à intensa, 30 minutos por dia, cinco vezes por semana, e reduzir a quantidade de calorias são dois passos para alcançar a grande recompensa, que é evitar a doença. A recompensa pode ser ainda maior, ao evitar a diabetes você também reduz risco de doenças cardiovasculares, dos rins e problemas de mobilidade e visão no futuro.

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  • foto-imagem-dieta

    Essa é a conclusão de uma grande metanálise (estudo que integra os resultados de várias pesquisas sobre uma mesma questão) envolvendo mais de 68 mil adultos. O trabalho, feito nos Estados Unidos, foi publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology.

    Segundo os especialistas envolvidos no estudo, nenhuma dieta baseada no consumo de proporções específicas de calorias provenientes dos três grupos de alimentos – carboidratos, proteínas e gorduras – funciona a longo prazo.

    Sem evidências

    O estudo foi liderado por Deirdre Tobias, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos.

    “Não há evidências positivas a favor de dietas com baixo consumo de gordura”, disse a pesquisadora.

    Um grama de gordura contém mais do que o dobro das calorias contidas em um grama de carboidratos ou proteínas, explicou a médica.

    “Então, a lógica é: reduzir a ingestão de gordura levaria naturalmente à perda de peso. Mas nossas evidências claramente indicam que isso não acontece.”

    Tobias e seus colegas fizeram uma revisão sistemática de 53 estudos que compararam a eficácia de dietas com baixa ingestão de gordura a outras dietas – incluindo aquela em que não há restrições.

    O objetivo era avaliar a capacidade da dieta com pouca gordura de levar à perda de peso a longo prazo (pelo menos um ano) em participantes adultos.

    Os especialistas levaram em conta a intensidade das dietas, que envolviam desde simples instruções em uma folha de papel até programas intensivos para emagrecimento incluindo sessões de terapia, anotações diárias em um caderno e aulas de culinária.

    Concluída a análise, os pesquisadores verificaram que não houve diferença na média de perda de peso entre dietas com pouca gordura e dietas com mais gordura.

    Cortar a gordura, o estudo concluiu, só é mais eficaz do que simplesmente não fazer dieta alguma.

    Além disso, produziu menos perda de peso do que cortar carboidratos – embora a diferença seja muito pequena (pouco mais de um kg), informaram os autores.

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    “A ciência não endossa dietas com pouca gordura como melhor estratégia para perda de peso a longo prazo”, disse Tobias. “Para controlarmos a epidemia de obesidade, vamos precisar de mais pesquisas para identificar melhores abordagens.”

    O desafio, disse a pesquisadora, é não apenas perder peso, mas mantê-lo baixo a longo prazo.

    “Temos de ir além das proporções de calorias vindas de gordura, carboidratos e proteína para discutir padrões saudáveis de alimentação, alimentos integrais e tamanhos das porções”, disse Tobias.

    “Encontrar formas de melhorar a adesão a dietas a longo prazo, e de evitar o ganho de peso, em primeiro lugar, são estratégias importantes para que tenhamos um peso saudável”, concluiu.

    Doença crônica

    Márcio Mancini, endocrinologista e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), disse à BBC Brasil não haver surpresas nas revelações do estudo norte-americano.

    “Dietas, isoladamente, são inefetivas para a média. Não vou dizer que não se deve tentar, mas a maioria dos pacientes vai necessitar de algo mais.”

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    Na opinião do brasileiro, esse “algo mais” é o medicamento. Segundo ele, a obesidade é um problema crônico, e demanda o uso de estratégias semelhantes às usadas no tratamento de outras doenças crônicas, como o diabetes e a hipertensão.

    “Hoje, as diretrizes da sociedade médica americana (para o tratamento da obesidade) são receitar o remédio já na primeira consulta”, disse. “Que é o que se faz em tratamentos para hipertensão, por exemplo. Ninguém mais diz, ‘reduz o sal e vamos ver como está a pressão daqui a três meses'”.

    “É remédio na primeira consulta, trata-se de um problema crônico”, reforçou.

    Médicos do serviço nacional de saúde do Reino Unido – o NHS –, por outro lado, sugerem que outras estratégias devem ser adotadas antes do remédio.

    O serviço recomenda, além de dieta e exercícios, que o paciente procure grupos de apoio na comunidade. No Brasil, há os Comedores Compulsivos Anônimos, entre outros serviços de ajuda.

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  • foto-imagem-dietasMuitos já passaram por isso: ganham uns quilos a mais em um período de pouco controle sobre a alimentação e decidem fazer uma dieta.Essas pessoas acabam escolhendo um método indicado por algum conhecido ou sobre o qual leram em algum site ou revista.

    O problema é que muitas dicas ou crenças sobre a melhor forma de perder peso não dão o resultado esperado.

    “Fazer mudanças a longo prazo e modificar o estilo de vida é a maneira ideal de combater os quilos porque leva a uma perda de peso permanente”, disse à BBC Mundo a médica Lucy Chambers, especialista em alimentação da Fundação Britânica de Nutrição.

    “É mais eficiente fazer mudanças graduais, que podem ser mantidas por um grande período de tempo. O ideal é que o corpo perca de 0,5 a 1 quilo por semana.”
    Levando em conta esse aspecto, reunimos, abaixo, alguns dos mitos mais comuns sobre fazer dieta.

