• O sabor doce é apreciado de forma natural pelo ser humano desde o seu nascimento. O problema é que, segundo pesquisas, o consumo exagerado de açúcares pode aumentar a probabilidade de ganho de peso, o que, por sua vez, é um fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes.

    Mudanças no estilo de vida que ajudem a prevenir o excesso de peso são, portanto, um objetivo importante para uma grande parte da população mundial neste momento. Também é fundamental pensar no balanço energético – ou seja, equilibrar as calorias consumidas com aquelas queimadas por meio da atividade física.

    Os edulcorantes, mais conhecidos como adoçantes, representam uma forma simples de reduzir a quantidade de calorias e açúcares da dieta sem afetar o prazer de saborear alimentos e bebidas doces. Por ter um poder adoçante elevado em comparação aos açúcares, uma quantidade muito pequena é capaz de conferir a doçura desejada – agregando pouquíssima ou nenhuma caloria ao produto final.

    Além disso, os adoçantes podem dar uma ajuda significativa a pessoas com diabetes que precisam controlar sua ingestão de carboidratos, uma vez que não afetam o controle da glicemia. Sem falar que a saúde bucal sai ganhando, já que não há perigo de causarem cáries.

    Quem são eles

    Os adoçantes são usados em todo o planeta há mais de um século. Os mais conhecidos e utilizados são: acessulfame de potássio (ou acessulfame-K), aspartame, ciclamato, sacarina, sucralose e glicosídeos de esteviol. Outros tipos aprovados para uso na Europa e em outras partes do globo incluem: taumatina, neotame, neoesperidina DC e advantame.

    O primeiro adoçante levado à mesa foi a sacarina, descoberta na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, em 1879. Desde então, vários outros foram identificados e são agora ingredientes de alimentos e bebidas em todo o mundo. Antes da aprovação, todas as substâncias estão sujeitas a um rigoroso processo de avaliação de segurança.

    Por falar em segurança…

    Ela tem sido cuidadosamente avaliada e consistentemente confirmada por um forte corpo de evidências científicas e órgãos regulatórios em todo o mundo. Como ocorre com qualquer aditivo alimentar, para que um adoçante seja aprovado para utilização no mercado, deve primeiro ser submetido a uma avaliação exaustiva por parte da autoridade competente em matéria de segurança de alimentos.

    E, com base na riqueza dos estudos científicos, os organismos de segurança de alimentos em todo o mundo, tais como o Joint Expert Committee on Food Additives (JECFA) da Food and Agriculture Organization (FAO)/World Health Organization (WHO), a US Food and Drug Administration (FDA) e a European Food Safety Authority (EFSA), têm consistentemente confirmado a segurança de todos os adoçantes liberados.

    Para isso, as autoridades analisam e avaliam minuciosamente dados sobre a química, a cinética e o metabolismo da substância, além das utilizações propostas e a avaliação da exposição, bem como estudos toxicológicos extensivos.

    Um adoçante só é autorizado para incorporação em alimentos se existirem fortes indícios de que não suscita preocupações de segurança. No processo de aprovação, os especialistas em avaliação de risco das agências de segurança de alimentos estabelecem uma dose diária aceitável (conhecida como IDA) para cada adoçante aprovado. Seguem abaixo as quantidades para cada um deles, por dia:

    Acessulfame-K: 0-15 mg/kg
    Aspartame: 0-40 mg/kg
    Ciclamato: 0-11 mg/Kg
    Sacarina: 0-5mg/kg
    Sucralose: 0-15mg/kg
    Glicosídeos de esteviol: 0-4mg/kg (expresso como esteviol)
    Taumatina: não especificado**

    **Uma IDA sem especificação significa que a taumatina pode ser utilizada de acordo com as boas práticas de fabricação (BPF).

    Fonte: Dose diária admissível (IDA) para os edulcorantes de baixo teor calórico habitualmente utilizados, conforme estabelecido pelo Joint Expert Scientific Committee on Food Additives (JECFA) of the United Nations Food & Agriculture Organization (FAO) and the World Health Organization (WHO).

    E para que serve a IDA?

    Como contei, trata-se de uma estimativa da dose diária de uma substância que não apresenta risco apreciável à saúde humana, quando ingerida todos os dias, durante toda a vida.

    A IDA serve para proteger a saúde dos consumidores e facilitar o comércio internacional de alimentos. É uma abordagem prática para determinar a segurança dos aditivos alimentares e um meio de alcançar a harmonização do controle regulatório, pois os valores estabelecidos para o uso de cada aditivo são aplicáveis globalmente em diferentes países e em todos os setores da população.

    Para estabelecer a IDA, é necessário determinar, por meio de estudos, a maior quantidade consumida do adoçante que não gerou efeitos adversos. Esse patamar é chamado de NOAEL (do inglês, No Observed Adverse Effect Level) e a quantidade é expressa em miligramas do adoçante por quilograma de peso corporal por dia (mg/kg de peso corporal/dia).

    O NOAEL é, então, dividido por 100. Essa margem de segurança é necessária, porque o NOAEL é determinado em animais, não em seres humanos. Portanto, é essencial ajustar os valores a possíveis diferenças, assumindo que o ser humano é mais suscetível a problemas do que o animal de teste mais sensível.

    Outro ponto de cuidado é que a confiabilidade dos testes de toxicidade é limitada pelo número de animais testados. Essas avaliações não podem representar a diversidade da população humana, cujos subgrupos podem mostrar diferentes sensibilidades (por exemplo, crianças, idosos e enfermos). De novo: é prudente ajustar essas diferenças.

    Uma forma lúdica de explicar o que é a IDA

    Pense em uma estrada onde determinado limite de velocidade é estabelecido para que não ocorram acidentes. Imagine que o limite estipulado é de 100 km/h. Isso significa que se um carro andar a 100 km/h nessa estrada não ocorrerá nenhum tipo de acidente.

    Pois agora imagine que as pessoas que estipularam o limite de 100 km/h querem que a estrada seja a mais segura possível. Para isso, elas dividem o valor de 100 km/h por um fator de segurança de 100. Assim, o novo limite passa a ser de 1 km/h.

    Dessa forma, os carros nessa estrada só poderão andar a 1 km por hora. Caso um carro passar dessa velocidade, não é indicativo de que sofrerá um acidente ou que estará em perigo, mesmo que isso ocorra várias vezes. A mesma analogia pode ser extrapolada para as IDAs dos aditivos alimentares.

    A IDA não é um limite máximo

    Ela é uma referência a uma situação de longa exposição durante a vida toda, e não um valor de base para uma única ocasião. Por isso, você não precisa se preocupar com os limites estabelecidos, porque eles são muito seguros e são raras as ocasiões em que se poderia ultrapassá-los.

