• A hipertensão atinge cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo sem distinguir sexo, etnia, religião ou classe social. Por ser uma doença extremamente comum, é normal que surjam crendices populares sobre remédios naturais e tratamentos que supostamente ajudariam a controlar a pressão. Um deles é o chá de salsa. O leitor Bruno Alves trouxe esse questionamento: será que a bebida faz bem para quem tem pressão alta?

    Quem nos responde é Valeria Arruda, diretora do Departamento de Nutrição da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). “Não existe embasamento científico expressivo para confirmar isso. Os poucos estudos que mostram esse efeito foram realizados com animais e utilizaram apenas o extrato da semente da salsa”, afirma a nutricionista.

    De acordo com ela, existem diversos compostos bioativos sendo estudados para auxiliar no controle de várias doenças, mas o chá de salsa não faz parte desse grupo. Ainda assim, você não precisa excluir a planta do seu prato. A salsa é rica em vitaminas A, B1, B2 e C e também é fonte de minerais como cálcio, potássio, fósforo, enxofre, magnésio e ferro. Pode recrutá-la como tempero – e sem medo!

    O que dá para mudar à mesa

    Em termos de alimentação para auxiliar no controle da hipertensão, não tem jeito: o principal recado é ficar muito atento ao consumo de sódio, mineral presente no sal de cozinha e em muitos produtos industrializados. Em excesso, ele contribui para o aperto dos vasos sanguíneos e a subida da pressão.

    Dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo IBGE no período de 2008 a 2009 em 55 970 domicílios, mostraram uma ingestão de 4,7 gramas de sódio por pessoa ao dia (considerando o consumo diário de 2 000 calorias). Esse número excede em mais de duas vezes o consumo máximo recomendado do nutriente, que é de 2 gramas ao dia.

    Em 2014, na pesquisa Vigitel, conduzida pelo Ministério da Saúde, outro dado chamou a atenção: apenas 15,5% das pessoas entrevistadas relataram reconhecer um conteúdo alto ou muito alto de sódio nos alimentos. “Isso nos preocupa bastante, ainda mais porque que a população vem aumentando o consumo de itens industrializados, que são ricos no mineral”, aponta Valeria.

    E o alerta para maneirar no sódio vale para todo mundo, já que uma porção de gente convive com a hipertensão e nem sabe – ou está em risco para desenvolver o problema.

    Segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), um em cada quatro adultos no Brasil são hipertensos. A doença é responsável por 40% dos infartos, 80% dos derrames e 25% dos casos de insuficiência renal terminal no país.

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  • Ler o rótulo dos alimentos não é coisa de amador. “Ele tem formato não muito atrativo, que exige esforço do consumidor, conhecimento nutricional e tempo para ser entendido”, avalia a nutricionista Rosane Nascimento, assessora institucional do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN). Mas, para a alegria dos profissionais de saúde, vem mudança por aí. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (a Anvisa) estuda propostas para um novo sistema de rotulagem.

    “Essa discussão é necessária e urgente”, ressalta Rosane, lembrando que o modelo atual é de 2003. Ora, se o consumidor não consegue interpretar os dados contidos na embalagem, fica difícil fazer escolhas conscientes e compatíveis com um estilo de vida mais saudável.

    De acordo com a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), está claro que gordura, açúcar e sódio são nutrientes fortemente associados ao desenvolvimento de doenças crônicas. Só que, hoje, falta clareza para identificar os produtos ricos nessas substâncias – e que, por esse motivo, deveriam ser consumidos com moderação.

    Até o momento, a Anvisa recebeu três sugestões de rotulagem frontal – uma da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), outra do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e a terceira da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia). Agora, ela pode escolher um modelo ou mesclar características de dois ou até dos três formatos propostos.

    O que surgir daí irá para uma consulta pública no site da agência e todos conseguirão opinar. As mudanças nas embalagens devem ser vistas em cerca de dois anos. A seguir, conheça melhor os rótulos submetidos ao crivo da Anvisa.

    Nutri-Score

    Quem defende: Associação Brasileira de Nutrologia (Abran)

    Trata-se de uma adaptação do modelo já utilizado na França. Cores (do verde para o vermelho) e letras (do A ao E) ajudam a categorizar o produto. De acordo com o nutrólogo Carlos Alberto Nogueira, da Abran, o diferencial do Nutri-Score é que ele avalia o alimento como um todo, levando em conta suas características boas e também as problemáticas.

    Para o item ter chance de ganhar a letra A (e a cor verde), precisa agregar pontos positivos, que seriam teor de frutas e legumes, fibras e proteínas. Já os pontos negativos, capazes de culminar na letra E (e cor vermelha) são energia (calorias), gordura/gordura saturada, açúcares totais e sódio.

    “Caso um item seja classificado como E, o consumidor será informado o que levou a isso”, informa Nogueira. Assim, uma pessoa hipertensa, por exemplo, conseguirá saber se a nota ruim de determinado produto tem a ver com o sódio, mineral que ela precisa consumir com extrema moderação.

    Outra característica apontada como vantajosa no Nutri-Score é o fato de todos os alimentos serem avaliados de acordo com uma base de 100 gramas. Ou seja, mesmo que a tabela nutricional apresente as informações de acordo com porções menores (como 30 gramas, muito comum para bolachas recheadas), o rótulo frontal – esse de cores – se fundamentará em 100 gramas. Para Nogueira, trata-se de uma estratégia importante para evitar manipulação e facilitar a comparação dos alimentos.

    Porém, esses modelos que se valem das cores do semáforo não agradam todo mundo. “As cores podem ser confundidas com os tons da própria embalagem”, observa Rosane. Daí o rótulo frontal passaria despercebido.

    A nutricionista Laís Amaral, nutricionista do Idec, concorda e acrescenta: “O Guia Alimentar da População Brasileira prevê que o consumo de itens processados e ultraprocessados deve ser evitado. Mas, se um alimento receber A ou B, dá a impressão de que pode ser consumido livremente, sem nenhum tipo de prejuízo”.

    Selo de advertência

    Quem defende: Instituto de Defesa do Consumidor (Idec)

    Nesse modelo, já usado no Chile, o objetivo é incluir um selo de advertência – representado por um triângulo preto – para indicar excessos de nutrientes críticos, como açúcar, sódio e gorduras totais, além da presença de adoçante e gordura trans em alimentos processados e ultraprocessados. Pacotes de sal ou açúcar e garrafas de óleos, que são ingredientes culinários, não entram no esquema. Contudo, a ideia é ter um alerta para uso moderado.

    Se um produto receber um triângulo (ele pode ganhar mais de um…), automaticamente fica proibido de apresentar uma comunicação mercadológica direcionada a crianças. Na prática, a embalagem não terá desenhos, personagens nem brindes.

    A marca ainda não poderá destacar alegações nutricionais positivas, como “rico em ferro” e “fontes de fibras”. “A gente quer chamar atenção para o nutriente crítico em excesso. Se o consumidor se depara com algo positivo, esse dado acaba anulando aquela informação de advertência”, esclarece Laís.

    “O modelo apresentado pelo Idec atende plenamente ao objetivo de tornar as informações mais claras e acessíveis ao consumidor, porque não exige bastante esforço para entender quais alimentos têm altos teores de determinados nutrientes”, defende Rosane, representante do CFN.

    Maria Edna de Melo diz que a Abeso também se identifica mais com a proposta do Idec, assim como outras 20 e tantas entidades que se posicionaram oficialmente. “Não é preciso nem saber ler para entender a rotulagem do Idec. Quanto mais triângulos, mais problemas”, avalia.