    1. Certos alimentos servem para queimar gorduras

    Repolho, salsão (ou aipo), toranja, chá verde, pimentas… não deve ser a primeira vez que você ouve falar destes ou de outros alimentos que supostamente ajudam a queimar ou eliminar gorduras.

    Mas não é bem assim, de acordo com a Fundação Cardíaca Britânica (BHF na sigla em inglês). Não existe um tipo de comida que tenha propriedades especiais de queimar a gordura em excesso no corpo.

    2. Não se deve comer ou fazer lanchinhos entre refeições

    De acordo com a mesma entidade, essa premissa também é um mito.

    Não há problema em comer algo rápido entre as refeições principais, quando se trata de um lanchinho ou tira-gosto saudável, como uma fruta, uma verdura ou um iogurte light.

    É útil, pois ajuda a controlar o apetite.

    3. Comer à noite engordafoto-imagem-dieta

    A hora em que se consome um alimento não é o que determina o aumento de peso, são as calorias.

    Se são consumidas calorias em excesso, mais do que o corpo necessita, ganha-se peso, não importa se for pela manhã, à tarde ou à noite.

    Nesse aspecto, tanto o Centro de Saúde da Universidade de Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, como a publicação americana WebMD, concordam: não existe prova de que comer tarde da noite engorda.

    4. Os carboidratos são ‘vilões’

    Esse tipo de alimento – que inclui açúcares, amido e fibra – é componente fundamental de uma dieta saudável.

    “Nosso corpo necessita de carboidratos para obter energia, especialmente para o bom funcionamento do cérebro e dos músculos. O Departamento de Saúde do Reino Unido recomenda que pelo menos a metade da energia provida por nossa dieta diária venha de carboidratos”, explica Lucy Chambers, da Fundação Britânica de Nutrição.

    5. Quanto menos gordura, melhor

    Chambers diz que, ao contrário do que muitos pensam, é recomendado que uma dieta de emagrecimento contenha pelo menos 35% de gordura.

    Não é indicado um regime baixo em gorduras ou um que elimine totalmente o consumo de gorduras.

    O que é preciso ter em conta, segundo Chambers, é que há diferentes tipos de gordura; o tipo ingerido é que faz a diferença. O ideal é substituir a gordura saturada pela insaturada, já que esta ajuda a reduzir o colesterol no sangue, substância ligada ao risco de doenças cardíacas e derrames cerebrais.

    6. Produtos com baixo teor de gordura ajudam a perder peso

    Os alimentos com baixo teor de gordura oferecidos no mercado costumam incluir quantidades maiores de açúcar, sal e amido.

    Isso é feito para compensar o sabor que os alimentos perdem quando é retirada determinada quantidade de gordura.

    Com esse tipo de alimento também há o risco de se consumir porções maiores – em quantidade e frequência –, o que pode levar a uma ingestão maior de calorias e não ajudar em nada a eliminar os quilos a mais.

    Quanto aos produtos que são vendidos sob a premissa de terem o açúcar retirado, o que costuma ocorrer é que eles são adoçados com concentrados de sucos de frutas, o que leva ao consumo da mesma quantidade de calorias do que o original.

    Além disso, segundo o Centro de Saúde da Universidade de Virgínia Ocidental, não há ganho nutricional no consumo de alimentos desse tipo.

    7. Tomar muita água ajuda a emagrecer

    A água é fundamental para o organismo, mas não é por isso que se deve assumir que aumentar o seu consumo levará à perda de peso.

    É bom beber mais água quando se faz uma dieta, porque isso ajuda a evitar outras bebidas que tenham açúcar, mas esta ação não contribui para eliminar os quilos a mais – é preciso juntar isso a outras medidas.

    8. Alguns tipos de açúcar são piores que outros

    Segundo a WebMD, há estudos que demonstram que o corpo absorve de maneira similar o açúcar comum, o mel e os adoçantes feitos de milho convertido em frutose.

    Para referência, é bom saber que uma colherzinha de qualquer um desses produtos tem entre 48 e 64 calorias.

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    9. Pular refeições torna a dieta mais eficaz

    Não é verdade. A consequência dessa medida é aumentar a fome, o que, por sua vez, leva a um consumo maior de alimentos na próxima refeição.

    Várias entidades, entre elas o Instituto Nacional de Enfermidades Digestivas, do Rim e da Diabetes, nos Estados Unidos, concordam com essa visão.

    Alguns estudos chegaram até a indicar que deixar de comer no café da manhã pode aumentar o peso.

    10. O que funciona para perder peso são exercícios intensos e prolongados

    Trata-se de mais um mito, mesmo porque atividades físicas de baixa intensidade também consomem calorias.

    Faz bem visitar uma academia, mas o BHF diz que mesmo caminhar, arrumar o jardim ou realizar outras atividades domésticas também pode fazer a diferença.

    O Centro de Saúde da Universidade de Virgínia Ocidental também salienta que o exercício não transforma gordura em músculo, como muitos pensam, já que ambos os tecidos são compostos por células diferentes.

    É possível queimar gordura e desenvolver músculo, mas não é possível converter o primeiro no segundo.

    E cuidado com os produtos que prometem a quase milagrosa perda de vários quilos em pouco tempo. Qualquer que seja a sua constituição física, é extremamente difícil que essa previsão se cumpra.

    Além disso, tais produtos podem ser perigosos para a saúde; os que se baseiam em ervas ou componentes naturais geralmente não foram submetidos a rigorosos processos de verificação científica para garantir sua eficácia e segurança.

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