    E, quando fica claro que a IDA pode ser excedida com certa regularidade por certos grupos populacionais, os organismos regulatórios reduzem os níveis permitidos desses aditivos nos alimentos, de forma consistente com a quantidade necessária para alcançar sua função – ou então restringem a gama de alimentos em que o aditivo é permitido para uso.

    Sem motivo para preocupação

    Publicada em 2018, uma revisão da literatura mundial sobre os edulcorantes mais utilizados concluiu que, em geral, os estudos realizados para determinar as exposições dos adoçantes ao longo da última década não suscitou preocupações no que diz respeito a ultrapassar os valores das IDAs individuais na população geral ao redor do mundo.

    Cabe lembrar ainda que vários estudos indicam uma redução no consumo de adoçantes. Esses dados proporcionam um grau significativo de confiança, sinalizando que não está acontecendo uma mudança expressiva na ingestão dos adoçantes e que os níveis de exposição em geral estão dentro dos limites da IDA para cada um deles.

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  • A constipação atinge até 30% da população, sendo mais comum em mulheres. Embora usualmente fácil de prevenir e de tratar, ela afeta negativamente a qualidade de vida e, em casos específicos, pode refletir um problema mais sério e necessitar de intervenção médicas ou mesmo cirurgia.

    Agora, por que a prisão de ventre é mais incidente no sexo feminino? Entre as causas está a influência dos hormônios. Antes da menstruação, por exemplo, muitas mulheres notam alteração do funcionamento do intestino.

    Outra explicação é o hábito ainda comum de não obedecer ao desejo de fazer cocô, o que pode causar ressecamento das fezes, dificuldade de eliminá-las e ferimento no ânus (fissura anal) pelo esforço repetitivo para evacuar. Após a menopausa o quadro pode se agravar, porque há queda dos níveis de estrogênio.

    Verdade que a função intestinal dita normal é bastante variável. Uma pessoa pode fazer cocô a cada três dias ou até três vezes por dia e estar tudo bem. A crença de que todos devemos evacuar uma vez por dia não é correta e comumente leva ao uso desnecessário ou mesmo abusivo de laxantes.

    Além da frequência, as fezes devem ser expelidas com facilidade e sem esforço excessivo. Ao sair do banheiro, o indivíduo precisa ter a sensação de eliminação completa.

    Os sintomas comuns no dia a dia de um constipado são: queixas de intestino lento, muito esforço para eliminar as fezes (às vezes até necessitando de ajuda manual), dor e distensão abdominal.

    Na maioria das ocasiões, a prisão de ventre é causada por baixa ingestão de fibras e de líquidos ou por falta de atividade física. No entanto, outras condições afetam a função intestinal, como diabetes, hipotireoidismo e depressão. Medicamentos para dor e hipertensão (pressão alta), antidepressivos, drogas psiquiátricas e antiácidos também podem influenciar no surgimento do problema.

    Há condições mais sérias que têm natureza mecânica, como doenças que causam inflamação e culminam com estreitamento do intestino, dificultando a passagem do cocô. A diverticulite, a doença de Crohn e certos tumores são exemplos. Seu médico deverá ser capaz de reconhecer essas situações.

    A falta de coordenação da musculatura do ânus no momento da evacuação também é um possível motivo de dificuldade para expulsar as fezes.

    Inicialmente, caso o paciente não tenha qualquer sinal de alarme (sangramento, emagrecimento, anemia) ou for acima de 45 anos, o tratamento pode ser iniciado com dieta rica em fibras, ingestão de líquidos e exercícios.

    Atenção: o uso de laxativos deve ser avaliado pelo médico. Nada de automedicação!

    Por outro lado, uma prisão de ventre que começa cedo na vida ou que já vem de longa data e só piora – mesmo após a adoção de medidas preventivas simples – merece ser investigada. Fezes finas são outro sinal que deve ser reportado ao médico.

    Em situações nas quais o movimento intestinal é muito raro ou em que há obstrução ou dificuldade extrema para expulsar as fezes, exames bem específicos auxiliam o diagnóstico e direcionam o tratamento. Ou seja, até nas situações mais complicadas, há o que fazer.

    A chave para o sucesso do tratamento é a correta investigação diagnóstica. Informe-se e busque orientação com seu médico.

    *Dra. Luciana Marzan é médica e membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia

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  • Doze milhões de toneladas. Esse foi o total de açúcar consumido pelos brasileiros entre 2013 e 2014. Para ter ideia do tamanho da gulodice, basta dizer que daria para encher, até a arquibancada superior, 32 estádios do Morumbi, em São Paulo, o segundo maior do Brasil, com capacidade para 77 mil torcedores. Em um ranking elaborado pela Sucden, multinacional do ramo açucareiro, nosso país ocupa, hoje, o quarto lugar entre os maiores fãs da sacarose, o nome técnico do açúcar.

    O abuso, como a ciência não cansa de mostrar, eleva o risco de obesidade e doenças crônicas como diabetes, hipertensão e câncer. Apenas Índia (26 milhões), União Europeia (18 milhões) e China (16 milhões) são mais sedentos por doçura que o Brasil.

    “Não é proibido consumir açúcar. Pelo contrário. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a ingestão diária. Afinal, ele é uma fonte de energia. O problema está no excesso”, avalia Wilson Mello, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia).

    De fato, a OMS libera um consumo diário, por pessoa, de 25 gramas, o equivalente a seis colheres de chá. E indica não ultrapassar 50 gramas, ou 12 colheres. Acontece que o brasileiro extrapola. E muito. Engole três vezes mais: 80 gramas, o correspondente a 18 colheres.

    Assim, o total de calorias representadas por esse ingrediente, que, de acordo com a OMS, não deveria superar 10% por dia, chega a 16,3%. Isso ajuda a explicar por que a incidência de diabetes saltou, só na última década, 54% entre os homens e 28,5% entre as mulheres.

    Por essas e outras, governo e indústria decidiram, em novembro do ano passado, firmar um pacto: reduzir a dose de açúcar na fórmula de bebidas e alimentos industrializados. O objetivo é retirar do mercado, de forma gradual e até 2022, 144 mil toneladas do ingrediente em algumas categorias — o que daria para forrar 68 piscinas olímpicas.

    Comparando aos 12 milhões de toneladas consumidas em dois anos, parece pouco. A questão é que é difícil mensurar o impacto desses números. Como a quantidade total de açúcar empregada pela indústria não foi divulgada, não dá pra calcular exatamente o percentual que vai sumir dos alimentos — e avaliar quão significativo será o efeito da medida.

    O acordo, que é voluntário, contempla 23 categorias de produtos. Elas podem ser divididas assim: bebidas açucaradas, biscoitos, bolos e misturas, achocolatados e lácteos.