    Contudo, a médica faz uma ressalva: não é muito fã do triângulo preto para indicar a presença de adoçante. “Não temos evidência científica suficiente para colocar esse ingrediente na mesma categoria de açúcar, gordura e sal”, opina. “E isso é um problema porque estamos falando de uma medida de saúde pública, válida para todo mundo. Não deve ser baseada em hipóteses”, acrescenta.

    Vale lembrar que os edulcorantes artificiais são indicados para dietas com restrição de açúcar, como aquelas recomendadas a indivíduos com diabetes. Por isso, essa parte da proposta do Idec também desagrada a nutricionista Débora Bohnen Guimarães, coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). “Uma ação como essa pode deixar o paciente com diabetes sem opções para adoçar um alimento, levando a descontentamento com o plano alimentar e diminuição da aderência ao mesmo. À luz dos conhecimentos científicos disponíveis até o momento, não temos nenhuma evidência de risco do uso de edulcorantes não calóricos à saúde humana”, pontua.

    Para Carlos Nogueira, da Abran, outra questão que joga contra o modelo do Idec é o fato de dar a entender que o alimento é um perigo. “Mas a ideia é alertar mesmo. O triângulo não significa que o produto é proibido. O objetivo é garantir o direito à informação, permitindo uma escolha consciente”, rebate Laís.

    Semáforo nutricional

    Quem defende: Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação

    Assim como a proposta da Abran, esse modelo se vale das cores do semáforo – consideradas de entendimento universal – para transmitir as informações nutricionais. Só que, em vez de avaliar o alimento como um todo, o “farol” da Abia foca em três nutrientes: sódio, açúcares totais e gorduras saturadas. Cada um recebe uma cor com base na quantidade em que aparece no produto.

    “Não queremos dizer para o consumidor se o alimento é bom ou ruim, e sim o que ele contém. É para observar e decidir de acordo com as características de sua dieta”, conta Daniella Cunha, diretora de Relações Institucionais da Abia. Ela exemplifica: “Se o indivíduo precisa moderar no açúcar, vai atrás do produto com menor dose do nutriente”. E, para fazer essa comparação, bastaria olhar a cor que esse ingrediente recebe na embalagem (o verde é sempre o melhor).

    A grande crítica relacionada a essa proposta é o fato de que os três nutrientes – sódio, açúcar e gorduras saturadas – são considerados problemáticos. E o consumidor precisaria interpretar a mistura de cores. “Vamos imaginar um alimento com três selos amarelos, e outro que contenha um selo de cada cor, ou seja, verde, amarelo e vermelho. Qual devo comprar?”, questiona a nutricionista Laís, do Idec. “Esse modelo acaba mais confundindo do que ajudando o consumidor”, opina.

    O nutrólogo Carlos Nogueira aponta mais uma fragilidade do semáforo da Abia: a avaliação dos alimentos de acordo com a porção, e não por 100 gramas. Lembra da bolacha recheada? Os dados costumam ser analisados por 30 gramas, o que dá três bolachas. Só que não é necessariamente o que a pessoa consumirá. “Isso aumenta o risco de manipulação”, diz o médico.

    Para Laís, não utilizar a mesma base de comparação (como os 100 gramas defendidos pela Abran e pelo Idec) deixa o consumidor em outra encruzilhada: como conferir os prós e contras de alimentos de categorias diferentes, como um iogurte e uma barra de cereal?

    Como dá para notar, há virtudes e limitações nos três. Não à toa, o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, coordenador do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Cardiologia, não tem um preferido. Ele brinca que o ideal seria mesclar todas as propostas.

    “Nosso desejo é que o rótulo não seja punitivo e ajude as pessoas a manterem uma dieta saudável”, resume. E na sua opinião, qual proposta atende melhor às necessidades de nós, consumidores? Não custa pensar nisso, afinal, logo mais a Anvisa vai abrir a possibilidade de darmos palpite também.

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  • Já se vão quase 50 anos desde que o médico americano Robert Atkins (1930-2003) lançou sua famosa dieta, caracterizada pela eliminação brutal de carboidratos (arroz, pães, massas…) e por uma maior permissividade em relação às gorduras. De lá pra cá, cardápios similares ficaram à espreita do prato, ora alcançando popularidade, ora caindo em desuso. A onda da vez, queridinha entre quem quer emagrecer sem demora, é conhecida como low carb, termo em inglês para cardápio com pouco carboidrato. Segundo o Google, principal site de buscas na internet, ela foi a dieta mais procurada em 2017 pelos brasileiros, com um crescimento de 986% em relação a 2016.

    Nem precisa gastar seu tempo vasculhando quanto carboidrato é permitido nesse modelo alimentar. Não há consenso quanto a isso – o que dificulta, do ponto de vista científico, chegar a conclusões sobre o método. Em geral, fala-se em um consumo de 20 a 40% do nutriente em relação às calorias ingeridas em um dia, ou algo em torno de 50 a 100 gramas. Em uma dieta tradicional, suas fontes devem representar de 55 a 65% das calorias diárias. É uma baixa considerável.

    Na ponta do lápis

    Dieta tradicional
    Indica-se que de 55 a 65% das calorias consumidas diariamente sejam de fontes de carboidratos.

    Dieta low carb
    De todas as calorias ingeridas no dia, só de 20 a 40% deveriam vir do famigerado nutriente.

    Mas, mais do que bitolar na quantidade, a low carb propõe foco no tipo de alimento escolhido para suprir essa demanda. As pessoas são incentivadas a obter os carboidratos a partir de legumes e verduras. Já grãos, cereais, farináceos, algumas frutas e tudo que leva açúcar saem de cena por causa do alto teor da substância. Para ter ideia, é preciso dar adeus ao pão do café da manhã e ao arroz com feijão do almoço. No outro lado da balança, o que sobe é a ingestão de redutos de gorduras e proteínas.

    Não é difícil explicar por que esse cardápio causou frisson entre quem está preocupado com as dobras na cintura. “Sabemos que as dietas low carb levam a uma perda de peso rápida”, informa o endocrinologista Bruno Halpern, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Só que esse fato, tão apreciado pelo público, não é animador para parte dos especialistas na área. Na visão de Halpern, como as fontes de proteínas e gorduras saciam bastante, as pessoas passam a comer menos – daí emagrecem mesmo. O dilema é que, segundo ele, essas dietas restritivas são menos efetivas com o tempo. Lá vem efeito sanfona…

    Para Antonio Herbert Lancha Jr., professor titular de nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), até o emagrecimento ligeiro merece vista grossa. Isso porque a queda súbita no número que a balança exibe não significaria necessariamente uma queima de gordura. Calma que a gente explica o mistério.

    Low carb e emagrecimento

    O carboidrato é um dos elementos que determinam a presença de água dentro de nossas células. Portanto, quando o nutriente está em falta, o líquido vai embora. “As pessoas acham que a variação do peso vem da eliminação de gordura. Mas, na realidade, elas só perderam água”, esclarece Lancha Jr., que também é autor do livro O Fim das Dietas (Editora Abril). Pior: de acordo com experimentos do professor, nesse bolo a massa magra também vai para o espaço. E os músculos são justamente nossos maiores torradores de energia e gordura corporal.

    O endocrinologista Pedro Assed, do Rio de Janeiro, concorda que é válido colocar essas questões em pauta. Afinal, desidratar ou ver a musculatura minguar não é nada desejável, apesar de o peso parecer adequado. “Nesses casos, é necessário um plano para reverter a situação. E ele envolve ajustes na dieta e em outros hábitos, como o tempo de sono e jejum“, descreve o médico.

    Então, o problema não estaria na low carb em si, mas no fato de ela ser realizada sem acompanhamento. Segundo o nutrólogo e neurologista Rafael Higashi, diretor da clínica Higashi, no Rio de Janeiro, caso o profissional não tenha aparelhos para verificar a taxa de gordura do paciente – como o de bioimpedância -, pode medir braço, panturrilha e força muscular. “Se houver perda em 30 dias, há algo errado”, avisa.

    De qualquer forma, em termos de perda de peso, não é pra esperar milagres. Há evidências de que tanto faz investir na low carb ou em uma dieta baseada na redução de gorduras ou de calorias. “Uma das premissas para o emagrecimento é gastar mais do que consumir”, resume a nutricionista Ana Beatriz Barrella, da RG Nutri, na capital paulista. Ao revisar vários estudos publicados de 2005 a 2016 sobre todas essas estratégias, pesquisadores da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, concluíram que a perda de peso advinda da low carb seria insignificativamente maior – coisa de 1 a 2 quilos.

    Os cientistas salientaram ainda que só é possível garantir a segurança do método por seis meses, já que a maioria das experiências é de curto prazo. Fora isso, informam que, nos trabalhos, não dá para identificar a qualidade das fontes de proteínas e gorduras colocadas no prato.

    Portanto, é altamente contraindicado consultar o vizinho ou a internet na hora de montar o cardápio. Há quem interprete, por exemplo, que tudo bem comer, dia após dia, bacon, picanha, salsicha e frango com pele frito na banha de porco. Lembre-se: os impactos negativos vão além do peso.

    Ao carregar a mão na gordura animal, por exemplo, as consequências não são nada agradáveis. “Esse hábito pode chegar a dobrar o colesterol total, a triplicar o colesterol LDL e a reduzir pela metade o HDL“, alerta a nutricionista Nágila Damasceno, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP e membro da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Caso tenha se perdido nas siglas, a gente explica: enquanto o colesterol LDL deposita gordura nas artérias, o HDL a tira de circulação. Entendeu o enrosco?

    De acordo com a nutricionista clínica Isabella Vorccaro, da capital paulista, para minimizar qualquer ameaça, o ideal é privilegiar itens como azeite, abacate, coco, castanhas e sementes, ricos em gorduras insaturadas, reconhecidamente mais benéficas. “Eles geram saciedade e, ao mesmo tempo, ofertam vitaminas, minerais e fibras“, esclarece.

    Escrito nos hormônios

    Para os defensores da low carb, não é surpresa que outras estratégias – como simplesmente reduzir o tamanho das porções de comida – emagreçam na mesma magnitude. Mas a alegação para coibir o carboidrato não para por aí. “O consumo exagerado desse nutriente leva a uma superestimulação do pâncreas, com maior produção de insulina”, aponta Isabella.

    E o excesso desse hormônio é ligado a um maior risco de engordar e ficar diabético. Fora isso, o açúcar derivado do carboidrato contribuiria com processos inflamatórios, situação que patrocina muitas doenças.

    Que ter insulina aos montes na circulação não é bacana, ninguém discorda. Mas, para quem não é tão fã da low carb, outras questões merecem debate. Para começar, a produção do hormônio não é incitada apenas pela glicose derivada dos carboidratos.

    “Algumas proteínas e gorduras também estimulam esse processo”, explica a nutricionista Bruna Reis, do Conselho Regional de Nutricionistas – 3ª Região (CRN-3). Logo, ignorar o arroz do bufê e cair de boca na fraldinha não garantem folga ao pâncreas – a produção de insulina também será instigada.

    Nágila, da Socesp, frisa que o hormônio faz parte de um metabolismo saudável, já que abre as portas para glicose, proteínas e gorduras entrarem nos tecidos. “Essa história só se torna perigosa se comemos em excesso”, avisa a nutricionista.

    Nesse contexto, o pâncreas produz tanta insulina que, para se proteger, os tecidos se fecham. Ocorre, assim, um aumento do hormônio circulante e uma maior resistência à sua ação. E, se a insulina não atua direito, de fato sobra açúcar no sangue, um estopim para encrencas. “Mas isso se dá mais pelo abuso do todo”, reitera Nágila.

    Lancha Jr. também defende que é maldade colocar a oscilação de insulina só nas costas dos carboidratos. “Vamos supor que 90% de sua dieta venha de pão. Só que você consumirá tudo isso com um caminhão de alface. Pronto: o índice glicêmico já é compensado, assim como a liberação de insulina”, raciocina. O exemplo é surreal, claro, mas ilustra como o pico de açúcar no sangue depende bastante do que agregamos à refeição.

    Tem outro ponto: o que conta pra valer são quantidade e tipos de carboidratos escolhidos. Todos os especialistas concordam que exageramos em alimentos que fazem a glicose e a insulina dispararem – arroz e massas refinadas, sobremesas e refrigerantes são exemplos. Só que, em vez de ir para o extremo (a low carb), o pulo do gato seria maneirar e substituir esses itens por versões boas do nutriente, como arroz e massas integrais, grãos, cereais e frutas.

    É que elas são lotadas de fibras, substâncias que freiam a subida da glicose no sangue. “Isso, por si só, já altera o padrão de produção da insulina”, reforça o biólogo e nutricionista Geraldo Thedei, da Universidade de Uberaba (MG).

    Há mais argumentos favoráveis às trocas, e não ao corte radical. “Alguns estudos demonstram que a dieta restrita em carboidratos, especialmente nesses ricos em fibras, modificam a diversidade de bactérias no intestino, o que predisporia a problemas inflamatórios, como alergias e doenças autoimunes”, diz Bruna.

    Agora, para quem já recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2, a low carb pode até ser uma saída para domar a glicemia. O pesquisador Grant Brinkworth, da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, na Austrália, viu essa faceta da dieta de perto. Em experiência com 115 diabéticos, metade seguiu uma alimentação com baixo teor de carboidratos (14% das necessidades calóricas diárias), enquanto outra parte focou na redução de gorduras. “Embora os dois grupos tenham perdido peso de forma similar, quem aderiu à low carb conseguiu controlar melhor a doença”, revela Brinkworth.

    A nutricionista Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), confirma que alguns pacientes se beneficiam bastante do método – quando bem-feito e individualizado. Contudo, ressalta que tanto a SBD como as organizações internacionais que atuam com esse público priorizam um cenário de equilíbrio nutricional, em que há, sim, espaço para os carboidratos. “Evitar o terrorismo nutricional é essencial para a adesão ao tratamento”, defende.

    Caso você tenha chegado até aqui sem a certeza se a low carb é um bom investimento, tranquilo. No fim das contas, o melhor padrão alimentar é aquele factível de ser seguido. “E isso depende do perfil do paciente”, pondera Assed. O crucial é não embarcar em modismos sem a orientação de um profissional. Ele consegue avaliar, de forma global, se a dieta está valendo a pena. O primeiro erro é deixar isso só a critério da balança.

    Cetogênica é outra coisa

    Esse estilo de dieta é uma versão bem mais radical da low carb. Em geral, o consumo de carboidratos não passa de 10%. Já o de gordura chega a incríveis 90%. Nágila Damasceno avisa que tal cardápio só vale para situações muito específicas, como quadros de epilepsia que não respondem a remédios.