    É curioso que diversos itens, como balas, geleias, chocolates, sorvetes, gelatinas, refresco em pó, barrinhas e cereais matinais, ficaram de fora. “Somente as categorias que contribuem majoritariamente para o abuso de açúcar compuseram o termo de compromisso”, justifica Michele Lessa, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.

    Quanto às metas de redução, elas variam de 10,5% para achocolatados em pó a 62,4% para biscoitos recheados. De resto, a meta é baixar o teor de açúcar em até 32,4% nos bolos, 33,8% nas bebidas, 46,1% nas misturas para bolos e 53,9% nos lácteos.

    “Em biscoitos, bolos e misturas, o açúcar confere doçura e interfere na textura, na crocância e no aroma. Além disso, seu custo é bastante competitivo”, explica Claudio Zanão, presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi). Como o acordo proíbe os fabricantes de colocarem adoçantes ou gordura em seu lugar, o jeito é testar diferentes tecnologias, receitas e novos ingredientes.

    Confira os detalhes de cada categoria logo abaixo – e, depois, as ponderações sobre o plano:

    Bebidas açucaradas

    Meta: até 33,8% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: ter 11 gramas de açúcar em 100 mililitros de produto

    No fim de 2022: 10,6 gramas de açúcar em 100 mililitros

    Uma latinha do refrigerante à base de cola mais vendido do mercado já apresenta 10,5 gramas de açúcar em 100 mililitros. Logo, escapa, por 0,1 grama, da meta estabelecida para refrigerantes em 2022, que é de 10,6 gramas. Das 207 bebidas açucaradas incluídas no acordo, 113 (55%) terão que reduzir o teor do ingrediente em sua fórmula. Ou seja, muito produto já está dentro dos parâmetros.

    Achocolatados em pó

    Meta: até 10,5% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: 90,3 gramas de açúcar em 100 gramas

    No fim de 2022: 85 gramas de açúcar em 100 gramas

    De todas as categorias, é a que apresenta o menor índice de redução. Alexandre Jobim, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas, explica que, devido ao consumo reduzido, os achocolatados líquidos não entraram no combo — só os em pó e similares de outros sabores. Detalhe: o produto líder do mercado já está dentro da meta, com 75 gramas de açúcar em 100 gramas.

    Biscoitos

    Meta: até 62,4% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: 36,4 gramas de açúcar em 100 gramas

    No fim de 2022: não divulgado

    A categoria inclui rosquinhas e biscoitos com e sem recheio. O líder entre os recheados possui 36,3 gramas de açúcar por 100 gramas. Então, não precisará rever a fórmula até 2020. Claudio Zanão, presidente da Abimapi, avisa que os fabricantes já estão testando alternativas para se adequar ao trato. “A combinação de sabor, textura, crocância e custo oferecida pelo açúcar não é facilmente encontrada em outros produtos”, informa.

    Iogurtes e leites fermentados

    Meta: até 53,9% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: 14,5 gramas de açúcar em 100 gramas

    No fim de 2022: 12,8 gramas de açúcar em 100 gramas

    Segundo Cristina Mosquim, consultora de assuntos regulatórios da Viva Lácteos, há itens que já sofreram redução de 12% ou quase não levam açúcar. Usar mais leite é uma das soluções. O líder dentro de petit suisse tem, hoje, 12,2 gramas do ingrediente. O valor deverá ser de 13,9 gramas para essa categoria em 2022. Nada muda nesse caso, portanto.

    Bolos prontos

    Meta: até 32,4% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: 31,2 gramas de açúcar em 100 gramas

    No fim de 2022: 29,5 gramas de açúcar em 100 gramas

    Falamos de todas as versões: com e sem recheio ou cobertura. “Se a meta de redução fosse mais ambiciosa, não teríamos como garantir que sabor, textura, cor e outras características não seriam alterados”, admite Zanão, da Abimapi, uma das quatro associações a selarem o acordo. Juntas, representam 68 empresas, que respondem por 87% do mercado.

    Misturas para bolos

    Meta: até 46,1% menos açúcar

    Isso representa no fim de 2020: 58,7 gramas de açúcar em 100 gramas

    No fim de 2022: 57,9 gramas de açúcar em 100 gramas

    Podem ser aeradas ou cremosas e permitem que o consumidor elabore as mais variadas receitas a partir delas. Assim como as categorias de bolos e biscoitos, a de misturas está sob o guarda-chuva da Abimapi. “Pretendemos, até 2022, ajustar, no mínimo, 50% de todos esses produtos”, calcula Zanão, presidente da entidade.

    Elogios, críticas e ponderação ao plano de redução do açúcar

    De maneira geral, entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) encaram a iniciativa com bons olhos. Mesmo assim, sugerem ajustes.

    Para o endocrinologista Fábio Trujilho, vice-presidente do Departamento de Obesidade da Sbem, falta discutir restrições de publicidade de alimentos para crianças, por exemplo. “É essencial ir muito além desse acordo e adotar medidas que conscientizem a população dos riscos do consumo exagerado de açúcar”, destaca.

    Já a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Abeso, reivindica uma rotulagem nutricional adequada com a informação clara e compreensível sobre a presença de açúcar no produto. “Na hora da compra, o consumidor precisa saber o que está levando para casa. Por essa razão, ter um sinal de alerta seria muito eficiente”, afirma.

    Ela se refere ao modelo conhecido como “triângulo preto”, que propõe um aviso frontal sobre o alto teor de ingredientes que, se consumidos demais, fazem mal à saúde. É o caso de sódio, gordura e açúcar. O modelo, em estudo pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já foi adotado em países como Chile, Uruguai e Canadá, entre outros.

    Na opinião da nutricionista Laís Amaral, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), também é necessário coibir a venda de produtos desbalanceados nas cantinas escolares. “Devemos facilitar as escolhas saudáveis e dificultar as não saudáveis”, resume.

    As críticas ao pacto não param por aí. “Acordos voluntários são pouco eficazes porque as metas são baseadas no teor máximo de açúcar em cada categoria de alimento. Isso significa que haverá uma diminuição apenas nos itens com valores realmente excessivos”, explica Laís. “Na prática, é apenas um controle de danos com metas pouco ambiciosas”. Ela se alongou sobre o assunto em uma coluna para o nosso site, que você pode ler clicando aqui.

    O acordo engloba 2 397 produtos — na conta da indústria, são 1 787 — de 68 empresas. Desse total, somente 1 147 (47,9%) de fato terão que adequar seus índices de sacarose. Os 1 250 restantes (52,1%) já estão dentro ou até mesmo abaixo das metas estabelecidas.

    “Se os limites fossem mais bruscos ou o acordo englobasse uma quantidade maior de alimentos, o consumidor poderia deixar de levar para casa seu produto favorito e migrar para outro, com mais açúcar. Queremos dar tempo para as pessoas se adaptarem ao sabor”, defende Mello.