    Mas tem gente que anda recorrendo à dieta cetogênica para secar a barriga. Na visão de Geraldo Thedei, da Universidade de Uberaba (MG), é um verdadeiro disparate. “Há produção elevada de substâncias que mudam o pH do sangue. Isso traz riscos para o organismo”, alerta. Para completar, o menu é pobre em vitaminas, minerais, fibras… “Trata-se de uma deseducação alimentar”, crava Thedei.

    Tem que malhar

    Caso escute por aí que a low carb ajudou fulano a emagrecer 30, 40, 50 quilos sem atividade física, saiba: não há vantagem alguma nisso. “Exercício nunca é dispensável”, declara a nutricionista Isabella Vorccaro. “Inclusive, é um dos pilares da saúde”, acrescenta. Ocorre que, ao cortar os carboidratos, muita gente sente uma indisposição tremenda. Normal, pois o nutriente nos fornece energia. A solução, porém, não é parar de se mexer. Nem se entupir de cafeína. “Ela não produz energia. Só disfarça a fadiga”, aponta Gabriela Parise, nutricionista da RG Nutri. Fora que pegar pesado nos estimulantes pode acarretar danos depois.

    O QUE PODE COMER

    Os grupos alimentares abaixo dão uma ideia do que é o padrão low carb na prática

    Café

    Sem açúcar, tá? Chás e água com limão podem também.

    Laticínios

    Iogurte natural, ricota e cottage são opções.

    Azeite

    O óleo da azeitona tem gordura boa.

    Carnes

    De vaca, frango, peixe… Vale tudo.

    Cogumelos

    De todos os tipos, à vontade.

    Ovos

    Liberados em qualquer refeição.

    Tubérculos

    Batata-doce e inhame seriam os melhores.

    Frutas com baixo índice glicêmico

    Abacate, coco, morango e damasco fazem parte da lista.

    Leguminosas

    Grão-de-bico e lentilha, mas com muita moderação.

    Verduras e legumes

    Pode variar e investir sem medo.

    Oleaginosas

    Prove amêndoas, castanhas, nozes…

    O QUE É MELHOR EVITAR

    Os alimentos e grupos abaixo são contraindicados na dieta low carb

    Leite desnatado

    O ponto fraco é que não tem gordura.

    Doces

    Têm açúcar pra dar e vender.

    Massas

    Aposente macarrão, lasanha, nhoque…

    Industrializados

    Não são considerados comida de verdade.

    Milho

    Em qualquer receita, ele está vetado.

    Pães

    É o símbolo máximo do carboidrato, né?

    Sucos de frutas

    Tem que evitar os naturais e o néctar.

    Tapioca

    É bastante similar ao pão.

    Refrigerante

    Um verdadeiro poço de açúcar.

    Frutas com alto índice glicêmico

    Banana, melancia, manga, uva e abacaxi são exemplos.

    Arroz branco

    Nem o integral deve entrar no prato.

    Batata-inglesa

    Tem menos fibras que os outros tubérculos.

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  • A partir de hoje, todos os produtos com alegações terapêuticas da empresa Bella Você Natural não podem ser distribuídos, divulgados e, principalmente, comercializados no Brasil. No portfólio da empresa, havia uma série de cápsulas, óleos, sementes e outros itens que ajudariam a emagrecer, combater a disfunção erétil, afastar a gripe…

    A medida, já publicado no Diário Oficial da União, decorre do fato de que a empresa em questão não tinha qualquer registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ou seja, nenhum de seus produtos tem qualquer comprovação de eficiência ou mesmo de segurança.

    Dito de outra forma, não dá pra saber se o que está no rótulo de fato corresponderia à realidade. E olha: as embalagens dos produtos, pelo menos no site, prometem maravilhas. Ah, se fosse verdade…

    Um único item, por exemplo, alega emagrecer, reduzir o colesterol, melhorar o humor, fortalecer o sistema imunológico, combater a TPM e regular o intestino! Ao se deparar com esse tipo de produto, desconfie. Se você pretende remediar algo, procure um profissional.

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  • Que tal se refrescar, nesse calorão, com uma taça de frozen à base de farinha de beterraba? Pois saiba que 30 pessoas receberam o convite para degustar a nova receita, bolada por cientistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e da Universidade do Alto Vale do Rio do Peixe (Uniarp).

    O sucesso foi absoluto – e não só pelo sabor. A turma se deleitou com doses extras de fibras, potássio, magnésio e cálcio. Mas o destaque ficou por conta de antioxidantes poderosos. Desse grupo, o nome que sobressai é a betalaína, que inclusive confere o tom peculiar do vegetal. “Nós também criamos um cookie, e as crianças que participaram da degustação adoraram”, conta a química Bianca Schveitzer, da Epagri, e uma das autoras do trabalho que avaliou os teores de nutrientes desses preparos diferenciados.

    Os estudiosos catarinenses não dispensaram nem mesmo folhas e talos em novas experiências. Segundo o engenheiro agrônomo Gentil Gabardo, professor da Uniarp, essas partes são ótimas fontes de vitaminas e sais minerais. Aliás, às vezes até levam a melhor em quantidade quando comparadas à própria beterraba. Panquecas e pães enriquecidos com a nutritiva farinha são os próximos itens a sair do forno dos pesquisadores.

    Beterraba para o coração… e muito mais
    Em outros pontos do país, o alimento também protagoniza novos estudos. A nutricionista Anna Paula Oliveira Gomes, juntamente com as professoras Patrícia Borges Botelho, da Universidade de Brasília (UnB), e Caroline Dario Capitani, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apurou a atuação de folhagens e hastes da planta em prol dos vasos sanguíneos.

    Para isso, elas ofereceram uma bebida preparada com essas partes a um grupo de indivíduos com colesterol e triglicérides alterados após uma refeição repleta de gordura saturada – aquela que, em excesso, ameaça o coração. Os resultados indicam que a receita é capaz de minimizar a redução de HDL, o chamado bom colesterol. Em outras palavras, há indícios de que ela contribua para o equilíbrio nas taxas da molécula gordurosa, mecanismo que zela pela saúde cardíaca.

    Por trás desse feito estão compostos flavonoides de nomes bem peculiares. “As folhas e os talos de beterraba são ricos em vitexina-ramnoside”, exemplifica Anna Paula. Eles conseguem a façanha de modular proteínas envolvidas no transporte de colesterol, promovendo uma espécie de faxina nas artérias. Assim, elas tendem a ficar livres de processos inflamatórios e entupimentos.

    Não há dúvidas de que o coração bate feliz quando tem beterraba no prato. Um estudo publicado no periódico Hypertension comprovou que seu suco ajuda a reduzir a pressão. O alimento melhora a função e a elasticidade dos vasos – aí o sangue circula sem aperto. Embora o efeito resulte do combo de substâncias presentes no vegetal, um ingrediente especial desperta a atenção da ciência nesse quesito: o nitrato.

    O tal nitrato presente nos talos, nas folhas e na própria beterraba tem o mérito de apresentar alto poder vasodilatador. Em outras palavras, ele é precursor de óxido nítrico, substância que é velha conhecida por relaxar as artérias.

    Portanto, favorece a oxigenação de todo o organismo. De olho nisso, já dá para imaginar que o consumo da hortaliça também agrade ao cérebro, né? Um trabalho publicado na revista científica Journals of Gerontology comprova a benesse.