    O presidente do conselho da Abia garante que o trabalho não termina em 2022. Daqui a quatro anos, governo e indústria pretendem se reunir para firmar outro pacto e estipular novas metas de redução.

    Segundo o Ministério da Saúde, o açúcar presente nos alimentos industrializados responde por 36% do total consumido no Brasil. Os outros 64% seriam adicionados pelo próprio indivíduo ao café, aos sucos e às demais receitas. A indústria apresenta números diferentes: 19,2% do açúcar degustado seria incorporado pelas empresas, enquanto 80,8% viriam do açucareiro de casa.

    Divergências à parte, não dá para negar que o paladar brasileiro precisa de um treino. “Até por uma herança cultural, gostamos muito de doces. Nosso paladar é semelhante ao do português”, compara Olga Amâncio, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). “Até pouco tempo atrás, todo mundo adoçava suco de fruta. Hoje em dia, nem tanto. É preciso ensinar à população que muitos alimentos já são doces por natureza”, ressalta a nutricionista.

    O educador físico Antonio Lancha Jr., professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo e autor do livro O Fim das Dietas (Editora Abril), endossa as palavras de Olga. “Tem gente que coloca açúcar até em achocolatados”, conta.

    E ele traça outra reflexão: hábitos alimentares não são mudados por decreto. “Por que as pessoas escovam os dentes todos os dias? Porque isso foi estimulado na infância”, exemplifica. “Mudança de comportamento passa por uma questão educacional. Muitas vezes, orientar uma criança é capaz de promover uma alteração no padrão familiar”, completa.

    Além de maneirar na quantidade de açúcar à mesa, especialistas recomendam prudência na hora de substituir o ingrediente por adoçantes. O ideal é dar preferência a alimentos naturais ou minimamente processados.

    História que se repete?

    Não é a primeira vez que governo e indústria unem forças para estipular metas de redução de um ingrediente de produtos alimentícios. O primeiro documento foi assinado em 2007. Na ocasião, a indústria conseguiu baixar em 94,6% a concentração de gordura trans em alimentos. Com isso, 310 mil toneladas saíram das prateleiras entre 2008 e 2010.

    Em 2011, o foco foi o sódio. Desde então, desapareceram do mercado 17,2 mil toneladas do mineral cujo excesso leva à hipertensão. O objetivo é chegar a 28,5 mil toneladas em 2020. Só que esse combinado também recebeu críticas.

    O cientista político Marcello Fragano Baird, autor do relatório Redução de Sódio em Alimentos — Uma Análise dos Acordos Voluntários no Brasil, afirma que o trato foi muito tímido porque suas metas tiveram como base a média do mercado. “Isso significa que praticamente metade dos produtos já estava dentro dos limites. É um passo importante, mas seria possível ter sido muito mais ambicioso”, avalia.

    Para o Ministério da Saúde, o acordo firmado em 2011 para redução de sódio pode ser considerado bem-sucedido. Só no primeiro biênio (2011-2013), 90% dos produtos bateram a meta estipulada, com uma redução média entre 5 e 21%.

    Mas um estudo conduzido pela Universidade Federal Fluminense não enxergou motivo para tanto otimismo. Seus autores revelaram uma queda média de 1,5% no consumo de sódio.

    Ou seja, é como se a ingestão tivesse passado de 3 163 miligramas diários para 3 116, valor ainda bem acima do limite aconselhado pela OMS, que é de 2 mil miligramas diários.

    De volta ao pacto do açúcar – e ao fato de ser voluntário

    Mais um ponto que incomoda os experts é o fato de o tratado do açúcar ser voluntário. “Quem estabelece os valores das metas e o tempo para cumpri-las é a própria indústria. Não há previsão de fiscalização, monitoramento ou punição para aqueles que não cumprirem o acordo”, observa Laís.

    Mas Michele, do Ministério da Saúde, assegura que a Anvisa fará uma análise laboratorial para verificar a quantidade de sacarose nos produtos a cada dois anos. As empresas que não obedecerem o pacto serão notificadas e o Ministério cobrará providências.

    Porém, como a adesão é opcional, realmente não ocorrerão ações punitivas ou sanções econômicas. Só que Mello acredita que medidas do tipo nem seriam necessárias. “Ninguém quer ser o patinho feio da história”, diz.

    Para Baird, o ideal seria que o governo determinasse a redução obrigatória e as empresas fossem penalizadas caso não atingissem as metas. É o que já acontece em países como Argentina e Portugal. “Esse modelo tende a ser mais efetivo”, afirma.

    Na falta de tal controle, cabe à gente ser mais vigilante — não só em relação aos produtos do mercado mas ao próprio paladar.

    Açúcar, um inimigo oculto

    Quantas vezes você viu a palavra “açúcar” no rótulo dos industrializados? Não é tão comum, né?

    Isso porque os fabricantes não são obrigados a informar seu teor na tabela nutricional. Na maioria dos casos, ele surge como “carboidrato”.

    Mas quanto dos carboidratos é açúcar e quanto são outros tipos, como fibras ou amido? Não há como saber. Para complicar, na lista de ingredientes a indústria prefere usar alguns dos muitos codinomes do açúcar, como mel, glicose, frutose, sacarose, xarope de malte e até maltodextrina.

    Impossível decorar tanto apelido. Talvez uma atualização na rotulagem ajude nesse sentido.

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  • Apesar de quase não se pensar em comida no Carnaval, é muito importante manter uma alimentação inteligente durante os dias de folia para garantir o pique e a energia. De acordo com a Michelle Mendes, nutricionista funcional e oncológica da Aliança Instituto de Oncologia, o ideal é tomar um café da manhã reforçado e, se possível, levar uma fruta, barrinha de cereal ou castanhas na bolsa para a hora da fome.

    Os alimentos ricos em carboidratos são melhores para este momento de festa, já que são responsáveis por dar energia ao corpo. A nutricionista ensina que o indicado é escolher opções integrais, que demoram mais a ser digeridas. Antes do bloquinho, coma proteínas magras para dar resistência ao corpo e evite comidas gordurosas, que atrapalham a digestão e, consequentemente, a diversão.

    “Se for preciso comer na rua, é bom ter cuidado com a procedência dos alimentos. Observe a higiene do local, evite alimentos com muito molho e maionese, que costumam estragar rapidamente”, orienta. Outro detalhe importante é a hidratação: a nutricionista lembra que se deve intercalar um copo de álcool com um de água, para evitar não só a ressaca mas também a desidratação.

    Depois do Carnaval, quando o corpo precisar se recuperar, Michelle sugere uma dieta rica em comidas que ajudam na desintoxicação. Vegetais escuros, como couve e brócolis, são boas opções.

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  • A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento de cinco cortes de frango da marca Perdigão, que pertence à empresa BRF. A medida foi tomada depois que a própria fabricante detectou, em testes de qualidade, a presença da bactéria Salmonella enteritidis, conhecida por causar surtos de diarreia e gastroenterite.

    Os produtos afetados, que já estão sendo retirados do mercado, foram:

    Filé de peito, embalagem plástica – 2kg (lotes 30/10/18 e 9/11/18)
    Coração, embalagem plástica – 1kg (lotes 30/10/18, 5/11/18, 6/11/18, 7/11/18, 9/11/18, 10/11/18 e 12/11/18)
    Filezinho (Sassami), embalagem plástica – 1kg (lotes 30/10/18, 5/11/18, 6/11/18, 7/11/18, 9/11/18, 10/11/18 e 12/11/18)
    Meio peito sem osso e sem pele, caixa de papelão – 15kg (lotes 30/11/18, 7/11/18, 9/11/18 e 10/11/18)
    Coxas e sobrecoxas sem osso, caixa de papelão – 15kg (lotes 6/11/18, 9/11/18 e 10/11/18)

    A Salmonella enteritidis é encontrada em diferentes alimentos de origem animal. Ela ficou conhecida por infectar o ovo, mas também pode invadir leite e carnes.

    Além disso, esse micro-organismo eventualmente se esconde em vegetais pela contaminação cruzada. Exemplo: a pessoa coloca o garfo em uma carne crua infectada e, sem higienizá-lo, usa o mesmo talher para separar vegetais.

    Quando invade o corpo, essa bactéria ataca o sistema digestivo. Ela é responsável por surtos de gastroenterite mundo afora – são os casos clássicos de refeitórios que servem pratos contaminados a centenas de pessoas.

    Ah, e apesar da bactéria se chamar Salmonella enteritidis, é comum denominar a doença decorrente dela como salmonela, com um “l” só.

    O que você pode fazer para evitar a salmonela

    Como muitas outras bactérias, essa não resiste a um bom processo de cozimento. Daí porque vale a pena levar o frango e outras carnes ao fogo.
    O mesmo vale para o ovo cru ou para o leite tirado direto da vaca.

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  • A trinca mostarda, catchup e maionese geralmente surge à mesa quando a pedida é hambúrguer, hot dog ou batata frita. Já parou pra pensar o que aconteceria se o critério para a escolha não dependesse do sabor, mas das características nutricionais?

    Pois a gente conta: o molho do lanche seria a mostarda. “Apesar de ter mais gorduras totais do que o catchup, ela apresenta menos calorias e carboidratos, além de mais fibras e proteínas”, analisa a nutricionista Ana Paola Monegaglia, de São Paulo.

    Ou seja, seu balanço se mostra mais favorável. Repare que a maionese abunda em gorduras. Ainda que os tipos predominantes sejam mono e poli-insaturados, considerados mais saudáveis, o valor calórico dela vai lá pra cima.

    “Portanto, é bom controlar o consumo”, orienta Ana. Aliás, o recado vale para os três molhos, já que todos são cheios de sódio, mineral cujo abuso faz a pressão decolar. Sem falar nos conservantes e aromatizantes. “Use esses produtos em ocasiões pontuais”, reforça Ana.

    Agora, confira a comparação desses três molhos, nutriente por nutriente:

    Energia
    Mostarda: 15 cal
    Catchup: 20 cal
    Maionese: 73 cal

    Gorduras totais
    Catchup: 0,03 g
    Mostarda: 0,9 g
    Maionese: 7 g

    Fibras
    Mostarda: 0,5 g
    Catchup: 0,2 g
    Maionese: 0 g

    Proteínas
    Mostarda: 0,9 g
    Catchup: 0,3 g
    Maionese: 0 g

    Carboidratos
    Mostarda: 1,2 g
    Maionese: 2,2 g
    Catchup: 5,4 g

    Sódio
    Catchup: 237 mg
    Mostarda: 250 mg
    Maionese: 289 mg

    Placar final
    Mostarda 4 X 2 Catchup X 0 Maionese

    Os valores se referem a uma colher de sopa de cada molho

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  • Embora a intolerância à lactose seja quase sempre apontada como culpada, sintomas como inchaços e dores abdominais podem ter como causa uma proteína. “A digestão do leite dá origem à beta-caseína dos tipos A1 e A2, ou ambos, de acordo com o DNA da vaca”, explica Marcos Vinicius Barbosa da Silva, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. “No caso da A1, ela não é bem digerida e provoca o mal-estar”, completa.

    Os produtores têm sido orientados, então, a rastrear o gado, separando os animais com vocação para produzir mais proteínas A2. Algumas empresas já fazem isso no Brasil, entre elas a Letti, uma das pioneiras na produção de leite, iogurte e queijos que são uma opção para quem sofre de perrengues digestivos relacionados à proteína — e não à lactose.

    Não é pra todo mundo

    O Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) divulgou uma nota em que se posiciona contra o uso do tal leite A2 para pacientes diagnosticados com alergia ao leite, por causa do risco de reações potencialmente graves.

    Segundo o informativo, a exclusão de uma das frações proteicas não torna o leite automaticamente hipoalergênico. Logo, ele não está indicado para pacientes com hipersensibilidade ao leite de vaca.

    “Processos de ultrafiltração e superaquecimento não são capazes de reduzir a alergenicidade completa do alimento. Além disso, o paciente alérgico é geralmente sensibilizado a múltiplas proteínas e não a uma fração isolada”, reforça a nota.

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  • Em um vídeo que está na internet e é compartilhado nas redes sociais, um homem aparece abrindo uma caixa cheia de leite com a finalidade de ensinar uma “dica” aos consumidores. Ele mostra que a parte de baixo de metade das embalagens apresenta alguns quadradinhos coloridos. De acordo com o sujeito, os símbolos só aparecem em leites que passaram por um reprocessamento.

    Ou seja, ele dá a entender que esses produtos já entraram anteriormente no mercado, mas voltaram à indústria para serem tratados quimicamente e, daí, foram devolvidos às prateleiras.

    Em primeiro lugar, o homem não aparece em nenhum momento – só vemos suas mãos – nem cita fonte para embasar esse alerta. Motivos suficientes para ficarmos com a pulga atrás da orelha, certo?

    De qualquer maneira, fomos atrás da Tetra Pak, que fabrica as embalagens que aparecem no vídeo. E para que fique claro: a Tetra Pak não produz leite.

    Segundo Fernanda Miguel, responsável pelo departamento de Tecnologia Asséptica da empresa, o reprocessamento do leite – e de qualquer outro produto – é simplesmente proibido pela legislação.

    Os quadradinhos coloridos apenas representam um teste de cor feito para controle da qualidade de impressão da embalagem. “Não tem nenhuma relação com o produto que vai ali dentro”, afirma Fernanda.