    Pesquisadores deram uma bebida à base da hortaliça a um grupo de 25 voluntários com mais de 55 anos de idade antes da prática de exercícios. Ao final da experiência, observou-se um impacto positivo na região cerebral relacionada ao controle motor.

    Outra evidência que cada vez ganha mais força é de que o nitrato contribui com a demanda de oxigênio para a musculatura. Daí o posto de parceiro dos esportistas. Há, inclusive, comprovação de que aumente a capacidade física.

    O nutricionista Murilo Dáttilo, da RG Nutri, na capital paulista, comenta que, em situações específicas, caso de competições, há indicação de suplemento de suco de beterraba com concentração de nitrato padronizada.

    Não significa, veja bem, que qualquer pessoa possa sair por aí consumindo esses produtos, tá? Vale ressaltar que a cautela é restrita ao uso de suplementação. Não há contraindicação quando se trata do alimento in natura.

    Cada parte, um benefício
    Folhas: são as responsáveis por dar gás ao desenvolvimento do vegetal, transformando energia luminosa em carboidratos. Guardam boas doses de minerais e de vitamina C, baita aliada da nossa imunidade.

    O macete é prestar atenção na hora da compra. A folhagem deve ser brilhante. As chamadas folhas de beterraba baby são ótimas cruas em saladas e sucos. Mas, para total absorção dos nutrientes, vale refogá-las rapidamente.

    Talos: além de sustentar as folhas, conduzem nutrientes para a raiz. Não à toa concentram fibras, vitaminas e substâncias como os carotenoides, festejados principalmente pela proteção aos nossos olhos.

    Observe se o tom das hastes está bem vivo e capriche na higienização antes de botar na panela. Dá para incluir em receitas de omeletes, vinagretes, sopas, quiches, farofas, patês e até bolos.

    Raiz: é o órgão de reserva da planta. Acumula açúcares, que são a fonte de energia utilizada nos processos celulares. Seu diferencial, porém, é a coloração resultante de potentes antioxidantes, as betalaínas.

    Cozinhar com casca, em panela de pressão, é uma boa pedida para evitar grandes perdas, especialmente das badaladas betalaínas. Outra opção que preserva seus nutrientes é consumir a beterraba crua em saladas, sanduíches e sucos.

    O açúcar da beterraba é um perigo?
    Sem paranoia: até diabéticos podem colocar a beterraba no cardápio. “Ela não é proibida”, afirma a nutricionista Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes. O teor de carboidrato é baixo e até parecido com o de alimentos insuspeitos, caso do chuchu.

    Isso sem falar na presença das fibras, substâncias que asseguram uma resposta glicêmica gradual – assim, não há picos de açúcar no sangue. Maristela explica que há muita confusão em torno da hortaliça. “É a versão branca que serve de matéria-prima para a produção de açúcar”, lembra. Aí a colorida acaba banida do prato injustamente.

    O engenheiro agrônomo Luis Felipe Villani Purquerio, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), explica que existem diferentes tipos de beterraba, mas que é somente da branca que se extrai a sacarose. “Ela tende a acumular mais açúcar”, ensina.

    No Brasil, graças à abundância de cana-de-açúcar, não usamos a hortaliça para esse fim, mas em países como a França ela atende à boa parte do mercado açucareiro. E quem deu impulso a essa indústria foi ninguém menos que Napoleão Bonaparte (1769-1821). O imperador entregou pessoalmente uma medalha ao cientista que criou a primeira fábrica.

    Apesar do parentesco forte, a beterraba esbranquiçada perde feio para a vibrante no quesito antioxidantes. “Essa capacidade é menos expressiva devido à ausência das betalaínas”, explica a bióloga Ana Paula Preczenhak, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo, em Piracicaba. Muito mais que colorir o vegetal e combater radicais livres, as betalaínas têm propriedades anti-inflamatórias e já figuram em estudos pela sua capacidade de proteger contra o câncer.

    Não se assuste se esse grupo de pigmentos deixar sua marca no vaso sanitário. “Eles podem passar quase intactos pelo trato digestivo, interferindo com a cor das fezes“, explica a nutricionista Norka Beatriz Barrueto, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A professora avisa que o efeito tende a cessar após 48 horas e acredita que essa situação não sinaliza anemia, como já foi sugerido.

    Por falar em deficiência de ferro, embora a raiz ofereça o mineral, ele não é bem aproveitado. “Para melhorar a absorção, consuma a hortaliça junto de um alimento fonte de vitamina C”, sugere a nutricionista Renata Guirau, do Oba Hortifruti. Então, que tal um suco de laranja com beterraba no próximo café da manhã? Abuse da criatividade e deixe o resto por conta da super-hortaliça.

    O que a beterraba é, afinal?
    Originária das regiões de clima temperado da Europa e do norte da África, a beterraba (de nome oficial Beta vulgaris) é chamada popularmente de raiz tuberosa, uma designação comum a vegetais que acumulam nutrientes na raiz principal e embaixo da terra. Como servem de estoque energético para a planta, essas hortaliças são muito ricas. A má notícia é que, mesmo abaixo do solo, não estão livres de apresentar resíduos de defensivos agrícolas, os indesejáveis agrotóxicos. Portanto, sempre que der, priorize as versões orgânicas.

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  • Eliminar fontes de carboidratos – pães, massas e afins – da rotina está na moda. Discussões à parte sobre o efeito disso na perda de peso, um novo estudo dá motivos para grávidas ou mulheres que estão planejando engravidar não seguirem a tal dieta low carb.

    Segundo os pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill (EUA), esse padrão alimentar aumenta o risco de o feto apresentar defeitos no tubo neural, o que pode levar a incapacidades para o resto da vida e até mesmo à morte. No trabalho, foram analisadas 11 285 gestações ocorridas entre 1998 e 2011.

    “Nós já sabíamos que a dieta da mulher antes e durante a gravidez tem papel importante no desenvolvimento do feto. A novidade é a sugestão de que uma dieta com pouco carboidrato pode aumentar o risco de o bebê ter defeitos no tubo neural em 30%”, informou a pesquisadora Tania Desrosiers, ao site da instituição. “Isso é preocupante, especialmente porque as dietas low carb são populares”, acrescentou.

    Para a cientista, esses achados demonstram a importância de a mulher, ao engravidar, conversar com profissionais de saúde sobre qualquer dieta ou hábito alimentar.

    O tal do ácido fólico
    Trata-se do nutriente essencial para garantir o bom desenvolvimento do tubo neural. Nos Estados Unidos, desde 1998 os produtos à base de grãos são enriquecidos com o ácido fólico. No Brasil, não é diferente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também exige que as farinhas de trigo e milho sejam turbinadas com a substância.

    De olho nisso, fica fácil entender por que abolir massas, pães e companhia não é uma boa ideia durante a gravidez ou no momento que antecede a concepção do bebê. Aí você pode pensar: “mas basta tomar um suplemento!”.

    A questão é que, como muitas gestações não são planejadas, boa parte das mulheres só recorre a esses itens mais tarde, depois que o defeito no tubo neural já teria ocorrido. Daí a relevância dos alimentos enriquecidos com o ácido fólico.

    De acordo com Tania, autora da pesquisa, investigações futuras são necessárias para ver se essa relação é válida para outras populações e também para entender exatamente de que maneira o consumo de carboidratos se relaciona com prejuízos no tubo neural.

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  • Picolé na praia? Nem pensar. O cafezinho depois do almoço também é dispensado. E não adianta oferecer um brigadeiro na sobremesa. Falando assim parece alguma dieta restritiva, mas na verdade são medidas protetoras contra a hipersensibilidade dentinária – popularmente conhecida como sensibilidade dentária ou dentes sensíveis. Quem tem o problema tende a evitar alimentos com uma destas características: gelado, quente ou doce.

    Pudera. Basta dar um gole ou uma garfada neles para sentir, do nada, uma pontada aguda e de curta duração. “É como um calafrio que começa no dente e se espalha. A impressão é que chega até a alma”, descreve o jornalista Ricardo Gonçalves, que tem 27 anos e descobriu a disfunção há três.

    Quando foi ao dentista, ele entendeu que nem toda dor é sinal de cárie. Na verdade, a sensibilidade está longe de ter algo a ver com bactérias – e aflige muito mais pessoas do que os temidos bichinhos. Segundo pesquisa encomendada pela marca Sensodyne à agência Kantar, a condição seria o principal distúrbio de saúde bucal dos brasileiros – entre mil homens e mulheres entrevistados, 32% relataram conviver com os choquinhos no dente. “Dependendo da faixa etária e renda, a prevalência pode ser bem maior, chegando até a 70%”, conta o dentista Paulo Vinícius Soares, professor da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais.

    Embora possamos ter mais indivíduos com dentes sensíveis do que com cárie no Brasil, é o último assunto que atrai holofotes. Na visão de Soares, que estuda a hipersensibilidade há 12 anos e coordena o único centro de pesquisa da América Latina registrado para investigar o fenômeno, é fácil explicar a contradição. “A maioria das ações públicas de prevenção em saúde bucal está ligada a doenças bacterianas, como a cárie. Nossos líderes ainda não entenderam que há mais pessoas sofrendo com sensibilidade e, por isso, precisamos agir”, opina. Não é para ignorar a cárie, claro, mas, sim, ampliar o foco.

    A origem do problema

    Mas, se não tem micro-organismo na jogada, então de onde vem a sensibilidade? Bem, ela nada mais é do que um sinal de falha no sistema de proteção dentária. Devido à erosão do esmalte ou retração da gengiva, ocorre a exposição da parte interna da estrutura – a dentina e seus túbulos dentinários. “Esses túbulos são canais cheios de líquido que possuem terminações nervosas. Qualquer estímulo que mude sua pressão, como o alimento doce, ou a temperatura, a exemplo dos itens quentes e frios, incentiva a movimentação do fluido, levando à dor”, explica a dentista Thaís Araújo, de São Paulo.

    “Depois que comecei a sentir o incômodo, passei a escovar os dentes que nem louco, de quatro a sete vezes ao dia”, narra Ricardo. Não é um exemplo a ser seguido. Higienizar mais do que três vezes faz parte da receita para o menu gerar agonia. “Esse comportamento só agrava o processo de deterioração do esmalte“, explica Soares. A lista de agentes danificadores não para aí. Ela inclui também o hábito de apertar os dentes em momentos de ansiedade e estresse. “Na posição de repouso da boca, o certo é deixar os lábios fechados e a arcada separada”, instrui Soares. Existe até um aplicativo de celular chamado Desencoste Seus Dentes, que envia notificações de hora em hora para nos lembrar disso.

    Vale citar ainda o atrito, já que o desgaste pode dar as caras a partir do uso de cremes dentais agressivos e da força excessiva na hora da limpeza. “Uma dica é observar se as cerdas da sua escova estão deformadas. Em caso positivo, é sinal de que a escovação está errada”, avisa Thaís. Já a corrosão, mais um fator de risco importante, está diretamente ligada à presença de ácidos. E eles podem parar na boca tanto por causa de infortúnios como refluxo quanto por culpa de alimentos com essa característica – frutas cítricas, refrigerantes e café são os clássicos.

    Dá para resolver

    Assim como a origem, a solução para a encrenca tem múltiplas facetas – e vai além do creme dental para dentes sensíveis. A estratégia depende de qual o estopim do problema. Para identificá-lo corretamente, o ideal é buscar ajuda assim que o choquinho se revelar. “Um dos grandes erros é o indivíduo achar que a solução é só comprar uma pasta especial. Mas não existe autotratamento. Tem que procurar o dentista”, avisa Soares.

    Só que, de acordo com a pesquisa encomendada pela Sensodyne, a maioria das pessoas espera até sentir fortes dores para marcar a consulta. Atitude arriscada. Como quase todo imbróglio de saúde, há a possibilidade de a sensibilidade evoluir e se transformar em uma inflamação grave. “Nesses casos extremos, a única forma de resolver é com tratamento de canal. Daí é necessário retirar o nervo e matar o dente”, avisa Thaís.

    Não deixe chegar a esse ponto. Quem procura o especialista antes de o martírio ficar insuportável tem uma gama de tratamentos à disposição. Um deles é o enxerto, quando um pedaço do céu da boca é colocado na gengiva para driblar a retração. Também dá para cobrir a área exposta da raiz com uma resina ou recorrer a um laser para aliviar a dor. Há ainda os dessensibilizantes, analgésicos aplicados dentro do consultório.

    “Mas o melhor é sempre atuar na prevenção”, ressalta Thaís. Para isso, olho vivo nos comportamentos traiçoeiros. Comece prestando atenção na sua boca. Enquanto ela está fechada, os dentes de cima encostam nos de baixo? Se sim, afaste-os imediatamente. Parece exagero, mas chato mesmo é cair de boca no picolé (e outras delícias) e sentir arrependimento em vez de prazer.

    Causadores de choques

    Quem tem sensibilidade dentária costuma sofrer com um destes tipos de alimentos:

    Gelado

    É o campeão em disparar as pontadas. Se, além de frio, o item for ácido, pior ainda. Basta ingerir para ver estrelas. É o caso de refris, limonadas…

    Quente

    Em vez de acordar, o cafezinho pelando pode incitar pesadelos. Dependendo da gravidade do quadro, até o arroz com feijão morno já incomoda.

    Doce

    Ao entrar em contato com a raiz exposta, itens lotados de açúcar são capazes de deslocar o fluido que fica na região. Daí a sensação dolorosa.

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  • O Google News Lab, a divisão de jornalismo da gigante de tecnologia americana, lançou há pouco o “I’m Not Feeling Well” (Não Estou Me Sentindo Bem, em tradução livre), um projeto que tem o objetivo de investigar como o interesse na internet por determinados temas de saúde muda de acordo com a época do ano. Entre diversos achados, o trabalho revelou um aumento expressivo no número de buscas por palavras como “vômito”, “diarreia“, “febre”, “dor abdominal” e “enjoo” durante o verão.

    Curiosamente, todos eles são sinais de virose, uma condição que estraga viagens à praia, encerra cruzeiros marítimos antes da hora e está relacionada a uma perda produtiva superior a 227 bilhões de reais por ano no mundo inteiro.

    “Quando esquenta, as pessoas ficam menos em casa, saem da rotina, vão visitar outros lugares, fazem refeições fora, fatores que elevam o risco de enfrentar o problema”, lista o infectologista Alessandro Farias, do Hospital Português da Bahia. O próprio calor, aliás, acelera a decomposição da comida, outro patrocinador do revestrés na barriga.

    Antes de mais nada, vale dizer que “virose” se refere a toda infecção por vírus – ao pé da letra, até mesmo a aids pode ser encaixada nessa categoria. Porém, os médicos utilizam o termo para falar das gastroenterites virais.