    Mas então por que algumas embalagens têm os símbolos e outras, não? “Da forma com que a embalagem é feita nos equipamentos, há a produção de mais de um tipo na mesma bobina”, esclarece a especialista da Tetra Pak. Dito de outra forma, o teste de qualidade da impressão não precisa ser realizado em todas as caixinhas fabricadas. E isso não tem absolutamente nada a ver com o leite em si.

    Fake news das antigas

    Vale lembrar que essa história de leite reprocessado não é de hoje. Há cerca de dez anos, uma mensagem espalhada também pela internet dizia que um número impresso no fundo da embalagem indicava quantas vezes o produto havia passado por reprocessamento após a data de validade.

    Em algumas caixinhas, era possível encontrar os números 5, 6… “Se isso fosse possível, o leite já teria virado um doce de leite!”, brinca Fernanda.

    De novo, o número não tem qualquer relação com o alimento. Ele indica, na verdade, o posicionamento das bobinas na linha de produção da caixinha.

    Até porque convenhamos: se alguém quisesse fraudar um alimento, não ficaria colocando dicas de ilegalidades na embalagem. Então ao ficar de olho?

    No que prestar atenção

    Na hora da compra, Fernanda diz que é essencial verificar a data de validade do leite e o aspecto da caixa. “Ela não deve estar amassada nem vazando. Precisa estar íntegra e com o lacre da tampa fechado”, ensina. Outra questão que merece ser observada: em quanto tempo o produto deve ser consumido após aberto.

    No mais, caso tenha dúvidas sobre informações contidas nas embalagens e mensagens disseminadas nas redes sociais, não deixe de entrar em contato com as empresas fabricantes dos produtos ou das embalagens.

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  • Estima-se que quase um terço da população brasileira sofra de esteatose hepática não alcoólica – popularmente conhecida como gordura no fígado. Esse problema pode desencadear doenças graves como cirrose e câncer. E, apesar da chateação não apresentar sintomas claros, existe solução.

    Ajustes no estilo de vida são a melhor forma de evitar e tratar essa condição que não para de crescer. Nos tópicos abaixo, explicamos as atitudes que deixam o fígado magrinho e saudável.

    1) A dieta

    Não tem como fugir: o primeiro passo para salvar o fígado é se livrar do peso extra e da gordura que se acumula na barriga. Mas fique calmo que ninguém vai recomendar um emagrecimento drástico — o caminho é justamente o contrário. Uma revisão de estudos assinada por experts do Hospital Universitário de Tübingen, na Alemanha, e recém-publicada no prestigiado periódico The Lancet concluiu que cortar 5% do peso já reduz em 30% o volume de gordura na glândula.

    Convenhamos: não é nada do outro mundo! Um cidadão com 90 quilos precisaria enxugar apenas 4,5 quilos para começar a desfrutar das benesses. “Mas o ideal mesmo é perder 10% do peso em um período de seis meses”, esclarece a hepatologista Liana Codes, do Hospital Português da Bahia, em Salvador.

    O período mencionado pela médica tem sua razão de ser. Isso porque diminuir as medidas com muita rapidez é até perigoso para o fígado. “Dietas da moda e planos mirabolantes podem agravar um processo de inflamação no local”, alerta a nutricionista Wilza Peres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    E quais mudanças à mesa são mais indicadas? A chave não está em vilanizar um ingrediente ou outro, mas, sim, apostar numa alimentação variada, com a participação de boas fontes de carboidratos e gorduras.

    Outro assunto que ganhou os holofotes recentemente foi o papel da microbiota do intestino nessa história. Experimentos revelam que a estabilidade das bactérias que moram no sistema digestivo é fundamental para uma boa saúde hepática.

    “E alimentos ricos em fibras prebióticas e princípios bioativos anti-inflamatórios, como frutas, legumes e verduras, ajudam a manter a integridade da mucosa intestinal e equilibrar essa comunidade de micro-organismos”, aponta a nutricionista Rosângela Passos, da Universidade Federal da Bahia.

    Mudanças na alimentação sem radicalismos

    Carboidratos: Priorize aqueles que são integrais. Raízes, caso da mandioca e do inhame, são uma boa pedida. Os carboidratos simples, como o pão branco e a batata, pedem moderação.

    Gorduras: As poli-insaturadas, presentes no abacate, nas castanhas e nos peixes, são bem-vindas. Enquanto isso, atenção com a versão saturada, de queijos amarelos e carnes vermelhas.

    Probióticos: Iogurtes e leites fermentados cheios de bactérias do bem mantêm o equilíbrio da microbiota intestinal, que está relacionada a um funcionamento correto do fígado.

    Frutose: Saíram notícias por aí dizendo que o açúcar das frutas era o vilão por trás da esteatose. Calma lá: esses alimentos são ricos em fibras e, numa dieta diversificada, só trazem benefícios.

    Álcool: Melhor pegar leve. Por mais que as bebidas não sejam diretamente culpadas pelo estoque de gordura nessa região, elas podem causar prejuízos adicionais.

    2) Atividade física

    “Não adianta só mudar a alimentação. O emagrecimento será mais preponderante se aliado a exercícios”, garante a hepatologista Maria Lucia Gomes Ferraz, da Universidade Federal de São Paulo. Muito além de acelerar a perda de peso, fazer um esporte com regularidade traz ganhos diretos ao fígado.

    Um estudo realizado na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, atesta que mexer o corpo traz três vantagens principais: aliviar a resistência à insulina, aumentar a queima de triglicérides estocados e prevenir danos aos hepatócitos, o primeiro capítulo no desenvolvimento de cirrose e câncer. “Em resumo, trata-se de uma estratégia terapêutica comprovada para melhorar a esteatose”, escrevem os autores americanos.

    Esses efeitos não se limitam somente ao momento do suadouro. “Após a atividade física, para repor o estoque de energia dentro dos músculos, é preciso usar o excedente guardado no fígado”, destrincha a professora de educação física Carla Giuliano Montenegro, do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

    Mas será que existe alguma modalidade que potencializaria todas essas vantagens? “Por muito tempo se acreditou que os exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida e ciclismo, eram os mais indicados. Hoje sabemos que os treinos de força, caso da musculação, também são importantes”, ensina Carla. Cumprir a meta da Organização Mundial da Saúde de fazer 150 minutos de exercícios durante a semana já é suficiente.

    Mas nada de exageros, estamos combinados? A intensidade varia entre leve e moderada. Em termos práticos, isso significa conseguir falar um pouco sem perder totalmente o fôlego nas práticas aeróbicas e, no fortalecimento da musculatura, fazer de oito a 12 repetições nos movimentos — sempre com a orientação de um professor.

    O efeito dos exercícios

    Aeróbicos: Caminhada, corrida, natação e bicicleta são ótimas maneiras de aplacar o excesso de peso — passo fundamental na luta contra a esteatose.

    Resistência: Trabalhar os músculos na academia melhora a resistência à insulina e movimenta o estoque de gordura acumulada lá no fígado.