    Seus principais causadores são o enterovírus, o coronavírus e o rotavírus. Eles marcam presença em minúsculos pedaços de cocô ou vômito que ficam na pele após o uso do banheiro. Caso o sujeito não lave as mãos direito, contamina água e alimentos que outros vão consumir e, sem saber, acabarão infectados por esses agentes.

    A primeira parada do vírus é o estômago. Ele irrita as paredes do órgão, o que desata a vontade de vomitar. Logo em seguida, o invasor desce para o intestino. “Por lá, prejudica algumas células e dispara a secreção de líquidos e sais minerais, que vão embora na diarreia”, ensina a gastroenterologista Marcia Wehba Cavichio, do Fleury Medicina e Saúde.

    Naturalmente, esses incômodos assustam qualquer um e estão entre os grandes motivos de idas ao pronto-socorro, ao lado de traumatismos e dor no peito.

    O diagnóstico da virose depende do relato do indivíduo: não há necessidade de fazer exames de sangue ou de imagem. “Descobrir o tipo de vírus que está atacando, o que seria possível por meio de um teste laboratorial, não vai influenciar a evolução do quadro ou o tratamento”, esclarece o médico Eduardo Alexandrino de Medeiros, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia.

    Portanto, não estranhe se você sair do consultório com apenas recomendações básicas – não tem por que tomar antibióticos, por exemplo, uma vez que eles atuam contra bactérias e não têm poder sobre vírus. Essas medidas simples já ajudam bastante a superar o piriri em questão de dias.

    Ficar de olho na hidratação é a regra número um para controlar a gastroenterite. Além da boa e velha água, aposte no soro, que pode ser feito em casa (confira abaixo) ou comprado nas farmácias – a água de coco, rica em sais minerais, também ajuda. Isotônicos, sucos, energéticos e bebidas alcoólicas são contraindicados.

    Sobre a dieta, a sugestão é restringir o consumo de gordura e açúcar. Nos primeiros dias, arroz branco, batata cozida, canja e peito de frango grelhado formam um mix ideal. “Além disso, prescrevemos algumas medicações para cuidar da febre, da dor e dos episódios de vômito”, acrescenta o infectologista Daniel Wagner de Castro, do Hospital São Luiz, em São Paulo.

    Se a situação não der sinais de melhora em três ou quatro dias, é bom voltar ao centro médico para ver se não há algo mais sério. A passagem pelo pronto-socorro ainda se torna necessária diante de sintomas graves, como sangue e pus nas fezes, garganta inflamada, olhos fundos, pele seca, prostração, pressão baixa e pouca vontade de urinar. “A atenção deve ser maior em crianças e idosos, que têm risco elevado de sofrer com as complicações da desidratação”, observa o gastroenterologista Carlos Frederico Porto Alegre, do Hospital Norte D’Or, no Rio de Janeiro.

    Mas saiba que dá para reduzir a probabilidade de a infecção atrapalhar sua vida. “A maneira mais eficaz de prevenir as viroses é lavar bem as mãos depois de ir ao banheiro”, indica a infectologista Mirian de Freitas Dal Ben Corradi, do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista. Também existe uma vacina contra o rotavírus, disponível para as crianças, uma das faixas etárias vulneráveis.

    A comida é digna de precaução em todas as idades. Fora de casa, escolha restaurantes e bares de confiança. Na sua própria cozinha, sempre higienize os vegetais, não deixe recipientes longe da geladeira por muito tempo, fique atento ao prazo de validade e verifique pistas de decomposição, como mau cheiro ou mudanças de cor. Afinal, todo mundo merece curtir o verão sem penar com os rebuliços na barriga.

    Receita para prevenir

    Frutas e legumes são itens primordiais de um cardápio saudável. Mas, antes de comê-los, é importante se certificar que estão limpos. A recomendação é lavar na torneira e, depois, deixar de molho por 20 minutos numa solução com 1 litro de água e uma colher de sopa de hipoclorito de sódio.

    Receita para tratar

    A fim de abreviar as chateações das viroses, mantenha o corpo hidratado. Nesse sentido, o soro caseiro é um santo remédio: misture uma colher de sopa de açúcar e uma colher de chá de sal em 1 litro de água. O gosto é neutro: nem doce nem salgado.

    Sobrou para nariz, garganta e pulmões

    Se as viroses intestinais são comuns no calor, as infecções respiratórias preferem o frio. “No inverno, ficamos mais próximos e em ambientes fechados, o que facilita a transmissão, que ocorre por gotículas de saliva”, explica o médico Eduardo de Medeiros. Os vilões dos resfriados são o rinovírus, o vírus sincicial e o adenovírus, entre outros. Repouso e hidratação são os principais recursos terapêuticos disponíveis.

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  • Todo ano, a publicação americana U.S. News & World Report divulga o ranking Best Diets (traduzindo: Melhores Dietas). Para realizá-lo, são ouvidos especialistas de instituições americanas de peso, como Johns Hopkins, Tufts Medical Center, Universidade Harvard, Mayo Clinic e por aí vai. Da análise desse júri saem as campeãs em diversas categorias: a dieta ideal para emagrecer, a mais fácil de seguir, a que controla melhor o diabetes…

    E há a grande vencedora na classificação geral. Neste ano, duas estratégias alimentares dividem a medalha de ouro. Uma delas é figurinha carimbada no pódio: trata-se da DASH, sigla em inglês que significa Medidas Dietéticas para Controlar a Hipertensão. Ao seu lado, está a Dieta Mediterrânea, reverenciada em diversos estudos científicos.

    A DASH
    Seu principal objetivo é prevenir e controlar a pressão alta, fazendo cair, assim, o risco de encrencas como infarto e derrame. No cardápio, são priorizados alimentos ricos em substâncias como potássio, cálcio, proteínas e fibras. Na prática, a ideia é investir naqueles grupos reconhecidamente saudáveis – ou seja, frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, carnes magras e lácteos com baixo teor de gordura.

    Por outro lado, é preciso limitar o consumo de fontes de gorduras saturadas, a exemplo de carnes gordas e laticínios integrais, e produtos abastecidos de açúcar, como doces, refrigerantes, néctares…

    Acima de tudo, recomenda-se, claro, prestar bastante atenção na quantidade de sódio, o mineral que faz a pressão decolar. Ele está no sal de cozinha e em um monte de produtos industrializados. A indicação é não exceder os 2 300 miligramas de sódio por dia – o melhor mesmo seria ingerir até 1 500 miligramas.

    A Dieta Mediterrânea
    As vantagens atribuídas a ela são diversas. Dá para citar perda de peso, prevenção de câncer, menor risco e controle de diabetes, além de benefícios para o coração e cérebro.

    Tem esse nome porque é seguida por povos que moram perto do Mar Mediterrâneo, no sul da Europa, e que são conhecidos por terem uma longa expectativa de vida.

    Mas não dá para definir um cardápio fechado. No site da U.S News, é lembrado que os gregos comem diferente dos italianos, que, por sua vez, não fazem o mesmo tipo de refeição dos franceses e espanhóis. O que não dá para negar: existem similaridades cruciais entre os pratos dessas populações.

    Por exemplo: frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas, azeite de oliva e ervas e especiarias aromáticas são comuns nas refeições dessa gente toda. Os peixes e frutos do mar também têm lugar especial no menu. Frango, ovo, queijos e iogurte aparecem com moderação, enquanto os doces e a carne vermelha ficam restritos a ocasiões especiais.