    3) O tratamento para gordura no fígado com remédio

    Ainda não inventaram um comprimido ou uma injeção capazes de frear a esteatose hepática. Isso não quer dizer, porém, que alguns remédios não possam ser prescritos. “Eles não atuam no problema em si, mas ajudam nos casos de esteato-hepatite para conter a inflamação”, explica a hepatologista Carla Matos, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

    As duas opções mais utilizadas são a vitamina E, suplemento de ação antioxidante, e a pioglitazona, que diminui as taxas de açúcar. “Além disso, é importante realizar o tratamento de outras condições comuns nesses pacientes, como o diabetes, a hipertensão e o colesterol elevado”, ressalta a hepatologista Tarsila Ribeiro, da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

    A decisão de iniciar qualquer terapia medicamentosa deve sempre partir do profissional de saúde, que vai determinar a dosagem e o tempo de uso. Aliás, a falta de alternativas nas drogarias faz com que centros de pesquisa e laboratórios farmacêuticos invistam pesado nessa área.

    De acordo com o site ClinicalTrials.Gov, um registro global de ensaios clínicos mantido pelo Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, existem 258 testes de novos fármacos contra a esteatose acontecendo neste exato momento. Alguns deles agem na resistência à insulina, um dos fatores que dão início ao quadro, enquanto outros atuam diretamente nos hepatócitos.

    Pelo menos nas fases primárias de estudo, as substâncias candidatas conseguiram estancar a evolução do problema. “Esperamos que novidades sejam lançadas nos próximos cinco anos”, estima o médico Paulo Lisboa Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

    Agora, mesmo a pílula mais moderna nunca vai substituir um estilo de vida saudável. O fígado sabe bem disso.

    Tratamentos disponíveis — e os que podem ser aprovados em breve

    Pioglitazona: Baixa a quantidade de açúcar na circulação.

    Vitamina E: Administrada por meio de cápsulas, tem efeito antioxidante.

    Vitamina D: Há indícios de que a suplementação traria algumas melhoras.

    Empaglifozina: Também retira um monte de glicose do organismo.

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  • Faz tempo que a humanidade se queixa das varizes. O primeiro registro que se conhece delas está estampado numa estátua de mármore feita quatro séculos antes de Cristo e encontrada em escavações nas proximidades de Atenas, dentro de um santuário construído em homenagem ao herói Amynos. A imagem, hoje guardada no Museu Nacional de Arqueologia da Grécia, retrata um homem segurando uma perna com veias dilatadas e tortuosas. A peça representa o agradecimento de um paciente após um tratamento bem-sucedido.

    Passados mais de dois milênios desde que a obra foi esculpida, as varizes continuam incomodando muita gente — e quem mais se queixa hoje são as mulheres. Estatísticas da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) indicam que 38% dos adultos convivem com ela.

    No público feminino, o número é ainda maior: 45% apresentam a condição. Entre as pessoas com 70 anos, 70% têm algum grau do quadro conhecido por insuficiência venosa crônica.

    Mas por que as varizes são tão corriqueiras? A culpa é da própria evolução da nossa espécie. Quando o ser humano passou a adotar a postura ereta e a andar apenas com os pés, ficou bem mais difícil levar o sangue das pernas de volta ao coração — imagine o esforço que é vencer a gravidade e fazer o líquido vermelho subir ao peito! “Com o tempo, as veias ficam debilitadas e deixam de cumprir seu papel”, explica o cirurgião vascular Nelson Wolosker, do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

    Mas engana-se quem pensa que o alargamento desses tubos nos membros inferiores seja apenas um impedimento para vestir short, maiô ou biquíni. Diversos estudos demonstram que o fenômeno está por trás de repercussões mais sérias à saúde.

    Uma pesquisa do Hospital Memorial Chang Gung, em Taiwan, por exemplo, acaba de confirmar que as varizes aumentam em cinco vezes o risco de trombose venosa, a formação de um coágulo nos vasos sanguíneos profundos.

    O trabalho, publicado no prestigiado periódico científico The Journal of American Medical Association, analisou os registros de 425 mil cidadãos da ilha asiática. Metade do grupo penava com as varizes, enquanto a outra parcela vivia livre delas. A investigação revela que ter o quadro dobra a probabilidade de um indivíduo sofrer uma grave embolia — quando um trombo sanguíneo se solta da periferia do corpo e vai parar lá nos pulmões, por exemplo.

    Por mais que esse elo já estivesse estabelecido pela ciência, ele não havia sido confirmado por um levantamento com números tão expressivos. A boa notícia é que os episódios de tromboembolismo pulmonar provocados pelas varizes não acontecem com tanta frequência.

    “Por outro lado, existem outras complicações mais comuns, como a inflamação dessas veias e o aparecimento de úlceras na pele, que são dolorosas e de difícil cicatrização”, diz o cirurgião vascular Gilberto Narchi, do Hospital do Coração, em São Paulo. Ainda bem que dá pra intervir muito antes de a situação ficar desse jeito.

    Quem precisa ficar atento às varizes

    O primeiro passo para driblar essa série de enrascadas — e, claro, botar a roupa de banho sem neura — é ficar de olho nas pernas, principalmente a partir dos 30 anos de idade. Geralmente, as varizes se manifestam por meio de manchas verdes ou roxas, que se expandem aos poucos. Outras pistas frequentes são o inchaço e a sensação de peso nos pés ao final do dia.

    “A doença começa muito antes dos sintomas, então é importante procurar um profissional o mais cedo possível”, aconselha o angiologista Marcelo Moraes, diretor da SBACV.

    A atenção deve ser redobrada se você tem um parente próximo com o problema — a genética influencia bastante por aqui. Outros fatores bem conhecidos são o envelhecimento, o ganho de peso, o sedentarismo, o uso de terapias hormonais e duas ou mais gestações.

    Recentemente, um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, acrescentou outro componente à lista, a altura. Numa análise genética de 413 mil voluntários, eles descobriram que, quanto mais alta a pessoa, mais costumeiras são as varizes.

    “Além de o caminho para bombear o sangue de volta ao coração ser mais longo, parece que há algo no DNA que relaciona o tamanho corporal com o desenvolvimento inadequado das veias”, especula a pesquisadora Alyssa Flores, coautora da investigação.

    De acordo com os médicos ouvidos por SAÚDE, as mulheres, mais sujeitas à intempérie, costumam marcar consultas com maior frequência e rapidez. Os homens, na contramão, deixam a coisa se arrastar por anos — por descuido ou por não reparar nos vasos irregulares em meio aos pelos das pernas.

    E olha que a detecção do problema não tem nada do outro mundo: o especialista faz o diagnóstico no próprio consultório. Ele ainda pode requisitar alguns exames complementares, como o ultrassom e o eco-doppler colorido, para determinar a gravidade e selecionar o melhor tipo de tratamento.