    Um item bastante lembrado ao falar de Dieta Mediterrânea é o vinho tinto, cheio de resveratrol – substância lembrada, entre outras coisas, por blindar o coração. Mas não é para encher a cara: recomenda-se uma taça por dia. Aliás, o suco de uva integral é uma ótima alternativa.

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  • Na boca, a cárie se forma a partir das bactérias Streptococcus mutans, que formam grupinhos chamados de placas (ou biofilme) para abocanhar a sacarose, o açúcar dos restos de comida. Elas produzem um ácido que corrói os minerais do dente até quebrá-lo.

    Mas, tirando esses aspectos biológicos, ainda há muita coisa que as pessoas não sabem sobre esse problema. E que, até por isso, podem contribuir para a piora da saúde bucal. É aí que entra a SAÚDE com um especial sobre fatos importantes (e ainda pouco conhecidos) sobre as cáries. Confira:

    Ter cárie não é normal

    Embora mais da metade dos brasileiros já tenha tido cárie alguma vez na vida, ela não deve ser encarada como um problema trivial. É importante agir para evitar que manchas e pontinhos apareçam e levem à quebra ou à perda do dente.

    O bacana é que, segundo o Ministério da Saúde, a incidência da chateação na população brasileira caiu de 69% em 2003 para 56% em 2010. Parte desse resultado se deve à Política Nacional de Saúde Bucal, chamada Brasil Sorridente.

    Criado em 2003, o programa, entre outras ações, fomentou a incorporação de flúor à água. No entanto, a cárie ainda é o maior problema em consultórios odontológicos. “Se houver mudanças na alimentação e na higiene, é possível paralisar a doença”, diz Fausto Mendes, odontopediatra da Universidade de São Paulo (USP).

    É mais que uma questão estética

    Sim, a cárie é capaz de afetar a autoestima. “Uma criança pode desenvolver problemas de socialização”, nota Mendes. Prevenir-se da encrenca, porém, é muito mais do que garantir um sorriso bonito.

    Se não for tratada, a cárie lesiona a camada da dentina, provocando dor e sensibilidade. Mais: o indivíduo mastiga menos e sabota a digestão.

    Em estágio avançado, ataca a polpa dentária, tecido mole com nervos e vasos sanguíneos, causando infecção. “Se os micro-organismos atingirem a corrente sanguínea, é um perigo”, alerta a dentista Amélia Mamede, diretora da Associação Brasileira de Odontologia (ABO). “Já atendi um paciente que precisou ir para a UTI por causa de uma infecção em um dente de leite”, lembra. Pois é: as bactérias e a inflamação gerada por elas semeiam a discórdiaem outros cantos do corpo.

    A culpa não é toda da bactéria

    Anos atrás, a ciência atribuía a cárie exclusivamente aos micro-organismos. Mas tem outro vilão nessa história, o açúcar dos alimentos. “As bactérias estão na boca de todo mundo. Mas o açúcar, além de ser transformado em ácido por elas, seleciona aqueles exemplares com maior habilidade para esse processo”, explica o dentista Jaime Cury, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    A saliva ajuda a equilibrar a acidez da região e devolver os minerais ao dente, mas, quando há doce demais, não dá conta do recado. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda reduzir o açúcar a no máximo 10% das calorias ingeridas por dia, algo em torno de dez colheres de chá. E não vá dormir sem escovação – afinal, é quando você ficará mais tempo à mercê das bactérias.

    Bochecho com muita água após escovar os dentes pode ser problema
    As pesquisas, a bem da verdade, ainda divergem sobre esse ponto. Um estudo escocês publicado no periódico Caries Research acompanhou mais de 3 mil crianças por três anos e concluiu que fazer bochecho com água depois da escovação prejudicaria os dentes.

    Outro levantamento, na mesma edição, apontou o contrário. Nele, os pesquisadores avaliaram 276 adolescentes de 12 anos. A turma que recebeu orientação de realizar o enxágue não apresentou mais cárie do que quem apenas cuspia a espuma. E os dois grupos desenvolveram menos a doença em comparação aos jovens que não foram orientados sobre o jeito certo de usar a escova.

    Jaime Cury, da Unicamp, explica que de fato o líquido reduz um pouco a concentração de flúor deixada na boca pela pasta. “Mas só quem tem mais propensão à cárie precisa diminuir a quantidade de água na hora do bochecho”, pondera. A dentista Amélia Mamede dá uma dica para poupar o mineral da diluição: “Não passe a escova embaixo da torneira depois de colocar o creme dental”.

    Cárie não é transmissível

    Há quem acredite que é possível espalhar a doença com um beijo ou ao dividir um copo. A crença é baseada naquela ideia de que as bactérias são as únicas responsáveis pela chateação – e, portanto, passariam de uma boca a outra. Mas, como já vimos, a ciência deu seu veredicto. “Cárie não é infecciosa nem transmissível. Ela depende da dieta e da higiene do indivíduo”, reforça a odontopediatra Helenice Biancalana, vice-presidente da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD). Não custa relembrar: o principal agente da redução de cárie no mundo é o flúor, presente na água e na pasta ou aplicado em consultório.

    Escovar mais vezes não significa maior proteção

    O flúor da pasta ajuda a impedir o desenvolvimento da cárie. Fora que a ação mecânica decorrente da escovação dificulta a instalação da doença. Porém, isso não é motivo para viver escovando os dentes.

    Uma pesquisa até chegou a observar os efeitos da higienização antes das refeições. “As análises não verificaram ganhos entre aqueles que fazem isso. O ritual após as refeições, sim, é essencial porque remove os restos de alimentos”, afirma Fausto Mendes.

    Sem contar que, ao limpar a boca depois de comer, você garante pelo menos três escovações por dia, o número ideal aconselhado por dentistas. Escovar os dentes duas vezes por dia reduz em 70% o risco de ter cárie.

    Dente de leite com cárie também é encrenca

    Ele nasce a partir dos 4 meses de vida e pode permanecer até 12 anos na boca – por isso é tão importante quanto o permanente. Hoje, sabe-se que quem tem pontos pretos e manchas nos dentes ainda criança corre maior risco de reincidência mais tarde.

    Por sua vez, os pequenos acostumados a escovar os dentes tendem a manter o hábito pela vida toda. “Se o indivíduo atravessou a primeira e a segunda infância sem cárie, significa que tem uma dieta saudável”, avalia Cury.

    Vale lembrar que o dente de leite abre caminho para o definitivo. “Se for retirado porque a cárie atingiu a polpa, o permanente pode sair no lugar errado ou torto”, avisa Amélia. Além disso, há o risco de as bactérias caírem na corrente sanguínea, um perigo ainda maior para crianças.

    Fluorose, o outro lado da moeda

    Herói no combate à cárie, o flúor em excesso pode causar manchas brancas ou amareladas e deixar os dentes quebradiços. Apesar disso, dentistas rechaçam a ideia de abdicar do mineral. “A fluorose só se tornaria grave se a pessoa comesse creme dental no pão”, afirma Cury.

    E abrir mão do flúor prejudica a batalha contra a cárie, esta sim uma questão de saúde pública. Para prevenir o problema, a palavra de ordem é conter o ímpeto ao apertar o tubo de pasta. Bebês menores de 3 anos devem usar o equivalente a um grão de arroz cru. Acima dessa idade, incluindo adultos, a medida passa a ser igual a uma ervilha.

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