    Os principais causas das varizes

    Genética: Se você tem um familiar de primeiro grau com varizes, seu risco de desenvolvê-las também é alto.

    Hormônios: Remédios que mexem com o sistema hormonal chegam a alterar a integridade dos tubos sanguíneos.

    Obesidade: Os quilos extras sobrecarregam e pressionam os vasos responsáveis por transportar o sangue pelas pernas.

    Gestações: O crescimento do bebê no útero aperta as veias da pelve, o que repercute direto nos membros inferiores.

    Sedentarismo: Estimula o ganho de peso e deixa a panturrilha mirrada. Assim, o músculo não consegue realizar seu trabalho.

    Sexo: Mulheres sofrem mais com elas do que os homens. Parece que os hormônios têm um papel por aqui.

    Altura: Descoberta como fator de risco nos últimos meses, seu impacto ainda precisa ser mais bem estudado.

    Os tratamentos disponíveis

    As intervenções disponíveis para acabar com as varizes evoluíram muito e solucionam a chateação na maioria das vezes. A primeira escolha tende a ser a cirurgia convencional, utilizada há mais de 100 anos com segurança e eficácia. Por meio de pequenas incisões na pele, é possível extrair os vasos que estão doentes.

    Para quem busca alternativas menos invasivas, as técnicas de ablação por laser ou radiofrequência são uma boa pedida. “Introduzimos um cateter que gera um calor entre 120 e 400 ºC para destruir a veia com problema”, detalha o angiologista Arno Von Ristow, da Rede D’Or e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

    Outra saída bastante popular é a escleroterapia, que envolve a aplicação de uma substância com aspecto de espuma diretamente nas regiões afetadas. “Por meio de uma reação química, o vaso se inflama e se fecha, até desaparecer completamente”, resume o cirurgião vascular Marcelo Ruettimann Liberato, do Hospital São Rafael, em Salvador. São necessárias de duas a cinco sessões para completar o tratamento, que é feito em ambulatório, sem necessidade de internação ou anestesia.

    Tamanha facilidade fez com que a escleroterapia fosse incluída a partir de 2017 no Sistema Único de Saúde, o SUS. “Essa aprovação foi uma vitória para os milhares de indivíduos com insuficiência venosa crônica que estavam havia anos à espera de uma solução”, comemora Liberato, que coordenou um projeto-piloto com esse método na capital da Bahia.

    Só é preciso cuidado para não cair em ciladas: tem muito lugar suspeito oferecendo a escleroterapia por aí. “Não é uma coisa que você aprende num curso de fim de semana e faz indiscriminadamente”, avisa Moraes.

    A SBACV, aliás, iniciou uma campanha para alertar sobre os perigos dessa prática irregular. Se injetada de forma errada, a espuma pode causar alergias, infecções e até trombose. Para fugir dessas complicações, sempre procure o médico com a devida formação na área.

    Em resumo:

    Cirurgia: Geralmente é a primeira indicação, uma vez que pode ser realizada em várias veias de tamanhos e calibres distintos. A retirada não afeta em nada a circulação sanguínea, já que esses tubos doentes não cumpriam mais sua função. Apesar dos cortes pequenos, é necessário respeitar o repouso por alguns dias antes de retomar as atividades normais.

    Ablação: Trata-se de uma forma minimamente invasiva de queimar a parede interna dos vasos defeituosos por meio de raio laser ou radiofrequência. Como a operação usa cateteres, só é feita nos ductos maiores, como a safena, que vai da coxa até o meio da batata da perna. É necessário bastante cautela durante o procedimento para não lesar os nervos nas cercanias.

    Escleroterapia: A espuma do princípio ativo polidocanol irrita e destrói as células que compõem a veia. Com isso, o vaso danificado entra em colapso e some. Após algumas semanas, ele se transforma num cordão fibroso e acaba reabsorvido pelo corpo. A técnica é barata, simples e funciona nos quadros mais difíceis. O único porém é que 30% dos pacientes ficam com manchas na pele.

    E os vasinhos?

    Essas linhas arroxeadas parecidas com teias de aranha recebem o nome de telangiectasias. São veias bem menores que estão na derme e na epiderme. Elas não estão relacionadas a desajustes de saúde — o prejuízo é só estético mesmo.

    Quem tem muitas formações desse tipo deve ficar atento, pois é comum que as varizes apareçam em conjunto ou na sequência. Para secá-las, não carece de nada muito sofisticado: injeções de glicose administradas por um especialista dão conta do recado.

    Quando vira ferida

    As inflamações e úlceras na pele são um suplício. E estima-se que 1,5% dos brasileiros tenham essas feridas provocadas pela insuficiência venosa. É primordial seguir direitinho o tratamento com curativos e as recomendações de repouso para acelerar a recuperação.

    A importância do diagnóstico precoce

    Apesar de as opções cirúrgicas serem bastante confiáveis, nem sempre se recorre a elas logo de cara. Se diagnosticadas numa fase inicial, as varizes são manejadas de maneira conservadora, utilizando estratégias para que elas não progridam nem apresentem sintomas.

    Nesse sentido, a meia elástica é uma parceira para todas as horas. “Ela aperta alguns pontos específicos da perna com o objetivo de melhorar o retorno do sangue ao coração”, explica o angiologista Walter Campos Júnior, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

    O uso contínuo da peça reduz a dor e o inchaço ao final do dia. Ela está indicada tanto para casos recém-diagnosticados quanto para aquelas pessoas que já fizeram uma intervenção — em cerca de 20% das vezes, a doença retorna em outros vasos dos membros inferiores nos três anos seguintes.

    Existem ainda medicamentos da classe dos flebotônicos que dão uma força extra ao sistema circulatório. Os mais famosos deles são de origem fitoterápica, como a castanha-da-índia e a hamamélis. Esses produtos, cuja utilização pede sempre orientação médica, aumentam o tônus dos tubos sanguíneos e têm propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes.

    Só não espere que façam milagres… “Eles não evitam o problema em si, mas aliviam queixas como o inchaço e a dor”, aponta Campos Junior.

    Não dá pra se esquecer também do papel da atividade física nesse contexto. “Movimentar e fortalecer a panturrilha e os demais músculos é essencial para aprimorar o fluxo sanguíneo”, ressalta o cirurgião vascular Tony Furuie, do Hospital Santa Cruz, na capital paulista. Isso sem contar o efeito do exercício na perda de peso — como vimos, a obesidade é um dos principais promotores da doença.

    Ao contrário dos gregos antigos, hoje em dia não há mais razão para esculpir estátuas a fim de mostrar um ideal de corpo ou celebrar a melhora das varizes. Nossas pernas podem (e devem!) ficar sempre livres, leves e soltas. A saúde e a autoestima vão agradecer.

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